Lugar de Fala

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A desigualdade social é resultado direto da alienação, tanto material quanto intelectual. O termo alienação remete a falta, perda, exclusão e incompletude, mas também exploração, roubo e extorsão. Não resta dúvida de que diversos meios de intimidação e coerção são utilizados pelas instituições que detêm o poder e isto dificulta muito toda possível compreensão sobre a real situação da nossa sociedade, mas mesmo nos esforçando para superar estes entraves nunca esgotaremos este entendimento, algo sempre irá nos escapar.

O que nos escapa é por conta mesmo da impossibilidade de perceber e deter todas as informações que configuram a realidade dos fatos e só nos resta boa vontade para minimizar os efeitos desta condição, buscando agregar de modo honesto todos os testemunhos, perspectivas e formas de pensar dos diversos atores sociais. Por isso a ideia de “lugar de fala” é um dos conceitos mais importantes que tem se estabelecido atualmente. Ele tem causado polêmica, acusado de relativismo, supervalorização da subjetividade e criador de julgamentos indenitários, um golpe certeiro nas noções de verdade e conhecimento. Essas críticas não são de todo sem razão, é preciso cuidado no uso deste conceito, mas o que não podemos é silenciar o fato de que estamos passando por um momento de mudança de paradigma.

Até pouco tempo atrás, mesmo depois da influência dos filósofos da ciência, acreditava-se que estas noções de verdade e conhecimento estavam ligadas a algum tipo de essência humana. Essa essência, como o nome indica, estaria presente igualmente em todos os seres humanos, evidenciada pelo pensamento racional que por sua vez nos daria a capacidade de compartilhar a linguagem, como se bastasse ouvir alguém dizer a verdade para compreende-la e respeita-la. Assim, se alguém não respeitasse alguma afirmação era apenas devido a uma vontade de transgredi-la, pura rebeldia.

Somente as críticas recentes diante dos problemas da aprendizagem, dos conflitos sociais  e entre os povos que nos fizeram rever esta crença. Não que alguns seres humanos não fossem capazes de ter estes pensamentos racionais, muito pelo contrário, mas justamente pelo fato de os detentores maiores deste discurso acumularem enganos sucessivos. Enganos que levaram a intransigência e atos cruéis de imposição da vontade pela força. De métodos violentos e indignos de ensino, quase sempre ineficientes, até a atos bárbaros sobre pretextos civilizatórios, a essência racional do homem se mostrou uma fantasia, que servia para esconder e até justificar as piores atitudes. Hoje está claro que muito da autoridade vem das forças políticas e não de alguma verdade inquestionável ou conhecimento de fato.

Essas críticas as autoridades e estado de forças políticas atuais se baseiam num vasto material registrado historicamente e nas implicações evidentes, tanto lógica como materialmente, das desigualdades sociais e dos sofrimentos que elas geram. Deste modo não podemos considerar que estas críticas não sejam racionais, elas inclusive elevam o nível de abstração do nosso pensamento.

O pensamento racional não seria então algo como uma essência humana, mas justamente um modo do ser humano lidar com essa alienação inevitável diante da realidade, transformando essa falta numa abertura que pode ser preenchida por uma crença, uma abstração. Por isso a abstração é sempre uma concepção a partir de uma falta, de algo que será excluído para garantir o sucesso do raciocínio. Podemos abstrair a realidade concreta, com o argumento de que nossos sentidos podem nos enganar, e nos conduzir apenas com ferramentas lógicas e discursivas. O pensamento que disso resulta é chamado dedutivo ou idealista. Podemos abstrair as ideias e nos focarmos nos nossos sentidos, considerando que mesmo quando falham ainda são nossos melhores guias. O pensamento que disso resulta é chamado indutivo ou materialista.

Os conflitos entre essas formas de pensar marcam o pensamento moderno, principalmente quando confrontados com as reflexões sobre a sociedade e o comportamento das pessoas comuns. Nenhuma dessas formas de pensar é capaz de dar conta das questões que surgem diante dessas reflexões, e disto surge outro nível de abstração, que podemos chamar de humanista, onde se preserva tanto a realidade material percebida e as mais diversas crenças, inerentes a qualquer pessoa, mas se abstrai a própria personalidade ou ponto de vista. Partindo desta postura de estranhamento e distanciamento diante da própria condição, podemos alcançar maior neutralidade e precisão nos conhecimentos sobre a sociedade.

Percebe-se que, se podemos e até precisamos abstrair de nossas personalidades ou perspectivas específicas para compreendermos melhor a sociedade, é evidente a importância deste elemento na composição da mesma. A sociedade é repleta de desigualdades, que deixam marcas visíveis nas personalidades e crenças das pessoas. As decisões delas não se pautam apenas nestas marcas, mas de algum modo elas as condicionam, como um efeito externo que elas têm de lidar. Por isso aprendemos muito sobre a sociedade e os diversos modos de vivencia-la com o testemunho de cada pessoa que não abstrai de seu “lugar de falar” e relata as suas experiências, principalmente de pessoas que compõe minorias que tem sido relegadas a tanto tempo. Um nível superior de abstração é alcançado então quando consideramos que as pessoas têm personalidade, linguagem e história e que isso compõe a realidade dos fatos e, portanto, não podem ser ignorados para realização de uma boa ciência.

Considerar que o conceito de “lugar de fala” serve apenas ao radicalismo é um engano, pois ele pressupõe exatamente a existência também de um lugar de escuta e reflexão. Por vezes podem surgir conflitos, provocados muito mais por aqueles que agem para censurar ou silenciar mais uma vez estes relatos, levados por uma completa falta de empatia. É comum também que após estes testemunhos não se espere ser retrucado ou nem mesmo qualquer resposta, mas sim a compreensão e o atendimento das justas reivindicações. Por isso o empoderamento, outro conceito importante relacionado, vai além de se orgulhar de sua identidade em espaços informais, algo sem dúvida imprescindível, mas também a conquista de representatividade em espaços de poder, como órgão públicos, mídia e academia. Da própria representatividade, de mulheres, negros, indígenas, membros da comunidade LGBT e de todas demais minorias falando por si mesmas, do modo que julgarem pertinente.

Marcelo Machado, cientista político pós-graduado pela PUC-SP, é pacifista e acredita na sociedade civil organizada como indutora de um desenvolvimento sustentável.

Cientista político pós-graduado pela PUC-SP, é pacifista e acredita na sociedade civil organizada como indutora de um desenvolvimento sustentável.

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