Lula: ‘Michel Temer sofreu uma tentativa de golpe da TV Globo’

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Em entrevista à Monica Bergamo, o ex-presidente se referiu a acontecimentos de maio de 2017, quando o jornal O Globo publicou editorial dizendo que a renúncia de Michel Temer seria o melhor para o país. Na época, Rodrigo Maia foi cogitado para assumir a Presidência da República através de eleições indiretas no Congresso Nacional.

Por Rafael Bruza

O ex-presidente Lula, durante entrevista em 2016 / Foto – Reprodução (Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, publicada nesta quinta-feira (01), em que comenta uma “vitória” de Michel Temer sobre uma “tentativa de golpe da TV Globo”, depois das delações da JBS, em maio de 2017.

“É importante ter em conta que o Temer teve vitória quando derrubou o golpe que a TV Globo, o Janot e o Joesley tentaram dar nele. Aquele golpe tinha como pressuposto o Temer cair, o Maia assumir a Presidência e o Janot ter um 3º mandato (na Procuradoria-Geral da República, PGR). “Houve uma tentativa de golpe, se não me explica o que aconteceu”.

O ex-presidente se refere aos acontecimentos que ocorreram depois da divulgação das delações de Joesley e Wesley Batista, da J&F, em maio de 2017, que citam o presidente diretamente.

Na época, Michel Temer chegou a preparar duas cartas de renúncia, mas decidiu seguir na Presidência da República.

“Não renunciarei”, declarou o presidente, após divulgação das delações.

Um dia depois, o jornal O Globo, principal impresso do conglomerado, fez um editorial chamado “A renúncia do presidente”, em que classifica a renúncia de Temer como o melhor para o país.

“Este jornal apoiou desde o primeiro instante o projeto reformista do presidente Michel Temer. Acreditou e acredita que, mais do que dele, o projeto é dos brasileiros, porque somente ele fará o Brasil encontrar o caminho do crescimento, fundamental para o bem-estar de todos os brasileiros”, diz o editorial. “Mas a crença nesse projeto não pode levar ao autoengano, à cegueira, a virar as costas para a verdade (…) A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará. É o que os cidadãos de bem esperam dele. Se não o fizer, arrastará o Brasil a uma crise política ainda mais profunda que, ninguém se engane, chegará, contudo, ao mesmo resultado, seja pelo impeachment, seja por denúncia acolhida pelo Supremo Tribunal Federal. O caminho pela frente não será fácil”.

Diversos atores políticos defendiam a renuncia de Michel Temer por entender que o presidente não seria capaz de aprovar as reformas Trabalhista e da Previdência enquanto respondia por escândalos de corrupção. A imprensa também se posicionou na época (“entenda o contexto clicando aqui”).

Na entrevista, Lula explicou por que acredita que a TV Globo defendeu a renúncia de Temer.

“Era importante manter o Janot. Era importante tirar o Temer. E era importante colocar o Rodrigo Maia. Isso para mim tá claro”, afirmou Lula. “O Temer se prestou a fazer o serviço do golpe. Mas não era uma figura palatável, e houve uma tentativa de golpe. Senão, me explica o que aconteceu”.

Lula afirma que o jornalismo da Globo não é livre.

“Você acha que na Globo [que publicou a primeira reportagem sobre a delação da J&F]alguém faz jornalismo livre? O jornalista decide e faz uma denúncia como aquela que foi feita contra o Temer? No mesmo dia já tinha jornalista (como Ricardo Noblat, também do Grupo Globo) apostando na renúncia do Temer. E já tava se discutindo quem ia assumir e o que ia acontecer”, afirma o ex-presidente, que segue na argumentação.

“Ora, o Temer resolveu enfrentar. Teve a coragem de desmascarar o Janot, o Joesley e ficou presidente. E ainda ganhou duas paradas no Congresso Nacional (para impedir que o processo contra ele no STF seguisse), não se sabe a que preço. A imprensa dizia que R$ 30 bilhões foram gastos, não sei quantos bilhões. Mas ganhou”, conclui.

Questionado pela jornalista sobre uma eventual admiração desta “vitória de Temer”, Lula disse, no entanto, que não mudou sua visão sobre Michel Temer.

“Eu continuo pensando o mesmo do Temer. Eu estou contando o fato. E o fato histórico não tem sentimentalismo. Tem uma fotografia”, afirma.

Relações de Lula com a imprensa

Na entrevista, Monica Bergamo afirma que Lula teve bom relacionamento com a TV Glob e o ex-presidente responde que mantinha uma postura republicana com a imprensa.

“Para não ser ingrato com os outros meios, eu vou olhar bem nos seus olhos e dizer: duvido que em algum momento da história desse país um presidente tenha tratado os meios de comunicação com a deferência e a ‘republicanidade’que eu tratei”, afirma Lula. “Eu tinha uma relação maravilhosa com o velho (Octavio) Frias (de Oliveira, editor da Folha ,morto em 2007). Eu tratei bem o Estadão. Eu tratei bem o Jornal do Brasil, a Globo, a Bandeirantes, o SBT, a Record. Você há de convir que tenho comportamento exemplar no meu tratamento com a imprensa brasileira. Mas acho que eles não são honestos na cobertura”.

“A Folha, mesmo nos bons tempos, nos anos 70, 75, quando começou a ser um jornal mais progressista, quando o pessoal de esquerda começou a ler, mesmo assim a gente sentia (no jornal) uma espécie de ojeriza de falar bem de uma coisa boa. É uma necessidade maluca de não parecer chapa branca. Ah, se fez uma matéria boa hoje, amanhã tem que fazer outra dando um cacete”, conclui o ex-presidente.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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