Ô seu puliça …

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Policiais trabalhando durante o Carnaval / Foto – Ilustração

Carnaval 2017, dispersão do bloco Charanga da França ali nas entranhas do bairro Santa Cecília, eu e mais duas amigas resolvemos parar para comer algo por ali. No meio do caminho, resolvi conversar com dois policiais que estavam parados enquanto uma barricada deles se formava na esquina dar o “sermão” no povo que não queria deixar a farra.

Transcrição do diálogo abaixo.

Vale ressaltar que eu sou mulher branca, estava com maquiagem lilás, uma mini coroa de princesa. Minhas amigas, as quais já tiveram experiências traumáticas com a força do estado (Sugiro leitura de “Política por vocação – Max weber”, por obséquio), seguiram adiante.

Eu – Moço, olha, como pessoa física tá, aquele povo que tá ali formando o paredão teve ordem pra bater nas pessoas que estão na rua?

P1 – Como assim, você vai gravar alguma coisa aí?

Eu – Não moço, só quero saber mesmo, porque só vejo violência por parte da polícia né, e eu tô na rua, quero saber se corro risco de apanhar.

P1 – Moço não, senhor. Não existe ordem de agressão, nós somos a ordem, entendeu?

Eu – Entendi. Moço, quer dizer, senhor, qual a sua idade?

P1 – Eu tenho 36 e você?

Eu – Tenho 32. O senhor tem filhos, esposa?

P1 – Tenho sim, esposa e dois filhos

Eu – Ela sofre muito pelo fato de o senhor ser policial?

P1 – Não, tá acostumada já.

Eu – E você moço?

P2 – Tenho 26. Moço não, senhor.

Eu – Ah, desculpe senhor. Pode ser que te chame de moço mais vezes porque sou mais velha que você, mas não será por mal.

P2 – Tá desculpada.

Eu – Mas deixa eu fazer outra pergunta?

P1 – Sim

Eu – Porque vocês agridem civis que se manifestam contra o governo?

P1 – Não é contra o governo, é contra a ordem.

Eu – Ah, mas vamos supor que eu tivesse pichado um muro com 14 anos, vocês me agrediriam mesmo eu sendo uma adolescente inconsequente?

P1 – Você tá confessando um crime?

Eu – Não, eu falei no começo da frase “vamos supor”

P1 – Eu acho que vamos ter que te enquadrar

Eu – Que isso senhor, estou sem maldade aqui, estava só curtindo o carnaval, só estou perguntando porque nunca tive a oportunidade de perguntar antes, não confessei nada não. Além disso, se tivesse feito, muito provável que vocês na época eram adolescentes também, inconsequentes como eu, certo?

Os dois se entreolharam

P1 – Mora onde moça?

Eu – No XPTO

P1 – Qual sua profissão?

Eu – Jornalista de formação, mas exerço outras funções hoje. Aliás, estou desempregada.

P1 – Agora você se complicou, talvez seja melhor enquadrar mesmo, você não tá gravando não né?

Eu – Não tô, tava curtindo o bloco, juro.

P1 – Tamo confiando hein.

Eu – Pode confiar

P1 – Mas porque tanta curiosidade justo agora hein, é carnaval, vai curtir.

Eu – Porque eu defendo direitos humanos e vejo muito abuso da polícia, daí aproveitei que tava passando aqui e queria conversar com vocês.

P2 – Vixe, pichadora dos direitos humanos, melhor enquadrar hein (falando pro P1)

Eu – Não senhor, não precisa não, se quiser eu paro de perguntar, não vou fazer nada com as informações, só queria ouvir vocês.

P1 – Melhor parar de perguntar então, senão vai ficar ruim.

Eu – O senhor acha que estou te desacatando?

P1 – Não, claro que não

Eu – Quer que eu vá embora?

P1 – Não, só para de fazer pergunta

Eu – Mas e se eu falar que eu apoio o black block, é desacato (mano, não sei onde eu tava com a cabeça, sério)

P1 – Você é black block? Melhor enquadrar mesmo!

Eu – Não, claro que não, cê acha que se eu fosse eu ia tá aqui conversando com vocês e falando essas coisas?

P1 – Mas não tá gravando mesmo? (caralho, que cagão véio)

Eu – Não senhor, claro que não, já falei, pode confiar. Mas é melhor quebrar banco do que o civil, não é?

P1 – Na verdade não é melhor quebrar nada. Mas entre o banco e o civil, o black block quebra o banco e a gente quebra ele, o civil sai ileso (como se black block não fosse civil, mas um espécime)

Eu – O senhor já bateu em mulher?

P1 – Tá me acusando moça? Tá gravando?

Eu – Já falei que não tô gravando. (mostro o celular pra ele ter certeza)

P1 – Jamais bati em mulher. Nem na minha, nem em civil. Homem que bate em mulher é covarde

Eu – Que alívio. E você moço? Desculpa, releva, você é muito jovem pra eu te chamar de senhor.

P2 – Tudo bem moça. Não, nunca bati em mulher.

Eu – Mas e se fosse uma manifestação por moradia num bairro periférico e uma mulher pobre e preta estivesse lá? Você bateria para conter?

P1 – Nossa, agora você foi racista, vou te enquadrar

Eu – Que isso, não fui racista, não distorça minhas palavras. Eu só fiz uma pergunta, se não quiser, não responda.

P1 – Tá gravando? (zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz)

Eu – Já falei que não (mostro o celular de novo)

P1 – Eu vou responder então. A gente trabalha pra defender o patrimônio e a ordem né?

Eu – Patrimônio de quem?

P1 – O público né

Eu – Cê ganha bem?

P1 – Não é da sua conta

Eu – Eu sei que não ganha, só queria confirmar.

P1 – Moça, melhor você ir embora agora, o povo tá olhando e vai ficar complicado pra nós depois. Estamos trabalhando.

Eu – Tá bom, desculpa qualquer coisa (Amigas do carnaval sabem o que essa frase significa). Boa sorte pra vocês, obrigada pelo papo.

P1 e P2 – Boa sorte pra você também, vai pela sombra.

Eu – Um beijo na sua esposa e filhos, um beijo pra sua família também P2.

Um aperto na mão de cada um e segui meu rumo.

Obs: Eu não gravei nada, mas estava na intenção de ter esse diálogo. Assim que cheguei em casa, transcrevi num caderno e hoje estou passando para cá.

Reforço, não me perguntem onde eu estava com a cabeça. Embora eu tivesse apenas o mínimo de noção do que pudesse ter acontecido, eu estava destemida pelo calor do momento e reforcei milhares de vezes que só queria perguntar por curiosidade. Não perguntei o nome, não anotei a rua onde estava porque isso não é uma denúncia de nada, apenas queria saber até onde ia. Em dado momento em que citaram enquadrar, falei que não havia polícia feminina ali e por isso eles precisariam acionar outra viatura, o que lhe custaria explicações e todos os civis que ali passavam (dispersão de bloco, então pensem) estavam vendo que eu estava parada, distante, sem nenhum tipo de arma ou droga, e que bastava eles pedirem para eu ir embora que eu iria. E eles NÃO pediram. E quando pediram, eu segui meu caminho ILESA.

Agora venham me dizer que não existe privilégio branco classe média e eu enfio a mão na cara.

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