Não sabem o que vazou

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Segundo jornal norueguês, “a Hydro já não sabe mais o que vazou de sua gigantesca fábrica no Brasil”.

Matéria publicada na quarta-feira (14) no Dagens Naeringsliv — principal jornal da Noruega – Por Agnete Klevstrand
Fotos: A drian Øhrn Johansen — Tradução: Fernando Mathias

Foto da matéria no Jornal impresso / Fernando Mathias

Já faz quase um mês desde que fortes chuvas sobre a fábrica da Alunorte-Hydro no Brasil deflagraram o que se revela uma das maiores crises já vividas pelas Hydro há muito tempo.

A empresa ainda está trabalhando para conseguir ter um panorama da situação. Na terça feira a empresa voltou atrás na explicação dada ao DN no domingo, de que uma série de descargas controladas conteriam apenas água da chuva.

– As descobertas até agora do grupo de trabalho interno mostram que não temos um panorama completo da situação e da sucessão de eventos, diz o diretor geral da Hydro Svein Richard Brandtzæg em uma mensagem que a empresa publicou na sua página de gerenciamento de crise.

O diretor da Hydro não estava disponível para comentários na terça-feira.

– Vou analisar a situação com detalhes e volto com mais informações, diz ele em mensagem.

Depois das chuvas de mais de 200 mm na noite de 17 de fevereiro, a Hydro declarou que não teria havido vazamentos, e que não havia provas de que a empresa era culpada pela contaminação da água potável de cerca de 400 famílias.

Desde então, várias descargas já foram confirmadas:

Autoridades locais e o Instituto Evandro Chagas encontraram, em suas inspeções, uma tubulação com vazamento. A empresa admitiu que a água havia vazado do tubo, mas provavelmente apenas alguns metros cúbicos. A empresa disse que não havia indicações de que isso poderia causar danos ambientais.

No domingo, a empresa admitiu que realizou uma série de “descargas controladas” durante e depois das chuvas. Primeiro a empresa disse que a descarga conteria apenas água de chuva, que poderia conter partículas de pó de bauxita, e que resíduos de soda cáustica teriam sido neutralizados.

Na terça-feira, a empresa confirmou que as descargas não continham apenas água de chuva.

Obteve novas informações

Na página da Hydro, a empresa informa que o transbordamento de água da barragem de resíduos contígua vazou para dentro do canal de descarga aberto chamado “Canal Velho”, e posteriormente para o rio Pará.

– Trata-se de transbordamento de água de uma barragem contígua no interior da estação de tratamento de água, diz o diretor de comunicação da Hydro Øyvind Breivik.

– O que existe de possíveis substâncias tóxicas nesta barragem contígua?

– Não tenho essa informação. O grupo de trabalho interno nos forneceu informações que precisam agora ser processadas. Vamos retornar e responder a esse tipo de pergunta em breve.

-Por que vocês asseguraram com tanta certeza no último domingo que era apenas água de chuva e que não havia indícios de que era tóxica, se vocês não sabiam o que havia vazado?

– Como disse, obtivemos novas informações que mostram que talvez não tivessemos a compreensäo completa da situação.

– Quão tóxicas podem ser as descargas para as pessoas e o meio ambiente?

– Deixe-me checar e retornar.

Na sequência, Breivik enviou o seguinte email:

– Baseado nas análises de água que fizemos durante o período, não temos razões para acreditar que a descarga tenha tido impacto negativo no meio ambiente. Apenas em uma medição, em um ponto do rio, foi encontrado pH acima do limite normal na água, então as análises indicam que houve uma diluição rápida. Vamos voltar com mais informações quando tivermos analisado os relatórios do grupo de trabalho interno.

Encontrou descargas mais graves

O instituto de pesquisa Evandro Chagas em Belém foi acionado pelas autoridades locais no dia seguinte às chuvas fortes para realizar inspeções sobre possíveis vazamentos e impactos. O primeiro relatório de fins de fevereiro já foi inclusive disponibilizado pela Hydro em sua página. Agora, o Instituto trabalha em um novo relatório, que é esperado para a próxima segunda-feira.

É neste novo relatório que o grupo de pesquisadores encontrou os resultados mais graves, diz o coordenador do grupo de pesquisa Marcelo Lima ao DN.

– A empresa disse no domingo que a descarga controlada conteria apenas água da chuva. Mas constatamos que foi mais do que apenas água de chuva, possivelmente uma mistura de diferentes coisas. As descargas são portanto bem mais graves do que o que a Hydro admitiu no domingo, disse ele.

A Hydro vem a todo tempo negando que houve vazamento das duas barragens de rejeitos de lama vermelha, apenas de outras áreas dentro do complexo da Alunorte. É nessas barragens que os resíduos do processo de refinamento da bauxita em alumina são acumulados.

– A mistura provavelmente contem resíduos de uma das barragens de lama vermelha. Encontramos três tubulações vindo das duas barragens; dessas, as duas tubulações que vêm da barragem antiga continham vazamentos. Quando a chuva veio, houve transbordamento na fabrica, e tudo foi misturado, diz Lima.

Ele estava na terça-feira em São Paulo para apresentar seus resultados a um comitê na assembleia legislativa do estado.

– Nossos resultados mostram que a empresa não tem escrúpulos. Eles colocaram a vida das pessoas em risco, diz ele.

– Você acha que a direção da empresa sabia disso?

– Eles devem ter tido conhecimento. Esse não é um tipo de decisão que é tomada no chão da fábrica.

O diretor de comunicação da Hydro Øyvind Breivik diz ao DN que ele não pode nem confirmar, nem rejeitar os resultados do instituto de pesquisa.

Marcelo Lima diz que o instituto encontrou evidências graves de contaminação do lado de fora da planta, que a empresa ainda não conseguiu explicar.

– O que você acha da forma como a Hydro vem gerenciando o caso até agora?

– É surpreendente para a gente que uma empresa tão grande como a Hydro não consiga pedir desculpas. Pelo contrário, eles tentam de todas as formas desqualificar nossos relatórios. Agora, eles serão obrigados a admitir cada vez mais. Eles deveriam no mínimo se desculpar frente à população local e frente ao Estado norueguês que investiu tanto na empresa.

– Como é para você se deparar constantemente com novas descobertas graves?

– Isso me preocupa. Estou preocupado por todos aqueles que foram expostos à contaminação e que não estão sabendo de nada. Estou também preocupado por todos os empregados que têm se deparado com tantas situações problemáticas e que agora são convocados a prestar informações às autoridades.

– Eu não quero ser aquele que afunda a empresa. Gostaria que isso acabasse o mais rapidamente possível, e que no mínimo se pudesse chegar a um acordo para dar uma solução segura ao problema de fornecimento de água para a população. E que a empresa comece a enxergar a população local como seres humanos, diz Lima.

Breivik da Hydro responde aos comentários de Lima da seguinte forma:

– A situação na Alunorte é muito difícil para a Hydro, e vamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para reconstruir a confiança da comunidade do entorno.

Entendemos que tanto os investidores como as ONGS, os vizinhos e outros estejam preocupados com o que aconteceu no Brasil. O caso tem máxima prioridade para a direção da Hydro, e vimos tomando várias medidas para gerenciar a situação. Entre outras coisas, estabelecemos um grupo de trabalho dedicado a verificar os fatos e circunstâncias ligados à chuva de fevereiro, e contratamos a SGW Services, um grupo de especialistas ambientais brasileiros, para realizar uma auditoria independente do sistema de tratamento de água da Alunorte. Esses grupos apresentarão suas conclusões na primeira semana de abril.

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