Luciano Huck e a avenida sem carros da direita

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Sem Luciano Huck, abre-se uma “avenida sem carros” (expressão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia) na direita.

Escrevi neste Independente “Luciano Huck só não será candidato se ele não quiser”. E apontei o principal obstáculo para a sua candidatura: “os impactos negativos, das devassas que sofrerá de adversários”, concluí, “se ele tem esqueletos no armário, como a maioria que se envolve em negócios, melhor ficar em casa, porque o bombardeio amigo e inimigo será brutal”.

A assessoria do apresentador informou nesta quinta (15) que Luciano Huck desistiu de se candidatar à presidência da República. A decisão veio dias depois da notícia veiculada pela imprensa sobre um empréstimo de 17,7 milhões, realizado junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em benefício da empresa de Angélica e Huck, a Brisair Serviços Técnicos Aeronáuticos, para adquirir um jatinho.

Em política, o simbólico é suficiente para causar danos. Mesmo sem questionamentos sobre a legalidade da transação, o fato de um milionário, que se diz liberal e crítico do estado patrimonialista, servir-se deste para comprar um jatinho, não pegou bem. A repercussão foi negativa.

Se Luciano Huck insistisse na candidatura, outras informações desagradáveis a respeito de seus negócios particulares poderiam surgir, causando-lhe constrangimentos econômicos, familiares e profissionais. O apresentador recuou.

A desistência do ativista global favorece o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, tendo em vista que ambos concorreriam por espaço no mesmo nicho de poder. Os dois disputariam o eleitorado de classe média e “liberal’; os apoios econômicos do poder financeiro, midiático e empresarial; e  os partidos de centro, para montar suas respectivas chapas.

Vai daí por que a notícia do Painel da Folha, “aliados de Geraldo Alckmin respiram aliviados com a desistência de Luciano Huck” não causa surpresa. À imprensa, o presidente do PPS, Roberto Freire, disse “ a decisão de entrar para a política é difícil e solitária. No Brasil, ela só é uma decisão fácil pra quem já tem família na política. Para alguém como ele, sem nenhuma clã política, é uma decisão muito difícil”. O apresentador negociava filiação no PPS.

Os movimentos RenovaBR e Agora preparavam carta-convite para Huck se candidatar à presidência e esperavam que a sua candidatura fosse a “mola-propulsora” para eleger parlamentares. Órfãos, as duas “organizações” serão namoradas por outros pré-candidatos da direita liberal. Sem o global, o governador Geraldo Alckmin está com o caminho livre para se aliar a esses movimentos.

Outros nomes da centro-direita liberal; o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o próprio presidente da República, Michel Temer (MDB), estão na briga para disputarem a presidência da República. Meirelles e Temer apostam em eventuais sucessos do governo como a aprovação da Reforma da Previdência e impactos de resultados econômicos na popularidade do governo e do presidente Michel Temer. Rodrigo Maia conta com um fracasso da reforma e eventual incapacidade do governador Geraldo Alckmin em aglutinar partidos de centro em torno de sua candidatura.

Segundo informou o Estadão, nesta quinta (15), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia já prepara um discurso para engavetar a reforma da previdência no final de fevereiro (28). O deputado culpará o Planalto por não ter obtido apoio suficiente para aprovar a proposta. Maia diz na imprensa que a reforma é “necessária”, mas já se prepara para descolar-se da medida impopular e jogar o ônus de seu fracasso no colo do governo federal.

Geraldo Alckmin tem sérios problemas em São Paulo, pois um grupo tucano apóia a pré-candidatura do prefeito de São Paulo, João Dória, ao Palácio dos Bandeirantes, e o vice-governador Márcio França (PSB) quer o apoio do governador para ser o candidato ao governo de São Paulo. Alckmin precisa do PSB em São Paulo e em outros estados, especialmente no Nordeste. Qualquer decisão em SP terá custo alto para o presidente do PSDB.

Em café da manhã, com jornalistas, nesta sexta (16), Maia foi emblemático, “agora, que há uma avenida aberta sem carros na frente há, para todo mundo”. Sobrou até elogio para o deputado federal e pré-candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL-RJ), “não dá para tirar os méritos do Bolsonaro e ainda teve a sorte que a segurança se tornou um tema prioritário”, mas ressaltou, “o discurso extremado acaba perdendo força ao longo do processo, ele cresce e depois sai do processo”.

Para Maia, ainda é cedo para saber se Bolsonaro perde força a ponto de ficar fora de um segundo turno. Jair Bolsonaro busca conexões com o “mundo do mercado” para se consolidar com o eleitorado liberal e contar com o apoio de forças econômicas e midiáticas. A saída de Luciano Huck amplia os horizontes dessa avenida “aberta e sem carros”, na direita. Prova disso que menos de um dia depois da desistência do apresentador, a Folha de SP publica, sexta (16), que, sem Huck, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso apostará no presidente da Riachuelo, Flávio Rocha.  O ex-presidente nega.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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