‘Me ofereceram participação financeira nos exames’, denuncia pediatra em carta

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Pediatra anônima enviou texto à colunista da Folha de S. Paulo contando casos em que médicos pediram exames desnecessários para obter lucro.

Da Redação * carta publicada pela Folha

Ilustração

Uma carta publicada pela colunista Cláudia Collucci, da Folha de S. Paulo, nesta terça-feira (25) conta casos em que médicos pediram exames desnecessários a pacientes para obter lucro de alguma forma desconhecida. A carta foi publicada em condição de anonimato para não prejudicar a autora, que relata alguns casos que vivenciou.

Em fevereiro, outra reportagem da Folha de S. Paulo sinalizou que hospitais privados do país premiam médicos que pedem mais exames.

“Quanto mais procedimentos, mais pontos ganham na avaliação –que inclui itens como fidelização, adesão aos protocolos clínicos e atuação em ensino e pesquisa. O médico que soma mais pontos consegue mais reputação dentro do hospital e privilégios como presentes, descontos em exames para ele e seus familiares e prioridade no uso do centro cirúrgico”, diz a reportagem.

Os relatos da pediatra anônima se encaixam nesse cenário.

Confira a carta da pediatra na íntegra:

Prezada Cláudia Collucci (colunista da Folha),

Trabalho como pediatra, moro em São Paulo e aprecio demais os seus textos.

O ministro da Saúde disse recentemente que os médicos pedem muitos exames normais. Mas acho que ele não sabe (ou não quis dizer) que isso não depende só do desconhecimento ou pressa do profissional. Qualquer hora alguém vai descobrir que há muita desonestidade mesmo.

No consultório, já recebi visitas de laboratórios clínicos oferecendo participação nos faturamentos relacionados aos meus pedidos. Sempre recusei com veemência. Mas há poucos meses estou tendo uma experiência diferente.

Como minha clientela particular caiu muito e tenho raros convênios, fui procurar e fui aceito em uma clínica de diversas especialidades. De cara, me ofereceram participação financeira nos exames. Recusei na hora.

Depois de dois meses, uma outra pediatra se demitiu do serviço. Passei a ver crianças que retornavam com exames solicitados por ela. Cada visita se torna um susto pois os exames são totalmente desnecessários. Por exemplo: qual o interesse em saber a hemoglobina glicada [exame usado para avaliar o quadro de diabetes] numa criança totalmente normal?

Mas o pior veio depois. Há poucos dias, uma mãe de pequeno tamanho trouxe o filho, também pequeno para a idade, mas com muita saúde e ótimo desenvolvimento, em todos os sentidos. Logicamente, os exames eram todos absolutamente normais.

A família do pai também era de pessoas abaixo da média de altura. Procurei tranquilizá-la, mas foi difícil. ‘Aquela médica me deixou muito nervosa, disse que meu filho estava muito atrasado (sic) e tinha que fazer muitos exames’, disse a mãe.

A médica conseguiu criar uma doença iatrogênica [gerada pela própria prática médica] na mãe, que poderia afetar a criança. Preciso dizer mais? Preciso do emprego e, por enquanto, não vou reclamar. Mas tudo isso está me fazendo muito mal.

Não tenho coragem de enviar um e-mail, com medo de ser identificado, por isso esta carta é anônima. Peço desculpas por isso. Envio grande abraço e desejo muitas felicidades a você e aos seus.

_Atenciosamente,_

Pediatra XY

Em resposta a carta, a colunista ressalta que “se mais médicos se indignassem com atitudes desse tipo e falassem ‘não’ para o assédio da indústria da saúde (…) talvez já tivéssemos avançado algumas casas na busca por um sistema de saúde mais ético, mais eficiente e mais humanizado”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Formou uma parceria com um programador e lançou o Indepedente. Acredita que a mudança no mundo está dentro de cada um e trabalha para que seus leitores tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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