Novas tempestades para Michel Temer

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Por André Henrique

Depois de derrotar na Câmara, a denúncia de Rodrigo Janot, Michel Temer busca conciliação, mas a realidade é de conflitos

Após o êxito na Câmara dos Deputados contra a denúncia da procuradoria-geral da República, Michel Temer já tem desafios políticos cascudos pela frente.

Um deles se refere à pressão que os partidos do centrão estão a fazer por mais espaços no governo. Os líderes dessas legendas reivindicam cargos do PSDB, sob o argumento de que foram cruciais para salvar Temer na Câmara ao passo que a liderança do PSDB orientou sua bancada a votar pelo prosseguimento das investigações.

O centrão está de olho no Ministério das Cidades, comandado por Bruno Araújo, do PSDB. Essa pasta tem muito dinheiro e distribui recursos para as cidades realizarem obras de infra-estrutura, um bom palanque para os deputados nas eleições de 2018 junto aos prefeitos.

Em pronunciamento, pós-votação na Câmara, o presidente Michel Temer nas entrelinhas deu um recado conciliatório pela permanência do PSDB no governo para aprovar a reforma da Previdência, a Política e mudanças no sistema tributário.

Michel Temer ambiciona entrar pra história como o presidente que aprovou as reformas estruturais que outros presidentes não aprovaram pela dificuldade de alcançar consensos em torno delas. O peemedebista acredita que pode recuperar popularidade se a economia impactar positivamente a vida de milhares de brasileiros em 2018.

Até agora o governo conseguiu aprovar apenas uma reforma, a trabalhista. A da Previdência já sofreu alterações no Parlamento e está bastante desfigurada. Há quem diga que a votação de ontem aponta que o governo terá dificuldades para alcançar os 308 votos necessários para aprovar a reforma da Previdência, mas cada negociação tem uma natureza, e o governo pode conseguir se der um jeito na colcha de retalhos que virou a base aliada.

As delações de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro poderão enfraquecer o governo se o impacto dos fatos que vierem à tona pela boca dos dois forem devastadores para o presidente. Rodrigo Janot deve apresentar outra denúncia contra Michel Temer. Enfim, a depender da conjuntura, o Congresso cobrará um preço mais alto do Planalto para aprovar as reformas e salvar Temer novamente.

A situação poderá se esgarçar porque na Câmara Maia luta para mostrar capital político e controle sobre o Parlamento, colocando-se, com isso, como alternativa, para os que do mercado e da mídia querem derrubar o presidente. Em caso de agravamento da crise, o PSDB poderá encontrar a desculpa de que precisa para pular do barco.

Em inaugurações de obras na região de Campinas, nesta quarta (02), o governador Geraldo Alckmin defendeu mais uma vez que o PSDB deixe os cargos logo depois de as reformas aprovadas. A afirmação do governador joga mais lenha na fogueira – e no momento tudo o que o presidente quer é tranqüilidade e coesão na coalizão, porque, quanto mais conturbado o ambiente, mais difícil será atravessar outra tormenta como a de ontem.

Não será fácil alcançar a paz cercado por pressões – do centrão, do PSDB, da mídia e principalmente do Ministério Público e do poder judiciário. Novas tempestades aguardam Michel Temer e o país.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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