Moradores ficam doentes após consumir água contaminada por empresa norueguesa

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Família alega que vazamento da empresa norueguesa, Hydro, contaminou água do poço que consumiam e gerou problemas de saúde na região do Pará.

Por Agnete Klevstrand – tradução de Fernando Mathias

Edição para o Independete: Rafael Bruza

A moradora Maria Salustiana e a sede da Hydro Cred / Fotos – Reprodução (Dagens Naeringsli Adrian Øhrn Johansen/Instituto Evandro Chagas)

No final de fevereiro, o Instituto Evandro Chagas (IEC), ligado ao Ministério da Saúde, divulgou um laudo informando que a empresa de mineração norueguesa, Hydro, é responsável por um vazamento de restos tóxicos que contaminou comunidades de Barcacena, no Pará. O documento também diz que a companhia usou “tubulação clandestina de lançamento de efluentes não tratados” em um conjunto de nascentes do rio Muripi. A empresa Hydro é controlada pelo Governo da Noruega, detentor da maioria de ações da companhia. Na última quarta-feira (07), o jornal norueguês, Dagens Naeringsli (DN), noticiou que moradores da região afetada estão ficando doentes por conta do consumo de água contaminada pelo vazamento, que compôs um alagamento de lama vermelha com alumínio, na sede da Hydro Cred.

O jornal norueguês esteve com Maria Salustiana, de 69 anos, uma das vizinhas mais próximas dos depósitos de lama vermelha da Hydro no Brasil.

“Ele tosse sangue. Agora ele está melhor. Ou pelo menos é isso que ele diz, mas acho que ele fala isso para não me preocupar” diz a jornalista Agnete Klevstrand na reportagem. “Maria Salustiana olha preocupada para o filho adotivo Thiago Carua Lhorizigés (12 anos). Ela mesmo tem fortes dores de barriga, mas não tem dinheiro para pagar os medicamentos que foram prescritos”.

Segundo o jornal, Maria deseja se mudar com a família, pois nas últimas semanas a água do poço que a família consome diariamente se tornou um perigo para a saúde.

“Não quero nenhuma fortuna, mas acho que minha família precisa se mudar daqui. O risco para saúde se tornou muito grande. Além disso, não consigo mais vender a casa”, diz Salustiana.

Ela entende que a empresa ou as autoridades deveriam pagar pelo imóvel.

Maria Salustiana mora no fim de uma estrada de terra junto com sua filha única Marinete Carina Cardoso Bastos (24), o neto Emanuel (1 mês) e o filho adotivo Thiago. Nas quatro casas vizinhas vivem seus filhos e filhas com suas respectivas famílias. 

Na propriedade há um pequeno poço d’água, onde as crianças costumavam brincar. Agora o poço é zona proibida, pois membros da família sofreram queimaduras na pele depois de ter contato com a água.

Peritos flagraram enxurrada de lama contaminada escorrendo da sede da empresa norueguesa em Barcarena / Foto –
Reprodução (Instituto Evandro Chagas)

A propriedade faz limite com a área da Hydro, de acordo com a família, e fica a um quilômetro de uma da barragem de rejeitos da empresa.

Nas últimas semanas, a família vem se sustentando com galões de água entregues por organizações de ajuda humanitária e órgãos ambientais. Cerca de 40 litros de água são entregues a cada 15 dias, de acordo com a família, o que é muito pouco para manter a casa.

“Como vocês podem ter certeza que é a Hydro que tem culpa pela contaminação?” – questiona a jornalista

“Nós não temos provas. Mas a água ficou ruim no mesmo dia da chuva forte, e moramos a poucas centenas de metros da barragem. Além disso, já passamos por essa situação de vazamento antes”, declara Salustiana.

Em 2009, a comunidade local sofreu um vazamento altamente tóxico da barragem de rejeitos. À época, a Hydro era acionista minoritária da empresa proprietária da barragem. Desde 2011, eles se tornaram acionistas principais e responsáveis pela refinaria de alumina Alunorte, a maior do mundo no gênero.

A poluição da água para consumo de um número indeterminado de pessoas foi percebida logo após uma forte chuva de mais de 200 milímetros na madrugada do dia 17 de fevereiro, que levou a enchentes e grande destruição.

Segundo o pesquisador Marcelo Lima do IEC, a água da região de Maria apresenta pH alto e altos índices de minerais.

“Isso é extremamente perigoso para tudo que é vivo. O que é pior é que isso impacta comunidades que vivem tradicionalmente da pesca e do que a floresta lhes proporciona de renda. Eles usam a água como fonte de água potável e para recreação”, afirmou o pesquisador para o DN no dia da divulgação do relatório, em fevereiro.

Após negar irregularidades sobre o vazamento de 2018, a Hydro Alunorte admitiu, em nota, a existência do canal encontrado por pesquisadores.

“Durante uma das vistorias, verificou-se a existência de uma tubulação com pequena vazão de água de coloração avermelhada na área da refinaria”, afirma a empresa. “Conforme solicitado pelas autoridades, a empresa está fazendo as investigações necessárias para identificar a origem e natureza do material, bem como realizando a imediata vedação desta tubulação.”

Segundo o jornal DN, o diretor da empresa, Svein Richard Brandtzæg, “largou tudo e foi para o Brasil para gerenciar a crise pessoalmente”. Brandtzæg visitou os vizinhos, grupos indígenas e população local que vivem no entorno da gigante fábrica da Hydro.

“Esta é a situação mais grave que já vivi em meu tempo como diretor da Hydro”, disse Brandtzæg recentemente ao DN.

No entanto, Brandtzæg reafirmou as declarações anteriores da Hydro no sentido de que a fábrica não causa o problema.

“As informações que recebi dos médicos é que não é a fábrica que é o problema. Eles informam que a água de beber e o esgoto estão lado a lado, e foram misturados depois da chuva forte. Ademais, há um grande depósito de lixo nas proximidades onde não há qualquer segurança e que é uma ameaça à agua potável”, diz ele.

A Hydro substituiu o seu chefe regional, criou uma força tarefa de gerenciamento de crise e contratou a empresa de auditoria ambiental brasileira SGW Services para fazer uma avaliação independente. Os consultores baseados em São Paulo terão seu primeiro relatório pronto no início de abril. A análise da barragem de lama vermelha deve ficar pronta no fim de abril.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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