O PMDB representa tudo que queríamos mudar na política em 2013

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Os movimentos começaram apartidários e hetegorêneos em 2013, acabaram divididos na campanha eleitoral de 2014 e logo tiveram influência na destituição da ex-presidente Dilma no Congresso Nacional, sem afetar o que queriam mudar desde o começo: a classe política branca, velha e rica.

Opinião – Rafael Bruza

O presidente da República, Michel Temer / Foto - Reprodução
O presidente da República, Michel Temer / Foto – Reprodução

Não consigo esquecer uma imagem de junho de 2013 que me deixou emocionado. Manifestantes de Brasília haviam invadido o Congresso Nacional e estavam prometendo mais manifestações nos dias seguintes. Diziam que naquela hora, o poder era da população brasileira e que os políticos teriam que se mexer para nos agradar nos anos seguintes. Foi lindo. E vendo as imagens, pensei comigo mesmo: “algo grande está acontecendo no Brasil”.

As manifestações daquele ano foram espontâneas, horizontais e diretamente ligadas com as redes sociais. “Saímos do Facebook”, diziam alguns cartazes. Outros citavam trechos do hino e afirmavam que “o gigante acordou”.

Os cidadãos pediram escolas, universidades, hospitais e transporte público “padrão FIFA”. Também fizeram exigências por reforma política e por medidas contra a corrupção.

Ninguém queria aquela política arcaica e baseada no troca-troca e nos acordos de Brasília.

Todas estavam cansados dessa classe política branca, velha e rica. Mas os políticos eleitos não tinham a menor capacidade de fazer o que a sociedade esperava deles. A despeito disso, a mudança no Brasil parecia questão de tempo.

O movimento iniciado em oposição aos 20 centavos e à repressão da Polícia Militar feita ao Movimento Passe Livre (MPL) seguiu forte e reuniu massas de grande diversidade.

A imprensa corporativa (Grupo Globo, entre outros conglomerados), que havia criticado com dureza os manifestantes em um primeiro momento, mudou de ideia e começou a introduzir pautas próprias nas manifestações, como a reprovação da PEC 37.

Os políticos ficaram acuados.

Dilma Rousseff foi dos poucos representantes que falaram diretamente com o povo naquele momento. Propôs o pacote de 5 medidas que incluía ações em 5 áreas que geravam insatisfação nos manifestantes: economia, reforma política, corrupção, saúde e transporte público.

E logo fez a proposta mais ousada: a realização de um plebiscito que autorizasse a convocação de uma Constituinte para reformar ou criar uma Constituição Federal.

Organizações apoiaram essas medidas e alguns movimentos começaram a recolher assinaturas para a proposta de Dilma.

Mas, mais tarde, vi com estes mesmos olhos emocionados como a má vontade do Congresso, a falta de liderança dos atos e a carência de canalização de propostas fez tudo virar um carnaval fora de época.

Nos meses e anos seguintes não ocorreram mais manifestações.

Os políticos de cada município e Estado baixaram a tarifa de ônibus e aparentemente tudo foi por 20 centavos…

Após um ano e quatro meses, aquela sociedade que havia saído às ruas, em grupos de enorme diversidade, se dividiu na campanha eleitoral.

Coxinhas, petralhas, comunistas, fascistas… Todos continuavam unidos sobre algumas bandeiras similares, mas agressiva a campanha eleitoral dos dois candidatos à presidência acirrou e polarizou os ânimos, fazendo com que o país ficasse dividido entre esquerda e direita, basicamente.

As pautas se separaram.

A direita começou sua campanha contra Dilma Rousseff assim que ela foi reeleita e a esquerda até quis defender a presidente num primeiro momento, mas diante dos problemas de comunicação, das políticas neoliberais de Dilma e da enorme indignação da direita com o Partido dos Trabalhadores, muitos petistas até deixaram de declarar que eram partidários da legenda para não serem xingados nas ruas e nas redes sociais.

Vieram as manifestações, as investigações da Operação Lava a Jato, os conflitos entre cidadãos de idelogias diferentes e a recessão econômica, inflada retorica e emocionalmente por setores da imprensa e do empresariado.

Dilma perdeu força. O Congresso cresceu.

Cunha se elegeu, se rebelou da base aliada de Dilma, e quando o PT negou votar a seu favor no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, decidiu aceitar o pedido de Impeachment feito por Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e uma advogada até então desconhecida, chamada Janaína Paschoal.

Estava tudo muito claro: por nossa tendência centralizadora na política, pelo preconceito em relação ao PT e pelos erros e casos de corrupção do Governo Federal, todas as queixas levantadas em 2013 foram canalizadas na imagem, pessoa e cargo de Dilma Rousseff.

O resto é história.

Dilma caiu e a Presidência da República foi assumida por um político do PMDB, articulador e de bastidores, que não tem votos diretos para seu Governo e representa exatamente aquilo que a sociedade brasileira quis modificar em 2013.

O Congresso continuou e continua com uma péssima imagem diante da sociedade.

Mas ninguém bateu panelas contra os congressistas.

Ninguém cobrou os parlamentares por mudanças estruturais.

E ninguém percebeu que as críticas centralizadas em Dilma ignoravam o maior representante do que aqueles manifestantes queriam mudar em 2013: os homens brancos, velhos e ricos do Congresso Nacional.

A história nunca para e haverá tempo de realizar as devidas mudanças na política e sociedade brasileira.

Mas espero que a queda de Dilma não signifique o fim das intenções de mudança levantadas pelo povo brasileiro em junho de 2013.

Ainda há muito por fazer. E não podemos deixar de sonhar, de querer e de agir.

O PMDB está no poder e a classe política continua sem representar a grande parte da sociedade brasileira. Mas a pergunta agora é: até quanto aceitaremos tudo isso?

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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