MC Livinho considera mimimi alegações de que sua música faz apologia do estupro

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Em resposta, no facebook, cantor minimizou um debate sério sobre machismo e a violência que o mesmo desencadeia contra as mulheres.  Livinho demonstra falta de consciência política.

O cantor MC Livinho está sendo acusado de apologia do estupro por causa de sua música nova “covardia”.

A letra da música diz, “vou abusar bem dessa mina, toma
toma pica tranquilinha, primeira vez foi covardia, não te conhecia
agora toma”.

Em resposta gravada (vídeo, no final do texto), no facebook, o jovem cantor começa em tom de ironia “e aí, galera do mimimi”. Ele justifica que a letra não se refere a violentar uma mulher, mas a um caso de um cara que não teve no primeiro encontro uma relação sexual satisfatória com a parceira, mas no segundo,“abusou” do beijo, do abraço, enfim, do sexo, tendo melhor desempenho.

A letra não deixa claro o que está na justificativa do rapaz. Esta não é a primeira letra de funk que carrega símbolos machistas em letras com apologia do abuso sexual de mulheres. E o mesmo acontece em outros ritmos que apresentam as mulheres como interesseiras e objetos sexuais. Não se trata de culpar gêneros musicais, os valores machistas estão enraizados na cultura brasileira e são reproduzidos em várias situações, e é preciso discutir quando isso acontece.

O fato é que a letra de “covardia” é no mínimo questionável, e mais ainda a resposta do cantor Livinho. O jovem disse que gosta de compor letras “diferentes” e “criativas”, e tratou com desdém um tema sério, como mostram as estatísticas e a realidade brasileira, com índices altíssimos de feminicídio.

Dados do Ministério da Saúde mostram que de 2011 a 2016 houve aumento de 125% de notificações de estupros coletivos, elevando de 1570 para 3526 o número de casos. Nos últimos cinco anos o número de ocorrências de estupros coletivos dobrou.

A cultura do estupro tornou-se tema recorrente não só em debates acadêmicos, mas na mídia e redes sociais, dado o quadro de violência contra as mulheres, no Brasil. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que o número assassinatos de mulheres no país é de 4,8 por 100 mil habitantes. O Mapa da Violência de 2015 mostra que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher. As mulheres negras são ainda mais violentadas. Apenas entre 2003 e 2013, houve aumento de 54% no registro de mortes, passando de 1864 para 2875 nesse período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos.

Na terça (29),  um homem foi preso (aqui) em flagrante após ejacular no pescoço de uma mulher, dentro de um ônibus, na Avenida Paulista. O suspeito tem 15 passagens na polícia e três prisões por estupro.

Na mesma semana, a escritora Clara Averbuck denunciou em seu facebook (clique aqui) ter sido vítima de estupro por um motorista da UBER. A escritora estava bêbada e o motorista teria se aproveitado de seu estado, para segundo ela, “enfiar o dedo imundo nela”, como relatou no facebook, Clara.

Como se nota, não se trata de mimimi como dispara o cantor. Livinho tem de se cuidar para a sua carreira não naufragar como aconteceu com a do cantor MC Biel, tratado pelo showbusiness como o Justin Bieber brasileiro, o jovem simplesmente desapareceu do cenário musical.

Em junho de 2016, a repórter do IG, com identidade protegida por determinação policial, fez um boletim de ocorrência contra o cantor MC Biel, por assédio sexual. Ele teria dito “vou te quebrar no meio”, “você é gostosinha”. O cantor se desculpou por vídeo em rede social, mas voltou a fazer afirmações machistas.

A agenda de shows do Biel esvaziou e ele foi morar nos Estados Unidos. Que o caso de Biel sirva de lição ao tal do Livinho.

Resposta de Livinho

A maioria dos seguidores condena Livinho, as jovens que seguem o perfil do cantor estão a fazer os chamados “vomitaços”.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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