O dedo na cauda do escorpião

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Por Leonardo Guedes

Novembro de 2017, a cantora Sandy desembarcava em um aeroporto de Aracaju (Sergipe) e foi cercada foi vários fãs, formando um pequeno e típico tumulto. Um deles, um adolescente, com nítida intenção puxa o cabelo da artista durante sua tentativa de obter um autógrafo. Sandy começa a gritar com a agressão e os seguranças agem rápido. A “ação” foi filmada pelo próprio rapaz. Na sequência da repercussão, o jovem posta um vídeo no YouTube afirmando “eu não queria machucar, só queria um abraço”.

Dezembro de 2018. Um funcionário de uma empresa de mecânica posta no Facebook uma enquete comparando a vereadora assassinada Marielle Franco com uma cachorra morta a pauladas por um segurança de supermercado. Diante da repercussão, o jovem apaga o post e pede desculpas.

Fevereiro de 2019. Um incêndio dentro de um dormitório improvisado do Flamengo mata 10 crianças asfixiadas e/ou carbonizadas. Um internauta identificado como torcedor de clube rival faz postagens debochando do ocorrido, um deles com o seguinte texto: “Força fogo… Estamos torcendo por você, queima esses mulambo tudo (sic)”. Na sequência da repercussão, o homem posta um vídeo no YT pedindo desculpas, alegando que não sabia que o incêndio tinha deixado mortos (uma contradição). Além disso, homônimos do autor das postagens de mau gosto começaram a ser agredidos e ameaçados na rede social.

Março de 2019. Morre o neto de sete anos do ex-presidente Lula, líder político altamente popular e controverso condenado e preso pela Operação Lava-Jato em sentença questionada por uns e plenamente aceita por outros. A criança, além do passamento em tenra idade – algo por si só impactante – foi vítima de uma doença profundamente dolorosa. Uma mulher que se identifica como “youtuber” posta um festejo pelo ocorrido. Na sequência da repercussão, apaga a publicação, pede desculpas, apagou a postagem e apresentou sua alegação: “eu só queria saber como as pessoas reagiriam”.

Quatro casos dentre milhares pelo mundo, todos com aspectos em comum: a extrema ausência de senso e o extremo cinismo na apresentação das “escusas”.

O impressionante nos exemplos citados é a perda do instinto de preservação social do ser humano, algo progressivo com a massificação das tecnologias da comunicação e da informação. O senso que nos faz não encostar o dedo no ferrão de um escorpião amarelo (um dos mais perigosos da espécie) movido pela simples curiosidade de saber o que acontece ao fazê-lo. Não puxar o cabelo de uma mulher porque há o risco de machucá-la. Não comparar uma mulher assassinada covardemente com uma cadela porque é de uma idiotice sem tamanho. Não festejar a morte de adolescentes queimados porque isso revela um desvio de caráter profundo. Não comemorar a morte do neto de um político do qual não se gosta porque há uma possibilidade grande de ficar marcado, no mínimo, como uma pessoa doente.

O assunto merece um estudo aprofundado e serve como bom tema de pauta para reportagem: o que leva uma pessoa a escrever nas redes sociais algo que escapa por completo da noção de civilidade, mesmo com o risco altíssimo de propagação negativa do absurdo e a consequente desmoralização e estigmatização, negativa e praticamente irreversível? Especialistas em Comunicação, Sociologia, Psicanálise e (por que não dizê-lo?) Psiquiatria deveriam ser escutados para trazer um mínimo que seja de explicação.

Talvez uma pequena conclusão seja simples antes do aprofundamento na questão: o casamento da profecia do célebre artista plástico americano Andy Wahrol com a análise do escritor italiano Umberto Eco. O primeiro afirmou: “Um dia, todos terão direito a quinze minutos de fama”. O segundo cravou: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. 

A simbiose dos dois discursos está consolidada. A “fama” com a imbecilidade.

Para o final, uma autocrítica com o intuito de mostrar que todos nós que lidamos com rede social, sem exceção, podemos cometer infelicidades que nos conduzem ao perigo do linchamento virtual, mesmo que não haja caso pensado de fazer maldade. Uma vez adaptei um chiste de um dos maiores pensadores brasileiros, Millôr Fernandes, em cima de uma polêmica política recente: a então ministra dos Direitos Humanos do Governo Temer, Luislinda Valois, pediu acumulação dos (altos) salários de servidora pública alegando dentre outras coisas que a liturgia do cargo a obrigava a ter gasto com maquiagem. A postagem era de tom jocoso, admito. Uma amiga minha, cientista política, me alertou para o tom machista da postagem, frisando que o chiste estava reduzindo a capacidade das mulheres, algo que deve ser combatido. Ela estava e está certa.

Reconheci o erro na hora, agradeci e apaguei o que tinha publicado.

Leonardo Guedes é jornalista.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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