O economês de Henrique Meirelles não empolga

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Por André Henrique


Henrique Meirelles é pré-candidato à presidência da República, para defender o legado do Michel Temer e a agenda do mercado.

(Foto: Sérgio Lima / PODER 360).

Em evento na Câmara Americana de Comércio (Amcham), nesta segunda (23), o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles deu entrevista coletiva sobre a sua pré-candidatura à presidência da República. Lá esteve o jornalista Rafael Bruza a representar o Independente.

O que mais me chamou atenção na coletiva foram as respostas recheadas de clichês de economia mesmo para temas que pedem um olhar mais amplo e humanitário sobre a realidade.

Um dos jornalistas perguntou a Meirelles quais as suas principais propostas para a área social, o ministro respondeu basicamente que pretende gerar empregos e oferecer treinamento aos trabalhadores. Resta saber se o treinamento ao qual o ministro se refere é que o governo Temer pretende oferecer a jovens de periferia do ensino médio, limitando seus horizontes a empregos de baixa qualidade.

Os neoliberais têm visão limitada do que representam investimentos sociais.  Política social vai além de racionalidade econômica. Qual a proposta do Meirelles para a educação de os todos níveis? Ele seguirá a política de cotas sociais e raciais ou regredirá na direção da falsa meritocracia? O que ele pensa sobre cultura e esporte como instrumentos de transformação da realidade social dos jovens de baixa-renda? A saúde pública em seu governo será fortalecida ou desmantelada?

Qual a política de habitação do Meirelles? Ele irá privatizar os bancos públicos? Como fazer política de habitação com juros baixos e subsídios estatais sem bancos públicos? Meirelles quer para o Brasil o que se passou nos EUA com a crise das hipotecas? Qual será a política de desenvolvimento e o projeto de nação do Meirelles para o Brasil do presente e do futuro?

Para aumentar as receitas, o governo Meirelles atacará privilégios das elites econômicas e de castas estatais, tentará erigir um sistema tributário progressivo, ou descontará no lombo de quem mais precisa cortando direitos sociais? O economista governará para os interesses nacionais e dos mais pobres ou privilegiará as elites e os cartórios estrangeiros? Tais perguntas precisam ser feitas para tirar Meirelles da zona de conforto do economês.

A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, cantaria o outro. Para além do economês do banqueiro pré-candidato existem outras áreas que merecem atenção dos governos para ampliar as perspectivas das classes médias e dos mais pobres. O pobre não quer ficar em casa trancado fazendo churrasco. Ele quer viajar de avião, conhecer o Brasil e o mundo. Quer colocar o filho na faculdade. Comprar casa própria. E por aí vai.

Milhares de pessoas de baixa renda viveram esse cenário na era Lula, por isso o ex-presidente é popular. Em contrapartida o discurso neoliberal não resiste ao pente fino das urnas por ser rejeitado pela maioria. Por isso grupos de pressão associados ao setor financeiro sabotam institucionalidades para chegarem ao poder em países com governos não alinhados ao mercado. A democracia passa a ser sequestrada pela lógica financeira, as pessoas são  reduzidas a números e a realidade à equação matemática.

A vida democrática também é feita de lazer e subjetividades. As pessoas querem explorar o mundo, amar, viajar e contemplar, para tanto, o tempo delas não pode ser sequestrado por cargas horárias de trabalho incivilizadas, como preconiza a reforma trabalhista do Temer-Meirelles. Há uma reação no mundo contra a exploração desumana do trabalho e a destruição dos estados de bem-estar social. A política e a luta social são as esferas de resistência e decorre daí a criminalização de seus aparelhos (partidos e movimentos sociais) e atores políticos. O que acontece no Brasil tem correlação com essa conjuntura global.

O mercado tenta se impor, mas esbarra na impopularidade de suas agendas. Henrique Meirelles não passa de 1% nas pesquisas. Não empolga, tal qual seu discurso tecnocrata. O economês do Meirelles não guarda relação com os anseios concretos de milhões de brasileiros. O Brasil não é um banco em busca de um gerente. Os brasileiros querem esperança de dias melhores e a verborragia do ex-ministro não é capaz de produzir essa magia que Lula produz da cadeia com um espirro.

Não adianta prenderem a maior liderança de esquerda, as ideias e as demandas de milhões pairam no ar e podem se materializar em outras lideranças e partidos. A grande pauta brasileira: quem irá reduzir a desigualdade social? A população não confia em quem corta direitos de pobres e mantém privilégios das elites. Os possantes 05% de avaliação positiva do governo Temer e os musculosos 1% do Henrique Meirelles nas pesquisas provam isso. Por essas e outras o mercado ainda espera por uma candidatura outsider.

Coletiva do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSD)

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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