Meses depois da polêmica, alunos da Furb repetem gesto que simula vagina

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O gesto gerou polêmica no início do ano, quando universitários foram acusados de promover apologia ao estupro e a objetificação da mulher em fotos que apareciam com as calças baixadas.

Por Rafael Bruza

Estudantes presentes na cervejada repetem gesto com as mãos que gerou críticas na Internet

Em uma cervejada feita dia 21 de setembro, alunos de veterinária da Universidade Regional de Blumenau (Furb), localizada em Santa Catarina, repetiram um gesto com as mãos que causou polêmica na Internet em abril deste ano, quando estudantes de medicina da Universidade Vila Velha (UVV), no Espírito Santo e da mesma Universidade Regional de Blumenau foram acusados de fazer apologia ao estupro, por conta do sinal e do teor de publicações feitas na Internet.

Nas fotos de abril, os estudantes de medicina do Espírito Santo e do Paraná apareciam com as calças baixadas e estetoscópio nos ombros. As imagens viralizaram na Internet e revoltaram internautas, principalmente mulheres, que acusaram ambos os grupos de fazer apologia o estupro e incentivar a objetificação da mulher.

Os alunos foram investigados pelas universidades após a repercussão do caso na imprensa.

Alunos de medicina da Universidade Vila Velha (UVV), no Espírito Santo, fizeram o gesto polêmico pela primeira vez em abril / Foto – Reprodução

Neste novo caso de Santa Catarina, a imagem foi publicada pelo Instagram da Atlética de Medicina Veterinária da Furb (@aaamvfurb) e logo foi denunciada ao Independente por uma aluna da Universidade Regional de Blumenau (Furb) que preferiu não se identificar.

“Acho que eles (alunos de veterinária) não entendem a dimensão do que esse ato representa”, disse a estudante. “Sinceramente, me irrita muito, principalmente pela ignorância, pela inconsequência… Fazem essa bobagem por modinha, para aparecer, para ser do contra e se sentirem muito ‘fodas’. Eu acho que é por isso que fazem. Não consigo acreditar que eles fizeram o gesto com total consciência do que representa. Mas se tem, ignoram e pisam em cima do feminismo, de todos os atos que o machismo faz. É por isso que me irrita muito. O machismo mata, estupra, faz com que a gente ganhe menos e que a gente se resuma muitas vezes a um órgão reprodutor em oferta. Fazer esse gesto significa que não estão nem aí para tudo isso”.

A aluna também entende que a impunidade incentiva novos casos.

“Se alguma medida de punição fosse dada (anteriormente), serviria de exemplo para que isso não acontecesse mais”, disse a estudante.

Procurada pelo Independente, a ouvidoria da Universidade Regional de Blumenau (Furb) afirmou que levará o caso ao reitor da faculdade e levantou suspeita sobre a veracidade das informações. Em resposta, a reportagem enviou informações obtidas durante a apuração do caso.

Primeiros episódios

O gesto começou a ser denunciado na Internet no início de abril deste ano. Alunos de medicina da Universidade Vila Velha (UVV), do Espírito Santo, foram os primeiros a tirar fotos com as calças baixas e o gesto nas mãos. As publicações chamavam estudantes para festas universitárias usando palavras de baixo calão, como a hashtag “Pintos Nervosos” [sic].

Usuários criticaram a foto e o caso virou polêmica nacional. Uma mulher perguntou no Facebook o nome dos retratados para não “correr o risco de me consultar com algum deles no futuro”. Ela também disse que iria à UVV cobrar providências da instituição. Outros internautas entenderam que as críticas eram exageradas.

Na época, a Universidade Vila Velha (UVV) repudiou o que chamou de “formas de ofensa e desrespeito, seja de cunho preconceituoso ou exposição indevida de uma profissão”. “Procuramos desenvolver em nossos alunos valores éticos e morais”, afirmou a universidade.

Um dia depois, estudantes de medicina da Universidade Regional de Blumenau (Furb), do Paraná, repetiram a foto e foram denunciados pela escritora Elika Takimoto, que relatou no post casos de abusos vividos por ela por profissionais da área médica em diferentes momentos.

Ambas as universidades abriram sindicância para investigar os alunos que fizeram os gestos, mas não há informações sobre punições

Mais um caso

Em maio deste ano, membros da equipe de futebol de campo masculino, da Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, fizeram o mesmo gesto na foto oficial do time em jogos universitários. A imagem foi compartilhada nas redes sociais pessoais dos envolvidos e se espalhou.

Na época, a Frente LGBT+ da Cásper Líbero repudiou a imagem e julgou a atitude como “referência clara à cultura do estupro e à fetichização de mulheres”.

“Acreditamos que não faz sentido um time da nossa faculdade ser representado por essa foto, extremamente ofensiva às mulheres, que compõem a maior parte do corpo discente da Cásper Líbero”, declaram. Mais tarde, nos comentários da nota, a frente LGBT+ da faculdade afirmou que recebeu denúncias de que outras equipes esportivas masculinas teriam feito o mesmo gesto.

Outro caso em que estudantes fizeram o gesto com as mãos e sofreram críticas

Após reclamações de alunos, a atlética da faculdade, AAA Jesse Owens, postou no Facebook uma nota de repúdio ao ato. “Pedimos desculpas às frentes e às pessoas que foram ofendidas e se sentiram desconfortáveis. Encaramos um processo de mudanças e conscientização, e buscamos estender isso às equipes e a todos.”

Eles afirmam que não repararam nos gestos na hora de tirar as fotos e que farão reuniões com as equipes responsáveis. “Trabalhamos agora em uma medida efetiva de controle, educação e reflexão para que casos como esse não se repitam mais, seja em fotos, festas, jogos e no dia a dia da faculdade”, declaram.

Lucas Mendes, participante da diretoria da AAA Jesse Owens, diz que, em reunião conjunta com os coletivos da faculdade, decidirão quais serão as consequências dos atletas. “É melhor fazer algo transparente, envolver todo mundo para todo mundo ter o mesmo posicionamento”, opina. O representante da atlética diz ainda que ficou chateado por deixar o erro passar.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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