‘O sangue do Lucas está nas mãos de vocês’, diz estudante na Alep

3

Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, fez discurso no legislativo do Paraná onde criticou os parlamentares da casa e manifestou as reivindicações dos estudantes no Estado.

Informação – Por Rafael Bruza

A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro(16) discursa na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) / Foto - Reprodução
A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro(16) discursa na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) / Foto – Reprodução

A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro (16) do Colégio Estadual Manuel Alencar Guimarães, fez um discurso na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) nesta quarta-feira (26) em que manifestou a visão dos estudantes sobre as ocupações em todo o Estado, que ocorrem em mais de 800 escolas.

“É um insulto a nós (estudantes), que estamos lá nos dedicando e procurando motivação todos os dias, sermos chamados de doutrinados. É um insulto aos estudantes. É um insulto aos professores. A nossa dificuldade em conseguir formar um pensamento é muito maior do que a de vocês. Nós temos que ver tudo que a mídia nos passa. Fazer um processo de compreensão, de seleção, para daí conseguir ver o que vamos ser a favor e o que vamos ser contra. E é um processo difícil. Não é fácil para os estudantes, mas mesmo assim decidimos fazer isso. Não estamos lá para fazer baderna, não estamos lá de brincadeira. Estamos lá por um ideal. Estamos lá porque acreditamos no futuro do nosso país. Nós sabemos pelo que estamos lutando. A nossa bandeira é a educação. A nossa única bandeira é a educação”, afirmou Ana Lucia.

A adolescente comentou a morte de Lucas, de 16 anos, que foi morto por um estudante em uma das ocupações no Estado. A estudante disse em seu discurso que os parlamentares da Alep têm responsabilidade na morte do adolescente porque são representantes do Estado.

“Ontem eu estive no velório e não recordo de nenhum desses rostos aqui. Nós sabemos que nós estávamos preocupados. Vocês estão aqui representando o Estado. A mão de vocês está suja com o sangue do Lucas. Não só do Lucas, como de todos os adolescentes e estudantes que são vítimas disso. O sangue do Lucas está nas mãos de vocês! – exclama a estudante antes de ser cortada pelo presidente da casa, Ademar Traiano (PSDB), que ordenou que a jovem respeitasse os parlamentares.

Antes dessa declaração, Ana Julia falou sobre o movimento estudantil do Paraná.

“Nós somos um movimento apartidário. Somos um movimento dos estudantes para os estudantes. Somos um movimento que se preocupa com as gerações futuras. Um movimento que se preocupa com a sociedade, com o futuro do país. Que futuro o Brasil vai ter se não nos preocuparmos com uma geração de pessoas que vão desenvolver senso crítico? Que precisam ter senso crítico e político, que não podem só ler um negócio e acreditar naquilo?”, questiona a estudante antes de introduzir as reivindicações do movimento, que se opõe à PEC 241 de teto de gastos públicos, à Medida Provisória que reforma o Ensino Médio e ao programa do Escola sem partido.

“Nós temos que saber o que estamos lendo. Temos que lutar contra o alfabetismo funcional, que é um grande problema no Brasil hoje. E é por isso que nós estamos aqui é por isso que nos ocupamos as nossa escolas. É por isso que somos contra a Medida Provisória. A gente sabe que precisa de uma reforma no Ensino Médio. Não só no ensino médio, como no sistema educacional como um todo. A reforma da educação é prioritária. Só que a gente precisa de uma reforma que tenha sido debatida, conversada e feita pelos profissionais da área da educação. É essa reforma que a gente precisa”, explica a estudante, que continua o discurso.

“A gente não somente a MP como reivindicação. A gente também tem a popularmente conhecida ‘Lei da Mordaça’. Escola sem Partido, que é uma afronta. Uma escola sem partido é uma escola sem senso crítico. É uma escola racista. Uma escola homofóbica (aplausos). A Escola sem partido é falar para nós, estudantes e para a sociedade que querem formar um exército de não pensantes. Um exército que ouve e baixa a cabeça. E nós não somos assim. Nós temos uma história. E nessa história a gente luta contra isso. No século XXI vocês querem nos colocar um projeto desses? O Escola sem Partido nos insulta, nos humilha. Diz que a gente não tem capacidade de pensar por si só. Só que a gente tem. E a gente não vai baixar a cabeça para isso”, afirma a estudante.

A Proposta de Emenda Constitucional 241 aprovada em 2º turno na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (25) também foi citada no discurso da jovem.

“A PEC 241 (teto de gastos) é outra afronta. É inconstitucional, é uma afronta à Constituição cidadão de 88. Nela, a gente tem a seguridade social. A PEC 241 acaba com isso. É uma afronta à Previdência Social. É uma afronta à saúde. É uma afronta à educação. É uma afronta à assistência social. A gente não pode deixar isso simplesmente acontecer”.

Os estudantes do Paraná decidiram manter as ocupações estudantis do Estado após o falecimento do estudante que participava de uma das ocupações.

Comente no Facebook