Morre João Havelange, o ‘maior mafioso da FIFA’

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Muitas verdades sobre a história de João Havelange foram reveladas através de investigações de um jornalista escocês que ajudaram a desvendar um dos maiores escândalos de corrupção da história do futebol mundial.

Análise / Opinião – Rafael Bruza

O ex-presidente da FIFA, João Havelange / Foto - Reprodução
O ex-presidente da FIFA, João Havelange / Foto – Reprodução

Na imprensa brasileira, temos o costume de homenagear figuras públicas que morreram recentemente. Mas no caso de João Havelange, apontado como “o maior mafioso da história” no livro de Andrew Jennings, um jornalista escocês que teve papel fundamental no escândalo da FIFA em 2015, as homenagens na mídia só serão verdadeiras se incluírem o passado político e corrupto do cartola.

João Havelange não era o nome formal do cidadão falecido nesta terça-feira (16) aos 100 anos, por uma pneumonia ainda não confirmada.

Ele se chamava Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange. Foi advogado, empresário, atleta e dirigente esportivo.

Chegou à Confederação Brasileira de Desportos (CBD, antiga CBF) nos anos 50, onde mais tarde teria bom relacionamento com todos os presidentes da Época da Ditadura Militar, autorizando, por exemplo, que oficiais do Sistema Nacional de Informação (SNI) espionassem jogadores e nomeassem integrantes da comissão técnica da seleção durante a Copa de 70.

Com ele no comando da CBD, que abrigava diversos esportes na época, a Seleção Brasileira de Futebol foi três vezes campeã da Copa do Mundo (1958, 1962 e 1970).

Em 1974, quatro anos após o tri-campeonato do Brasil, Havelange virou presidente da FIFA.

Pelé foi seu principal cabo eleitoral em países africanos, segundo conta Juca Kfouri.

Mas o governo ditatorial brasileiro não gostou que o cartola tivesse cargos simultâneos na CBD e na FIFA.

Foi substituído na Confederação Brasileira de Desportos por um almirante chamado Heleno Nunes, do ARENA, partido da Ditadura.

Mas assumiu seu cargo na “entidade máxima do futebol”, como a mídia chama orgulhosamente essa organização “sem fins lucrativos”, depois de vencer votação contra o inglês

Na FIFA, Havelange ocupou o lugar de “um grupo de europeus, talvez estúpidos, mas que não eram corruptos e gostavam de futebol”, segundo o jornalista Andrew Jennings.

E então o cartola construiu literalmente um corrupto império de poder político e econômico.

Quem foi João Havelange

Para explicar o que João Havelange foi dentro do mundo do futebol, devemos falar sobre o livro “The Dirty Games” (“Jogo Sujo”), de Andrew Jennings.

A investigação feita pelo jornalista e divulgada nesse livro levantou mais de uma centena de documentos secretos, que foram fundamentais nos processos judiciais contra dirigentes da FIFA feitos em 2015 nos Estados Unidos e na Suíça, com auxílio do FBI e do Ministério Público Suíço.

Foi dentro destes casos que o antigo presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso nos Estados Unidos em novembro de 2015. Logo Marin concordou pagar fiança de US$ 15 milhões (cerca de 56 milhões de reais) para continuar na prisão domiciliar, mas continua com problemas na Justiça estadunidense e Suíça.

Aliás, o atual presidente da CBF, Marco Polo del Nero, também está envolvido nesses casos de corrupção. E até hoje, Del Nero evita sair do Brasil, pois pode ser preso caso pise certos territórios estrangeiros.

Mas independentemente da situação vexatória do comandante da CBF, o caso é que Jennings diz no livro que o caminho corrupto da “entidade máxima do futebol”, a FIFA, começou com negócios entre a família dona da marca Adidas e se acelerou com a chegada de João Havelange à FIFA, em 1974.

“Desde que o brasileiro desembarcou em Zurique, começou a roubalheira”, conta o jornalista.

Havelange ficou próximo de Horst Dassler, herdeiro da marca esportiva Adidas, e dono da empresa ISL, considerada a maior empresa de marketing esportivo do mundo, que comercializa os direitos de televisionamento e publicidade das Copas do Mundo de futebol e das Olimpíadas.

