O ciúme do passado do outro

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São difíceis de enumerar e tipificar as razões do sofrimento amoroso de cada um dos envolvidos em cada relação. Poucas coisas, contudo, são causa tão frequente disso, quanto o ciúme em relação ao passado do outro. É provável que todo mundo já tenha experimentado, mesmo que de leve, aquele gosto amargo que costuma subir à garganta quando o(a) seu/sua “atual” evoca de alguma forma o(a) “ex” dele/dela. E não é nada difícil que cada um já tenha vivenciado, suave ou violentamente, os efeitos nocivos que isso pode causar.

Devem ser também infindáveis as razões para esse tipo de sofrimento. Basta lembrar que vivemos em um mundo que está acostumado a fazer filas e que, portanto, tendemos a respeitar os direitos de quem chegou antes. Só isso já seria razão bastante para não desconsiderarmos por completo aquele que cativou antes de nós o desejo do nosso atual objeto de desejo. Isso sem falar nos grandes sistemas religiosos que levam isso tão a sério e há tanto tempo, que criaram sólidos mandamentos e ritos com o objetivo simples de evitar esse tipo de dor de cabeça durante o matrimônio (nesse caso, os ônus costumam ser maiores do lado feminino, é bom que lembremos). Poderia dizer também que, para o nosso inconsciente, não existe passado ou futuro, tudo é presente, mas não adianta tentar avançar nas causas do nosso ciúme em relação ao passado do outro, o fato é que ele existe e, sentir isso, não é a aberração que costumam dizer. Quase todo mundo sente.

Quando o passado erótico do outro transborda diante de nós e se apresenta numa fala ou gesto qualquer, somos subitamente lembrados daquilo que preferimos esquecer: da nossa não primazia na história de quem estamos amando. Num instante, nosso ego brioso de príncipe ou princesa é desinflado e confrontado com a realidade de que, assim como nós agora, outros já foram muito significativos para ele ou ela. É fácil aflorar aquela certeza cruel de ser apenas mais um, aquele que simplesmente “é agora”. Embora isso não seja pouco, já que agora é que vale. Mesmo assim, sentimo-nos fragilizados por constatar a circunstancialidade desse amor, que em nossa insistente fantasia era para ser único e eterno. Sem referências, sem começo e sem fim.

A facilidade com que acessamos as pessoas do nosso passado hoje, muitas vezes faz com que os relacionamentos anteriores nunca acabem, mudam de configuração, mas não acabam, continuamos nos relacionando. Sabemos que viajou, que mudou o status de relacionamento, que foi ao mesmo bar que costumávamos ir, que mudou de emprego e que a sua queridíssima nona morreu. Felicitamos por mais um diploma, pelo aniversário e curtimos a foto do bichinho que antes brincava no nosso colo. Na verdade não sabemos bem em nome do que fazemos tudo isso, mas fazemos e o nosso outro também faz. É o espírito desse tempo. Nesse caso, o ciúme do passado do outro é um caminho certo rumo ao enlouquecimento.

Por mais que tenhamos todos o nosso passado erótico e nossas lembranças cheias ou não de afetos, isso não conta na hora do incômodo. Sabemos o que trazem para nós as nossas memórias, mas jamais saberemos o que trazem as do outro para ele mesmo. Talvez nos excitemos com algumas de nossas recordações, talvez o outro não com aquelas dele. Pode ser que quando lembramos o nome de amantes do nosso passado, lembramos também do seu cheiro e do seu toque. Quem sabe não seja assim para o outro. Ou é para ele, mas não é para a gente. Quem saberá?

Haverá aqueles de maior sorte, grandeza ou maturidade que são capazes de impedir que prospere em si mesmos esse tipo de sensação. Mesmo assim não parece que falar de “ex” seja assunto muito fecundo entre casais, ainda que às vezes seja absolutamente necessário. Ouvir o outro maldizer o próprio passado erótico costuma ser um desejo recorrente nosso e um alívio quase instantâneo para essas horas. E muitas vezes acabamos fazemos disso um jogo mentiroso e perigoso, que uma hora nos faz sofrer ainda mais, afinal: a verdade é que em algum momento eles estiveram bem e felizes, por mais que queiramos nos convencer que eles sempre se odiaram.

Penso que o ciúme do passado do outro talvez não esteja ligado propriamente ao seu passado, mas a como suas lembranças o afetam, no presente. Talvez sequer seja ciúme, já que diz respeito, na verdade, às fronteiras intransponíveis entre nós e o outro. Por mais sedutoras que sejam as promessas loucas da paixão, cada um será sempre um, incapaz de ser o outro, de sentir como o outro e de pensar como o outro. No amor, são tantas as inseguranças, que às vezes gostaríamos de ser o outro só para saber se ele gosta da gente e se gosta mais do que já gostou de qualquer outro. 

 

 

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