O fim do ano e as tretas que surgem

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Quando digo fim do ano, quero dizer esses dias de dezembro que já estamos vivendo. Parece que todos os eventos importantes que não tivemos na vida, serão agora, nas próximas semanas.

Nesses tempos de Natal e Ano Novo a gente tende a ficar um pouco mais sensível mesmo. Pelo menos, a mim me parece. Tem algo de religião… tem família; tem os casais em seus momentos; tem os amigos, o trabalho e a grana que tudo isso vai custar. E tem aquela estética e musicalidade mágicas dos desenhos da Disney, que ou evocam repulsa, ou ternura. Comigo acontecem ambos.

E você, vai montar árvore esse ano? Está feliz com a agenda que te espera até a virada? Seja como for, suponho que vá participar de pelo menos um amigo secreto e uma confraternização. Por mais ranzinza que você seja.

Nas próximas semanas, nós e boa parte da humanidade estará um pouco mais preocupada com os seus vínculos pessoais. Mesmo que isso seja um trunfo do mercado sobre a religião e a consciência.

Preocupada com seus vínculos, na medida que, nos próximos dias, a cobrança geral será nesse sentido: com quem você “vai estar” se reunindo nesse fim de ano? Perguntarão isso deus, as luzinhas das ruas, os representantes das nossas famílias; os anúncios pagos das redes sociais, os amigos, o Itaú e a Coca-Cola.

Como reagir a esse estímulo tão potente? Afinal, não deve ser atoa que a humanidade, desde tempos remotos, celebra o reinício do ciclo solar. A trancos e barrancos, todos os que habitam a nave Terra deram um giro inteiro em torno do sol ao longo desses mais ou menos 365 dias.

Insistir na nossa capacidade de manter vínculos hipócritas? Tentar resgatar o sentido de família? Apostar no amor e nos amigos? Amargar sozinho a própria falta de fé nos vínculos? Clicar feliz no anúncio de passagem, pensando em si e mais nada? Ou simplesmente dormir, sendo grato ao que vier no dia seguinte? Cada um que faça suas contas.

Tudo isso é treta bem pesada que acaba surgindo nesses momentos de sínteses compulsórias e renovação forçada de esperanças. Mas quando pensei nesse post, pensei mais nessas tretas cotidianas que tendem a rolar por conta das festas. E tretas, são tretas. Elas podem ser grandes, ou pequenas, com embasamento filosófico, ou pura picuinha. E umas podem se transformar em outras.

Natal aqui e Ano Novo lá? E o encerramento do trabalho de cada um! A questão dos presentes! Quem vai levar o quê em cada um desses eventos fundamentais! Quem vai, afinal? Convido? Devo estar presente ou não? Sim. Mas com que roupa eu vou? E como eu, ou a gente vai pagar essa loucura toda? O que fazer com as contas em janeiro?

Por isso, tratei de reunir algumas reflexões que podem ser úteis para quem anda com preguiça do “overtretismo” potencial, subjacente ao espírito natalino.

  • A despeito de todas as nossas críticas e posicionamentos lógicos, os encontros, as comidas, os presentes e as celebrações vão acontecer. Lutar contra isso é como tentar fincar o pé na areia, quando vem uma onda grande. É melhor tentar boiar, do que levar caldo.
  • Tendo a pensar que a baixa adesão, tampouco gera blindagem financeira. Pois acabamos pagando a falta de empenho e disposição como mais dinheiro no cartão. Compra-se de última hora, do mesmo jeito, a lembrancinha, a passagem, a calcinha branca e uma sobremesa de mercado. E sai tudo mais caro.
  • Quando a gente está em uma relação, parece razoável uma tentativa honesta de compatibilizar as agendas, afinal trata-se do imperativo do vínculo. Desse também. É melhor, então, acordar alguns critérios para estabelecer prioridades e minimizar danos. Não precisa ir junto em tudo. Talvez nem seja o caso mesmo. Mas não ir junto em nada, também não orna, entende?
  • Se junto com os primos que a gente gosta, vai estar aquele tio primata… se junto com a colega gente boa vai estar o mala da outra baia… se junto com a amiga querida vai estar a namorada nova que a gente não sabe quem é… Um pouco de surdez voluntária, ou audição seletiva, pode ajudar bastante. A chance de você ouvir alguma besteira insuportável nessas ocasiões é de 100%. E, próxima de zero, a chance de você travar um debate republicano sobre o tema.
  • Já que é um grande teatro, é só escolher para você um personagem secundário que não seja impossível de interpretar. Um qualquer, que não seja justamente aquele que gosta de tretar.

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