Mais uma vez, estão tentando ‘curar’ o amor

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Desde 1990, a homossexualidade está fora da lista internacional de doenças, mas alguns cidadãos e religiosos insistem em seguir correntes de séculos passados, tentando curar desejos sexuais que, na verdade, provém apenas do amor e de vontades espontâneas, tão naturais quanto qualquer desejo heterossexual.

Por Rafael Bruza

Ilustração

Uma decisão liminar (temporária) do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, permite que psicólogos ofereçam terapia de reversão sexual, conhecida como “cura gay”. Essa terapia parte do princípio de que a homossexualidade gera sofrimento ou é “antinatural”, então pode ser “revertida” para a pessoa ter um estilo de vida supostamente mais feliz.

Pois bem: este princípio é, obviamente, uma visão distorcida, temerosa e arcaica do assunto, pois há décadas a homossexualidade é vista como algo natural, enquanto a ideia de “reverter a sexualidade” de alguém por algum motivo foi aplicada (e descartada) nos séculos passados.

No século XVII, protestantes dos Estados Unidos assassinavam homossexuais para punir quem fizesse “atos indecentes”.

Em 1898, o Instituto Kansas de Doenças Mentais, localizado nos EUA, castrou 48 meninos com a mesma intenção. Certos pacientes inclusive buscavam voluntariamente a cirurgia de extração de testículos, acreditando que isso curaria seu desejo sexual.

E tem mais. Muito mais.

Em 1937, em Atlanta, médicos prometiam que seus pacientes desistiriam do “vício” depois de dez sessões de eletrochoques – repito: eletrochoques!!

Nos anos 50, na Checoslováquia, pacientes tomavam uma droga indutora de vômito e eram obrigados a ver cenas de homens nus. Depois, recebiam uma injeção de testosterona e eram expostos a imagens de mulheres nuas para despertar desejos sexuais artificialmente.

Até a lobotomia (intervenção direta no cérebro) foi usada para estes “tratamentos”. Mas em 1959, um relatório do Hospital Estadual Pilgrim, em Nova York, avaliou 100 casos e concluiu que os pacientes continuavam homossexuais.

Portanto, nunca conseguiram curar a homossexualidade. Por quê?

A resposta é simples: homossexualidade é algo natural e tão humana quanto a heterossexualidade.

Nunca foi nem nunca será uma doença.

Esta percepção realista do assunto foi ratificada pela Organização Mundial da Saúde há 27 anos, em 1990, quando a homossexualidade foi retirada da lista internacional de doenças, feita por essa entidade.

Desde então, o mundo avançou. Hoje casamentos homossexuais são permitidos em diversos países, inclusive no Brasil, que regulamentou o casamento civil homossexual em 2013.

Mas não vivemos em um mar de flores. Pelo contrário: ainda há setores conservadores extremamente preocupados com a sexualidade alheia – como se isso fosse da conta deles.

Cegos pela tradição que seguem e por passagens bíblicas pontuais que contrariam máximas profundas de Jesus Cristo – como “não julgueis se não quiserdes ser julgados”, “amai para serdes amados” e “olhai a trave em vosso olho antes de ver a farpa no olho alheio” -, setores religiosos defendem a tal “cura gay”, sem perceber que o sofrimento homossexual só existe por conta do preconceito latente e da ignorância de boa parte da sociedade.

Um cidadão homossexual não seria feliz se “curando”, pois isso significa abdicar de sua natural, espontânea e prazerosa sexualidade.

Para ser feliz, portanto, essa pessoa precisa aceitar seus desejos sexuais, compreendê-los e deixá-los livres para serem desfrutados com amor.

Isso serve também para cidadãos heterossexuais, tendo em vista que muitos héteros não aceitam alguns de seus desejos, se julgam e reprimem algumas vontades profundas de forma consciente ou inconsciente, o que, de fato, é bastante lamentável para eles.

Se cristãos entendessem isso e procurassem o amor incondicional pregado por Jesus ao invés de julgar comportamentos alheios, perceberiam que homossexualidade é amor, não doença.

E, percebendo isso, veriam que a única coisa a ser curada aqui é o preconceito e as justificativas baratas deles, pois amor não se cura, se fortalece, se incentiva e se compreende.

Então façamos isso, pelo bem do “todo”, sem deixar de acompanhar as consequências dessa decisão temporária e medieval, pois o movimento LGBT anda bem preocupado com a possibilidade de que a decisão seja explorada por setores conservadores favoráveis ao conceito tradicional – e limitado – de “família”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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