MBL, Instituto Liberal e Millenium compõem rede de ‘think tanks’ dos EUA

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Grupos que promoveram o Impeachment de Dilma Rousseff estão ligados à Atlas Network, organização estadunidense que incentiva a criação de think tanks e lideranças políticas no mundo todo.

Por Rafael Bruza

Um dos líderes do MBL, Kim Kataguiri, encontra dom Jorge Gerdau durante o Fórum da Liberdade, que reúne membros de think tanks liberais no Brasil Foto – Divulgação (Fernando Conrado)

O Movimento Brasil Livre (MBL), o Instituto Liberal, o Instituto Mises e o Instituto Millenium estão ligados a uma rede internacional de think tanks – centros de pensamento e produção de pesquisas, ideias e projetos de políticas públicas – voltada ao livre-mercado. O centro desta rede é a Atlas Network, organização sediada em Washingon (EUA), que se apresenta como uma instituição sem fins lucrativos, cuja missão é ligar “uma rede global de mais de 450 organizações de livre mercado, em mais de 90 países”, e fortalecer “ideias e recursos necessários para promover a causa da liberdade”, segundo sua apresentação.

A organização possui 83 parceiros no Caribe e na América Latina, que deram uma “guinada à direita” nos últimos anos, segundo analistas (veja: “aqui” e “aqui”), inclusive com casos de destituição de outros presidentes, como Dilma Rousseff no Brasil e Manuel Zelaya em Honduras.

No Brasil, o MBL, o Instituto Liberal, o Instituto Mises e o Instituto Millenium são seus parceiros mais conhecidos.

A Atlas fomenta a criação de outras organizações libertaristas ao redor do mundo para criação de novas lideranças políticas. Cumprem essa missão com orientação, treinamento e financiamento de projetos favoráveis ao livre-mercado, através de patrocínios “modestos” de US$ 5 mil a US$ 10 mil – além de doações de US$ 20 mil, feitas em “raras ocasiões”, segundo o site da organização.

O financiamento da Atlas provém de doações de cidadãos e principalmente de fundações de multimilionários, como a Fundação John Templeton e diversas organizações dos irmãos Koch, que possuem empresas no ramo do petróleo e têm, segundo a Forbes, uma fortuna total de 42,9 bilhões de dólares cada um – ocupando o sexto e sétimo lugar em sua última lista de bilionários.

Segundo reportagem da Agência Pública de 2015, os irmãos são suspeitos de criarem dois fundos de investimento filantrópico – Donors Trust e Donors Capital Management – que dispensam os doadores de ter o nome exposto em formulários 990. Desta forma, os irmãos supostamente evitam vigilância de ONG’s e órgãos de imprensa, que já denunciaram uma série de escândalos envolvendo o uso desses recursos para lobbies no Congresso e nos governos estaduais, bem como para causas controversas, como a negação do aquecimento global.

O quadro abaixo, feito pela Pública, mostra que os dois fundos fizeram doações para a Atlas Network e para a versão estadunidense da Students for Liberty, parceira da Atlas, assim como outras instituições

Quadro de financiadores da Atlas Network e da Students dor Liberty (EUA) / Foto – Reprodução (Agência Pública)

O nascimento do MBL

O Movimento Brasil Livre (MBL) foi criado dentro desta rede de think tanks por membros dos “Estudantes pela Liberdade” (versão brasileira dos Students for Liberty), que são parceiros da Atlas Network e articula think-tanks autodefinidos como libertários na América Latina, em oposição à correntes, movimentos e partidos de esquerda.

Nos Estados Unidos, a Students for Liberty também recebe doações de fundações de grandes empresários, mas não há informações sobre como a versão brasileira deste movimento – a Estudantes Pela Liberdade, que criou o MBL – se financia.

Sabe-se que a Atlas Network possui vínculos com o MBL através da Estudantes pela Liberdade, que tem sede em Belo Horizonte (MG).

“Muitos membros do Movimento do Brasil Livre passaram pelo principal programa de treinamento da Atlas Network, a Academia de Liderança do Atlas, e agora estão aplicando o que aprenderam no terreno onde eles vivem e trabalham”, diz um artigo da Atlas Network publicado em 2015, que comenta como os “Estudantes pela Liberdade têm um papel importante movimento livre do Brasil”.

O grupo Estudantes pela Liberdade foi fundado pelo gaúcho Fábio Ostermann, o mineiro Juliano Torres e o gaúcho Anthony Ling. Dos três, pelo menos Ostermann e Torres foram treinados pela Atlas Network.