Jennings relata que os negócios feitos por Havelange com a ISL, da família de Horst Dassler (fabricante das botas dos nazistas e proprietária da Adidas) serviram de modelo para o esquema de corrupção entre a FIFA e empresas de marketing esportivo, responsáveis pela negociação e pagamento de suborno relacionados com os direitos de transmissão de jogos de futebol.

O livro do escocês conta que Havelange enchia malas de ouro na Suíça e aproveitava seu passaporte diplomático para transportar o conteúdo até o Rio de Janeiro, sem fiscalização ou controle de bagagens.

Mas, a despeito dos problemas de corrupção, a FIFA cresceu muito e ficou poderosíssima com João Havelange na presidência.

O cartola se orgulhava em dizer que a entidade máxima do futebol tinha mais filiados que a ONU e, com ele, a Copa do Mundo virou um fenômeno mundial, presente nos cinco continentes com 32 seleções, como é hoje.

Jenningns, no entanto, prefere exaltar a realidade corrupta existente em torno do “sucesso” de João Havelange.

“O que eu posso dizer, baseado em provas e documentos, é que Havelange é o ladrão supremo. E sua preocupação era proteger (Ricardo Teixeira) para que seu genro pudesse roubar também”, afirmou ao portal português, As Vozes do Mundo.

De fato, o genro de Havelange era Ricardo Teixeira, cidadão completamente desconhecido no futebol brasileiro, que só chegou à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 1989 graças à indicação nepotista de João Havelange.

Teixeira, cria e figura protegida de Havelange, é acusado por Jennings de ter prejudicado o futebol do Brasil.

O jornalista cita o exemplo de um contrato da CBF com a Nike em que a empresa supostamente pagou US$ 160 milhões ao dirigente, via paraíso fiscal. Em troca, a empresa poderia convocar os jogadores da Seleção Brasileira de Futebol e definir adversários e os locais dos jogos amistosos da equipe.

“Ricardo Teixeira, é um dos maiores ladrões que já existiram no mundo do futebol. Ele desfigurou completamente o futebol brasileiro e roubou, roubou demais. Se a FIFA fosse realmente séria, deveria ter condenado Ricardo Teixeira”, afirma Jennings.

A despeito das suspeitas de corrupção, o cartola transformou a FIFA numa mina de dinheiro e numa “organização criminosa”, segundo o jornalista escocês Andrew Jennings.

Saiu da presidência da FIFA após uma “ditadura” de 24 anos que se encerrou com sua nomeação para “Presidência de Honra” da entidade.

Joseph Blatter assumiu o cargo e é apontado por Jennings como assessor de Havelange por nunca ter denunciado os casos de corrupção do poderoso cartola brasileiro.

Mas o jogo virou no final da vida de Havelange e o cartola teve que renunciar a todos seus cargos para escapar de punições.

Em 2011, renunciou ao cargo que ocupava no Comitê Olímpico Internacional (COI, de onde ajudou a trazer as Olimpíadas para o Rio de Janeiro).

E em 2013, renunciou à Presidência de Honra da FIFA.

Tudo para não ter que responder à acusações de corrupção dentro das entidades..

A falência da ISL revelou propinas de 45,5 milhões de dólares dirigidas à ele e à seu protegido, Ricardo Teixeira. E o cartola não teve outra opção a não ser fugir correndo de seus postos executivos.

Um ano antes, em 2012, Ricardo Teixeira fez o mesmo e renunciou à Presidência da CBF, dando lugar primeiramente a Marin (que “rodou” pouco depois) e a Marco Polo del Nero, que, como dissemos acima, só não foi preso porque evitou sair do Brasil.

E assim acabou a carreira executiva de um dos cartolas mais poderosos que o planeta Terra já viu.

O “maior mafioso da FIFA”, como indica o jornalista Andrew Jennings.

Transformou o futebol num esporte mundial, mas renunciou à moralidade e às virtudes que caracterizam todo esporte honesto.

Que a verdade sobre sua história nunca se perca, pelo bem do futebol.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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