‘Nós tivemos mais acertos que erros’, diz deputada do PT

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A deputada federal Ana Perugini (PT-SP) avaliou os últimos anos do Partido dos Trabalhadores e comentou políticas que promoveu a favor do direito das mulheres.

Por Rafael Bruza e André Henrique – produção de Vinícius Bernardi

Ana Perugini (PT-SP) é a quarta deputada federal mais votada do Partido dos Trabalhadores em São Paulo na eleição de 2014. Na Câmara, como deputada e coordenadora-geral da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Mulheres no Congresso Nacional, quer incluir a misoginia – definida como “comportamento antissocial que difunde o ódio e a violência contra as mulheres” – no rol de crimes de ódio previstos na legislação brasileira.

Ana concedeu entrevista ao Independente, em parceria com o Canal do Bernardi e o Rede Popular, no início de fevereiro, quando falou sobre o desempenho do PT nos últimos anos.

“Acredito que o partido tenha cometido erros e ainda vamos cometê-los porque somos humanos. Mas nós tivemos mais acertos que erros”, afirma a deputada.

Ela também comentou a retomada de alianças de Lula com políticos do PMDB, como Renan Calheiros.

“O partido, hoje, vem se reformulando e irá avaliar as alianças com mais cautela. É importante dar cada mais vez força a militância e a quem realmente faz defesa do partido, dos candidatos, do programa e da defesa da política nas ruas. Acredito que a política é feita de alianças. Um partido nasce principalmente com o objetivo de chegar ao poder, mas precisamos de alianças que deem sustentabilidade ao programa que foi votado. Infelizmente não foi isso que aconteceu na última eleição”.

Para aumentar a participação da mulher na política, a deputada defende uma política de cotas por gênero, “com punição”.

“O partido que não cumprir, que usar ‘mulher laranja’ e que não distribuir o recurso partidário de forma igual, para que as mulheres tenham condição de assumir o espaço e fazer uma campanha com decência, devem ser punidos porque não há outra forma de modificar essa cultura”, diz a deputada, que também falou sobre as iniciativas de seu mandato a favor das mulheres.

Confira trechos da entrevista – o conteúdo na íntegra está disponível no vídeo acima.

Independente – Ana Perugini, como foi o ano de 2017 na Câmara dos Deputados?

Ana – Foi uma continuidade dessa legislatura. Assim que assumimos, em 2015, observamos um cenário conturbado na correlação de forças. A Câmara dos Deputados de Eduardo Cunha tinha uma correlação de blocos. Isso é novo para a bancada feminina, que também se organizou por blocos de partidos políticos. No passado, nós fazíamos uma correlação de forças na Procuradoria da Mulher, entre outros. A partir de Eduardo Cunha, a correlação começou a existir em blocos da mesa e das comissões. De lá pra cá, passamos o ano com um presidente da Câmara que é um grande aliado desse governo de Michel Temer. Este governo depôs a presidenta Dilma no ano de 2016 e estamos sofrendo uma sucessão de golpes. Acredito que o maior cenário da luta política tem ocorrido principalmente na Câmara e no Senado. Agora esse processo se expande para as ruas, dado esse processo de retirada de direitos.

Independente – Lula fez caravanas no Nordeste e retomou antigas alianças com peemdebistas que votaram a favor do Impeachment de Dilma, como Renan Calheiros. É incoerente denunciar um golpe, enquanto alianças com políticos do PMDB são retomadas?

Ana – O partido, hoje, que vem se reformulando, irá avaliar as alianças com mais cautela. É importante dar cada mais vez força a militância e a quem realmente faz defesa do partido, dos candidatos, do programa e da defesa da política nas ruas. Acredito que a política é feita de alianças. Um partido nasce principalmente com o objetivo de chegar ao poder, mas precisamos de alianças que deem sustentabilidade ao programa que foi votado. Infelizmente não foi isso que aconteceu na última eleição.

Independente – O PT perdeu a chance de fazer uma grande reforma política?