Além de ser coordenador do MBL até hoje, Fábio Ostermann também é assessor do deputado estadual do Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem (PP-RS), eleito em 2014 com doações da Gerdau e do grupo Évora– do pai de Anthony Ling, fundador do EPL.

Todos estes grupos e pessoas possuem relações diretas ou indiretas com a Atlas Network.

O presidente da Atlas Network, Alejandro Chafuen, e o coordenador do MBL e fundador do Estudantes Pela Liberdade (EPL), Fábio Ostermann, durante uma das manifestações a favor do Impeachment de Dilma Rousseff / Foto – Reprodução

 

Os Estudantes Pela Liberdade nasceram após participação de seu atual diretor-executivo, Juliano Torres, em um seminário de verão para trinta estudantes patrocinado pela Atlas Network em Petrópolis, em 2012.

Um ano depois, em junho de 2013, o grupo teve intenção de participar nas manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus, mas se viram impedidos de usar o nome Estudantes Pela Liberdade porque a legislação dos Estados Unidos impede que organizações do país financiem grupos ativistas de outras nações.

Para não prejudicar as organizações estadunidenses que financiavam a EPL, a solução para o impasse foi criar uma “marca”, formada apenas por pessoas físicas e chamada Movimento Brasil Livre (MBL).

“Como a gente (do Estudantes pela Liberdade) recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students for Liberty, por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: ‘Os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização para evitar problemas. Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre”, disse Juliano Torres, o diretor executivo do Estudantes pela Liberdade (EPL), em entrevista à Agência Pública.

Com o fim das manifestações, o grupo interrompeu suas atividades políticas momentaneamente, mantendo a intenção de seguir com as ações e mobilizações.

Foi então que Kim Kataguiri e Renan Haas entraram no grupo.

Treinados pela EPL, eles deram uma “guinada” no movimento, que começou a mobilizar protestos contra o Governo de Dilma Rousseff (PT), adquirindo, mais tarde, papel fundamental na destituição da presidente da República.

O MBL foi procurado pelo Independente para comentar esses vínculos com o Estudantes pela Liberdade e com a Atlas Network, mas não responderam as solicitações até a publicação desta matéria.

O Instituto Liberal

Além do Estudantes pela Liberdade, a Atlas possui dezenas de parceiros no Brasil. Um deles é o Instituto Liberal.

Em 2016, o instituto presidido pelo blogueiro Rodrigo Constantino – ex-funcionário da revista Veja – participou de dois cursos e treinamentos de capacitação das equipes.

“A Atlas promove treinamentos no mundo inteiro com as entidades parceiras. São cursos e treinamentos de capacitação das equipes. No ano passado estivemos em 2 oportunidades: um curso de Gerenciamento de Projetos e outro de liderança”, afirmou o instituto em e-mail enviado ao Independente.

O Instituto Liberal de São Paulo também é parceiro da Atlas Network.

Millenium: o vínculo com a Grande Imprensa

O Instituto Millenium é outro think tank que até semana passada era apresentado pela Atlas Network como parceiro.

Essa organização, liderada pela Gerdau, defende a “economia de mercado” e conta com participação de empresas de mídia, como o Grupo Abril – responsável pela revista Veja -, que compõe o “Grupo Associado” do Millenium, junto com a holding Évora e o Bank for America Merril Lynch.

O Grupo RBS, conglomerado de mídia do sul do país, compõe o Grupo de Apoio da instituição, que tem o vice-presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho, como “mantenedor”.

Questionado pelo Independente, o Instituto Millenium negou que fosse parceiro da Atlas Network.

“O Millenium não tem parceria com a organização, portanto não falamos sobre esse assunto!”, exclamou a assessoria de imprensa do instituto.

A reportagem enviou outro e-mail apresentando uma captura do site da Atlas Network, onde o Millenium aparecia como parceiro da organização dentro de seu Diretório Global.

Captura do site da Atlas Network que mostra o Instituto Millenium como parceiro da organização

Em resposta, a assessoria de imprensa afirmou que “atualmente” não possui parcerias com a organização e manteve a negação.

“Mais uma vez informo que atualmente o Millenium não possui nenhuma parceria com o Atlas e que as informações no portal estão incorretas. Reafirmo que não temos nada a declarar sobre o assunto”, disse a assessora.

Após a troca de e-mails, o site da Atlas Network deixou de mostrar o Instituto Millenium como parceiro.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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