O presidente da Espanha depôs na Justiça pela corrupção em seu partido

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Um Rajoy soberbo se sentou à altura do tribunal, com comodismo, para testemunhar no Caso Gürtel.

Por Adrián Argudo

Mariano Rajoy (PP) depõe na Audiência Nacional

Ocorreu há menos de um mês, no dia 26 de julho de 2017, às 10h. Mariano Rajoy, presidente da Espanha, depôs na Audiência Nacional (tribunal espanhol localizado em Madri) como testemunha de um dos piores escândalos de corrupção que assolam seu partido: o caso Gürtel. O presidente teve vários privilégios no depoimento. Foi recebido por José Ramón Navarro, presidente da Audiência Nacional, e seu acesso à sala era exclusivo, separado das pessoas comuns e de jornalistas…

Entretanto, um dos focos mais comentados do caso, como não, teve teor mais visual: a posição do presidente dentro da sala. Lá ele também gozou de uma situação de privilégio que deixou boa parte da sociedade espanhola indignada.

Rajoy se sentou na altura do tribunal. Esta disposição do espaço não tem precedentes no caso de testemunhas. Enfim: Rajoy não viveu a situação de outros filiados do Partido Popular (PP) e ainda teve uma posição física de superioridade em relação a outras testemunhas da Audiência Nacional.

Evidentemente, o fato virou assunto de um setor importante da população. Basta observar que o tema acabou na capa de vários jornais e tabloides europeus.

Em um dos primeiros textos que fiz no Independente, falei sobre duas pessoas que denunciaram esquemas de corrupção na Espanha. A trama Gürtel apareceu naquela coluna. Precisaríamos de certo tempo para explicar esse escândalo de corrupção de forma adequada. Não em vão, nos encontramos diante de uma rede de corrupção política vinculada, precisamente, ao PP de Rajoy, principalmente em Valencia e na capital, Madri. O caso Bárcenas está vinculado a essa trama, assim como o famoso caixa 2 dos populares, partidários de Rajoy. O modus operandis pode ser resumido como um sistema piramidal necessário à corrupção. Os malfeitores, à mercê de favores e dinheiro, obtiam adjudicações escolhidas a dedo.

Sobre o depoimento: ninguém esperava, evidentemente, uma revelação do testemunho presidencial. Rajoy, ao estilo de Cristina de Borbón (segunda filha dos reis da Espanha), negou saber e conhecer a dupla contabilidade de seu partido, a despeito de suas responsabilidades na sigla, assim como os super-salários.

O presidente menosprezou responsabilidades e declarou que “não cuidava de assuntos econômicos”. Vocês sabem que, chegado a esse ponto, ninguém sabe de nada. Rajoy passou por todos os degraus de representação pública e ostentou diversos cargos e tarefas dentro de seu partido, mas não sabia de nada. Soltou frases como: “eu ia a Gênova (sede do PP) e via que estavam fazendo obras”. Ou: “até o final do dia poso ter mais de dez ou doze reuniões e absorvo só o que considero fundamental”.

Há outro ponto importante. Cidadãos já solicitaram a demissão do atual presidente da Espanha.

Em um famoso SMS enviado à Bárcenas (ex-tesoureiro do PP), o presidente manifestou seu apoio ao e chegou a dizer: “fazemos o que podemos”. Questionado sobre isso, Rajoy se esquivou: “fazemos o que podemos significa exatamente o que quer dizer”. Vocês fazem o julgamento.

Bom, já reunimos um pouco de conteúdo. Sobre o tom e as formas, vimos um Rajoy soberbo, altivo e até mesmo desafiante em relação à acusação. Disse ao advogado da ADADE (empresa de assessoria e auditoria fiscal), com que teve seus mais ou menos, que “não acha o raciocínio muito brilhante”.

“Não sei se você confundiu de testemunha”, afirmou em outro momento.

Dava a sensação de que usava essa mesma ironia, transformada em gala, dentro do Congresso. Para dizer a verdade, vimos um presidente numa situação cômoda e controlando a situação. Por outro lado, devemos dizer que os interrogadores do presidente foram frouxos e não o colocaram em sinucas de bico. O presidente da sala contribuiu com essa situação, pois cortou os outros magistrados em algumas ocasiões. Isso também foi bem criticado.

À saída, depois de quase duas horas de declaração, cidadãos e cidadãs mostraram sua máxima indignação por ter um presidente depondo num caso de corrupção, enquanto outros, no entanto, manifestaram apoio.

É o conto de sempre? O das duas Espanhas?

São tempos convulsos de corrução e cloacas, assim como ocorre no Brasil. Presidentes declaram em casos de corrupção e são acusados de participação nos mesmos, mas continuam governando.

Formado em jornalismo e pós-graduado em Comunicação pela Universidad Carlos III de Madrid. Apresentador de televisão na Espanha e editor-chefe no jornal regional de Madri Nuevo Cronica. Correspondente do Independente na Espanha. Serviçal do jornalismo. Professor. Torcedor do Atético de Madrid.

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