MEC acaba com programa de graduação do ‘Ciência sem Fronteiras’

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Confira opiniões de especialistas da área sobre a decisão de restringir o programa apenas para pós-graduação, pós-doutorado e estágio sênior.

Por Rafael Bruza

O ministro da Educação, Mendonça Filho, e o presidente da República, Michel Temer / Foto – Reprodução

O Ministério da Educação decidiu extinguir as bolsas para graduação no exterior do programa Ciência sem Fronteiras, que foi um marco do governo de Dilma Rousseff. A pasta manteve bolsas para pós-graduação, pós-doutorado e estágio sênior no exterior. Em 2017, foram dadas 5 mil bolsas nestas categorias.

“O CsF para graduação encerrou com o último edital de 2014, no Governo Dilma. Há bolsistas remanescentes deste edital no exterior e visitantes no Brasil. O número chega a 4 mil. A atual gestão encontrou o programa com dívidas elevadas deixadas pelo governo anterior. Estudantes estavam no exterior sem recursos. A primeira e imediata providência da atual gestão foi garantir recursos financeiros para honrar os compromissos assumidos com os bolsistas no exterior, a fim de não prejudicá-los”, diz o MEC em nota divulgada neste domingo (02).

No programa, estudantes brasileiros ganham bolsas para estudar no exterior, principalmente em universidades da Europa e Estados Unidos.

O ministério também avalia que o custo para manter estudantes de graduação fora do país eram altos.

Em 2015, o programa deu bolsas a 30 mil alunos e custou R$ 3,2 bilhões, que é o mesmo valor investido na merenda escolar de 39 milhões de alunos da educação básica do país.

O custo médio para manter cada aluno no exterior, através do programa CsF, é de R$ 100 mil por ano, enquanto o custo anual da merenda escolar, por aluno, é de R$ 94.

O governo então decidiu restringir o programa a pós-graduação e pós-doutorado.

Segundo informação da coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo, o ministério também entende que o programa Ciência sem Fronteiras não trouxe resultados devido à deficiência em inglês dos brasileiros e à falta de diretrizes claras sobre que perfil de aluno deveria ser financiado.

Opiniões de especialistas

O ex-ministro de Dilma, Renato Janine Ribeiro, divulgou um texto em seu perfil de Facebook em que apoia a decisão do MEC.

“Se é verdade que o MEC cortou o programa para colocar o dinheiro na merenda escolar, está correto”, afirma o ex-ministro.

“Não há verba para tudo o que desejaríamos. Vivi inúmeras escolhas de Sofia (como ministro). Uma delas foi esta. A última leva de alunos do CsF – 5500 bolsistas – recebeu a carta de concessão antes de eu me tornar ministro. Vivemos a dúvida: mandamos os alunos ou não? Legalmente, o contrato previa a hipótese de não mandar, mesmo com carta de concessão, se não houvesse dinheiro. A Fazenda pressionou fortemente nesta direção. Mas nós mesmos do MEC pensávamos, é justo pagar 100 mil dólares por aluno quando com isso poderíamos fazer creches, que eram então uma prioridade? Lutamos com a Fazenda, lutamos no Planalto, e conseguimos o dinheiro para mandar. Conseguimos em termos, porque acabamos perdendo 10 a 15 bi do orçamento do MEC em 2015, devido à crise, e conforme a conta que fizermos isso pode incluir o CsF”, afirma.

No texto, o ex-ministro também comenta um dos problemas do programa.

“Um dos problemas foi o fato de não haver um monitoramento constante dos alunos. Muitos ficaram soltos demais. Os acidentes e incidentes reportados com alunos do CsF se davam, recebi esta informação, quando eles estavam fora de onde deviam estar. Tipo sua bolsa é para Heidelberg e vc está em Paris. Também houve a maldade do ‘turismo sem fronteiras’. Maior acompanhamento resolveria isso. Era solucionável”, afirma Janine.

Em entrevista ao jornal O Globo, o estudante de Sistemas de Informação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Diego Gouvea, disse que pretendia treinar o inglês com o programa. Após passar pouco mais de um ano, entre 2013 e 2014, na University de New Brunswick, no Canadá, ele indica que cursou cerca de 10 disciplinas fora do país, mas só conseguiu aproveitar “três ou quatro” em seu curso superior no Brasil.

“Sabia que este aproveitamento poderia ser baixo, mas a minha meta era melhorar minha fluência em inglês. Claro que é importante fazer matérias que seriam reconhecidas aqui, mas trabalhar o idioma era o meu foco. Acredito que, na graduação, a maior importância do Ciência Sem Fronteiras é a imersão cultural, e não o desempenho acadêmico”, afirma Diego.

O estudante defende o programa.

“Trata-se de uma das poucas oportunidades para que as pessoas de baixa renda possam viajar para estudos. É preciso conhecer outra realidade. No exterior, a grade de disciplinas é mais aberta. São três períodos de quatro meses, em que o aluno não precisa estudar e fazer estágio simultaneamente”, afirma o estudante.

Ainda em entrevista ao jornal O Globo, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, fez críticas as universidades brasileiras.

“Perdemos uma oportunidade para internacionalizar a nossa educação. Na Europa, por exemplo, é muito fácil trocar de universidade aproveitando disciplinas que já foram lecionadas. No Brasil, é quase impossível. Nossos cursos de graduação são muito fechados. O conteúdo programático é uma camisa de força. Precisamos de uma visão mais abrangente”, afirma Helena.

A presidente da SBPC recomenda que as universidades brasileiras invistam em currículos mais flexíveis, facilitando a adaptação dos estudantes que vêm de outras regiões, e realizem cursos de inglês.

Em contrapartida, Helena também lançou críticas ao Governo Temer.

“Temos que divulgar nosso ensino lá fora. Hoje o governo só pensa em cortar custos. À medida em que educação, ciência e tecnologia forem vistos como gastos, e não investimentos, estaremos morando em um país que não pensa no amanhã”, conclui.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Formou uma parceria com um programador e lançou o Indepedente. Acredita que a mudança no mundo está dentro de cada um e trabalha para que seus leitores tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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