‘O Podemos do Brasil é uma antípoda ideológica’, diz jornalista espanhol

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Adrián Argudo explica características do Podemos da Espanha que, segundo afirma, é diferente do partido brasileiro com o mesmo nome, assumido pelo PTN   

Por Rafael Bruza

Álvaro Dias discursa no anúncio formal de que o PTN mudou de nome para Podemos – Foto – Reprodução

No início de julho, o Partido Trabalhista Nacional (PTN) mudou de nome para Podemos e lançou o senador Álvaro Dias – ex-PSDB e ex-PV – como candidato para Presidência da República em 2018. Este nome, “Podemos”, foi copiado de um partido de esquerda da Espanha, que surgiu no seio das manifestações populares de março de 2011, chamadas de 15M ou de “manifestaciones de la Plaza del Sol.

Segundo o jornalista espanhol, Adrián Argudo, que trabalha em um jornal local do sul de Madri e em uma rede de televisão, a origem e as características do Podemos brasileiro e do espanhol são muito diferentes entre si.

O jornalista explicou ao Independente como o Podemos cresceu no país ibérico e comparou essa sigla com partido brasileiro liderado por Álvaro Dias.

Independente – Como o Podemos nasceu na Espanha?

Adrián – O Podemos surgiu uns dois meses antes de maio de 2014, quando ocorreram as eleições europeias. Todo o movimento aconteceu super-rápido, num período de tempo muito curto, a partir de um núcleo principal, formado pelo Pablo Iglesias, Errejón e Monedero na universidade. É verdade que eles sabem mobilizar muito bem as aparições na imprensa, têm bastante presença nos meios, e com isso conseguem alcançar muita gente. Obtiveram resultados de destaque logo nas eleições europeias, em que elegeram cinco eurodeputados, “sem que ninguém os conhecesse”, entre aspas. Então tiveram muito mérito neste princípio e viraram a terceira força do país em questão de meses.

Independente – Por que o partido era visto como uma inovação na política espanhola?

Adrián – A primeira inovação que o Podemos alcançou foi a de dar respostas à insatisfação das pessoas. Na política espanhola, como a de muitos outros lugares do mundo, havia insatisfação crescente e muito aguda. Então as pessoas tinham esperança de romper com a política estabelecida e baseada principalmente no PP e no PSOE (partido conservador e progressista, respectivamente), propondo algo novo, que pelo menos era diferente do que havia. No futuro veremos se o Podemos age melhor ou pior que os demais partidos, essa sigla conseguiu responder essa insatisfação.

Depois aconteceram muitas coisas, desde 2014 até agora, que são três anos. O Podemos já concorreu em eleições, alguns saíram do partido, outros chegaram, tiveram virtudes e defeitos, mas, no geral, o partido cresceu nesse clima de insatisfação da sociedade, lembrando das manifestações de 15 de março de 2011, quando nós fomos nos manifestar. O Podemos foi formado entre aquelas pessoas e depois se formalizou na política.

Independente – Pode citar algumas políticas defendidas por essa sigla?

Adrián – O Podemos defende principalmente as pessoas que não possuem voz ou defensores na sociedade. Acredito que esta é uma boa definição. Logo há críticos, claro. Algumas pessoas veem o partido de forma diferente, dizendo que se converteram em políticos tradicionais, etc. Logo existe um debate que questiona se as bandeiras do Podemos podem ser realmente concretizadas. Ou seja: muita gente, mas principalmente aqueles que estão mais à direita, dizem que o que os filiados do Podemos defendem não é real e questionam de onde sairia o dinheiro, etc.

A sigla também propõe, por exemplo, aposentadorias dignas, educação e saúde públicas e defesa dos direitos, se opõe à Lei Mordaça (que prevê multas para manifestações sem autorização), são contra corrupção e nesses últimos tempos moveram uma moção de censura no Congresso Nacional e na Assembleia de Madri contra o Partido Popular (PP, sigla governista), que se inunda de casos de corrupção há anos.

Independente – O Podemos do Brasil surgiu do PTN, que mudou de nome e anunciou Álvaro Dias, ex-filiado do PSDB e do PV, como candidato à Presidência da República. Como você enxerga um político com tendências da chamada “direita econômica” sendo candidato da versão brasileira do Podemos?

Adrián – O Podemos do Brasil é uma antípoda ideológica, ou seja, é o contrário do Podemos espanhol. Pelo que você comentou, o candidato Álvaro Dias não parece o melhor candidato pelo passado que tem. Ele e o PTN já participavam da política, então não se formaram com base social. O Podemos de aqui, sim, para defender os interesses dos mais humildes e dizer “basta” à corrupção. Eu diria que o Podemos brasileiro defende a austeridade e o Podemos espanhol é austero com os corruptos.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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