Ana – Com certeza. Mas eu diria que o PT não teve forças suficientes para isso. Lula e Dilma nunca tiveram a suficiente condição no Congresso para que isso fosse feito, pela correlação de forças. Hoje há uma forte tendência a se preocupar muito com o chefe ou a chefe do poder Executivo e se desmerecem o cenário da proporcionalidade que há na Democracia, os representantes do povo. Então, se elegemos um presidente de esquerda, nós precisamos dar sustentabilidade nesse processo com deputados que vão fazer a gestão da política juntos. Estranhamente nós elegemos um presidente operário, em um congresso empresarial, de latifundiários, etc. Precisamos falar mais de política. O plano de fundo de tudo isso, num dado momento da história, começou uma campanha contra a política. O debate começou a ser retirado da sociedade através dos grandes veículos de comunicação: quando você diz que só há corrupção na política, as pessoas se afastam. E quem não gosta de política, é governado por quem gosta, como diz uma grande amiga. Precisamos apoderar as pessoas e entender o que significam essas correlações.

Independente – Em 2013 ocorreram grandes manifestações no país. Um ano depois houve eleição com uma campanha polarizada. Em 2015, crise política e 2016 a destituição de Dilma Rousseff. Você vê erros do Partido dos Trabalhadores nas gestões de crise que ocorreram estes anos?

Ana – Acredito que o partido tenha cometido erros e ainda vamos cometê-los porque somos humanos. Mas nós tivemos mais acertos que erros. Juntando toda nossa competência em fazer políticas públicas e olhando o fim pelo que o partido foi criado, acredito que acertamos mais que erramos. Poderíamos ter feito mais, com toda certeza.

Independente – O que pode ser feito para ampliar o papel da mulher na política?

Ana – Não vejo alternativa fora a política de cotas para que a mulher ocupe esse espaço. E com punição: o partido que não cumprir, que usar “mulher laranja” e que não distribuir o recurso partidário de forma igual, para que as mulheres tenham condição de assumir o espaço e fazer uma campanha com decência, devem ser punidos porque não há outra forma de modificar essa cultura. Não vou inventar a roda. Qualquer país é assim, na Argentina só houve modificação porque fizeram política de cotas. No México também. Estou falando de extremos. Sem essa política de cotas, é impossível.

 Independente – Quais políticas públicas seu mandato tem proposto para a saúde da mulher?

Ana – Iniciamos a luta pela vacinação contra o HPV. Uma luta muito forte, que valeu a pena. Eu era deputada estadual, não federal. Em nível nacional houve conversa com ministro da Saúde, moção de apelo, e no âmbito estadual também: apelo ao governador, conversa, requerimento, audiências públicas, conversas com médicos… A campanha do HPV foi efetivada como política pública e considero isto o maior ganho. Outra questão que estamos debatendo é o projeto para dar visibilidade e contabilização do trabalho não remunerado, exercido por 88% de mulheres. Um dado atualizado é que 40 milhões de mulheres exercem, em nosso país, exclusivamente o trabalho não remunerado. Nós não temos uma conta satélite no IBGE, apesar de precisarmos. Esse trabalho gera uma riqueza, chega a ser altamente produtivo, mas não se leva em conta porque é feito “por amor”. Ele estrutura toda uma economia, mas não tem reconhecimento na sociedade. E precisa ter esse reconhecimento.

Independente – O PT diz que vai com Lula até o fim. Existe hipótese de o PT apoiar outro candidato no campo da esquerda, como Ciro Gomes, por exemplo?

Ana – Acredito que todos os partidos de esquerda deveriam, neste momento, sabendo o que está acontecendo no país, dar apoio integral a Lula como pré-candidato porque se trata de uma luta do conservadorismo, daqueles que estão retirando direitos, contra toda uma esquerda. Com o julgamento do TRF-4, quem se coloca como partido de esquerda sabe que estamos sofrendo um golpe e sabe que hoje Lula é foco, mas amanhã pode ser qualquer um. Então precisamos nos unir muito para que isso não aconteça em nosso país.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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