Karnal: ‘a causa de Rozângela é religiosa, não científica’

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Criticado por usar o termo “cura gay” no caso da decisão que autoriza terapias de reorientação sexual no país, o professor fez uma série de “considerações” sobre o caso em seu perfil de Facebook.

Por Rafael Bruza

A psicóloga Rozângela Alves Justino e o professor Leandro Karnal / Fotos – Reprodução

O professor da Universidade de Campinas, Leandro Karnal, publicou texto em seu perfil de Facebook nesta quinta-feira (21) em que comenta a decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, de autorizar psicólogos do país a oferecerem e estudarem terapias de “reorientação sexual”, contrariando resolução do Conselho Federal de Psicologia que proibia tais práticas.

O texto foi feito em resposta à juíza Valéria Longobardi, que questionou Karnal pela utilização do termo “cura gay” no caso.

“Leandro Karnal, me desculpe, adoro as coisas que você escreve, mas como Magistrada, sinto, desta vez você errou e feio. O Colega do Distrito Federal em NENHUM MOMENTO LIBEROU A CURA GAY. Sugiro a leitura da sentença!! Melhor sugiro a retirada deste post de péssimo gosto da sua página, você que sempre é um homem tão elegante”, diz a juíza na crítica. “Na verdade, houve ajuizamento de uma ação contra um dos tópicos do Estatuto do Conselho Regional de Psicologia, que permite aos psicólogos o tratamento em consultório de pessoas com orientação homossexual. Em resumo, o Magistrado, apenas salientou que, apesar de NÃO CONSIDERAR QUE HOMOSSEXUALISMO NÃO É DOENÇA, como vivemos num país livre, os cidadãos podem buscar os tratamentos que quiserem!!!! Ora, a liberdade ampla e geral e só para a imprensa e para os artistas??? Para nós não??? Achei correta a decisão. Deixo para suas considerações e dos demais leitores…..”, disse a juíza.

Desde que Waldemar Cláudio de Carvalho tomou a decisão de autorizar as terapias de reorientação sexual afirmando que segue os princípios da Organização Mundial da Saúde (OMS), páginas e sites de direita vêm criticando quem utiliza o termo “cura gay” no caso, com argumentos similares aos da juíza Valéria Longobardi.

Karnal foi um dos internautas que recebeu críticas pelo uso do termo. Em resposta à juíza, o professor fez uma série de “considerações” dizendo que a causa da psicóloga Rozangela Alves Justino é “religiosa” e não “científica”.

Ele também argumenta que a psicóloga foi à Justiça usando a ideia de que homossexuais têm direito tratamento de reorientação sexual como pretexto jurídico para concretizar sua intenção.

Confira o texto na íntegra:

Considerações

01) Obrigado pelo debate. Gosto do contraditório, base da justiça, especialmente em nível elevado e sem adjetivações. Vou aprofundar algumas questões

– Li muitas vezes a sentença desde o primeiro instante. A senhora tem absoluta razão. O texto não é um risco pelo que diz, mas por qual motivo e para quem diz. Explico-me:

Rozângela Alves Justino está atrás da ação popular que gerou a sentença. Ela é psicóloga e evangélica. Deu muitos depoimentos afirmando que ser homossexual era errado. Reforçou a ideia muitas vezes. Começou um trabalho de reversão de orientação sexual. Como isso é impossível cientificamente e contraria todo o parecer de cientistas , o conselho de psicologia estabeleceu norma: ninguém pode fazer isto e se dizer psicóloga. Claro que qualquer pastor ou padre ou rabino pode fazer, desde que não se intitule psicólogo. Cabe ao conselho regular a profissão, como a OAB faz com advogados. Rozângela foi advertida e punida mais de uma vez. Foi derrotada em todas as instâncias porque sua causa era religiosa e não científica.

Rozângela decidiu, então, usar um pretexto jurídico. Ninguém nunca fez e jamais fará qualquer medida que impeça um homossexual de acessar profissionais psicólogos. Aliás, suponho, homossexuais devem ser frequentes nos consultórios. O conselho federal jamais disse que um homossexual não possa ser submetido a muitas das terapias científicas em voga. O profissional o ajuda, colabora, questiona para que cada homossexual se entenda mais e a sua orientação sexual. Em nenhum momento cabe ao psicólogo dizer que é errado ou despertar a ideia de que seja possível mudar uma identidade sexual.

O que Rozângela queria ela consegui: usou um bom princípio (liberdade, garantido pela constituição) para atender pacientes homossexuais contra a determinação específica do Conselho. O juiz abriu uma brecha, mesmo sem mencionar.

Tento aprofundar com outra ideia. Imagine que alguém cometa assédio sexual em mulheres no consultório e, por isto, seja suspenso pelos conselhos médicos. Essa pessoa entra com uma ação pelo direito de atender mulheres na calada da noite em nome da liberdade médica, do bom atendimento e dos direitos individuais. Em nenhum momento cita na ação seus problemas de assédio, mas só invoca seu direito constitucional de ir e vir. Isso é que Rozângela conseguiu.

Não se trata de liberdade individual, mas de procedimento não científico. Sim alguém pode recorrer a exorcismo, mas não como psicólogo. O fato de a senhora usar a palavra homossexualismo no seu post, termo considerado preconceituoso e banido do meio acadêmico e psicológico contemporâneos, evidencia que sua prática com questões de gênero é pouco densa.

Sim, cara doutora, li muitas vezes a sentença e sou um bom hermeneuta e não me considero ingênuo politicamente. O que está por trás de uma luta que invoca liberdade é a imposição de dor e sofrimento a pessoas que já sofrem exclusão e preconceito. Alguém que tenha identidade sexual profunda homoafetiva jamais deixará de ter esta identidade. Começo a pensar que o mesmo ocorre com o preconceito e a homofobia. O problema não é sentença, mas os gritos dos autores que berram no pátio: crucifica-o e preferem o conforto do farisaísmo. Hermenêutica é fundamental para superar ingenuidade ou má-fé. Muito obrigado por permitir mais esse passo no debate. Tenha um bom dia.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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