‘A ocupação formou novos cidadãos’, dizem estudantes que participaram de atos estudantis

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Sarah e Isabela estiveram nas ocupações de estudantes secundaristas de São Paulo em 2015 e 2016 e contam o que queriam, viveram e sentiram nos dias de ocupação.

Entrevista – Rafael Bruza

Show do rapper Emicida realizado na ocupação na Escola Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque
Show do rapper Emicida realizado na ocupação na Escola Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque / Foto – Divulgação

Os estudantes secundaristas (ensino fundamental, médio, técnico e pré-vestibular) fizeram ocupações em escolas da rede estadual de ensino em dois momentos: (1) quando o governador Geraldo Alckmin do PSDB propôs a reorganização escolar que iria fechar escolas no final de 2015; e (2) quando houve fechamento de centenas de salas de aula na rede estadual de ensino em 2016, que foi batizado por movimentos e sindicatos de “reorganização escolar disfarçada”.

Em janeiro desse ano também surgiram acusações de desvio de verbas de merendas escolas em diversas cidades do Estado de SP. E a situação precária do ensino estadual completou o cenário que incentivou os estudantes secundaristas a se instalarem em suas escolas durante vários dias para reivindicarem direitos diante do Governo do Estado de São Paulo.

A estudante secundarista, Sarah Jeniffer Sousa / Foto (Arquivo pessoal)
A estudante secundarista, Sarah Jeniffer Sousa / Foto – Reprodução (Arquivo pessoal)

Sarah e Isabela fizeram parte desse grupo. As duas participaram da ocupação na Escola Estadual Prof. Manuel Ciridião Buarque, localizada na zona oeste de São Paulo. A instalação foi montada em maio, época decisiva no Impeachment de Dilma Rousseff, e durou cerca de três dias.

A Polícia Militar seguiu orientação da Procuradoria Geral do Estado e fez reintegração de posse sem autorização judicial. Após essa orientação, quase todas as ocupações estudantis da cidade foram desmanteladas em poucos dias. No Ciridião, os alunos foram removidos com bombas e ameaças.

Sarah e Isabela conversaram com o Independente para contar o que viveram, viram e sentiram naqueles dias.

1- Independente – Por que os estudantes resolver fazer novas ocupações em 2016?

Isabela – Quando ocupamos no ano passado, o governador Geraldo Alkmin deixou claro para todos que esse ano seria um ano de diálogo. Mas chegou 2016 e não teve diálogo. Apareceram várias coisas como fechamento de salas de aula, depois o escândalo da merenda. Então no meu ponto de vista, nesse ano quisemos abrir um diálogo com o Governo para ver o que está acontecendo. Perguntar “por que vocês estão fazendo isso”?

Sarah – No ano passado, o motivo era muito claro. Para qualquer um que você perguntasse, a pessoa sabia que as ocupações aconteciam pela reorganização escolar. Quando ele disse que ia adiar a reorganização e que esse ano seria de diálogo, a gente teve esperança de que isso realmente aconteceria. Só que esse ano já começou com o escândalo da merenda aparecendo, com fechamento de 1.300 salas de aula, mais 3 mil no ano passado. Eles estão fazendo uma reorganização escolar disfarçada, está faltando diálogo, merenda… Aí chegou um momento em que dissemos: “não conseguimos nada que pedimos no ano passado e precisamos de alguma forma abrir um diálogo com o Governo”. Olhando como estávamos no começo do ano e como o ano vai acabar, nós só perdemos.

A estudante secundarista,Isabela Haibara / Foto - Reprodução (Arquivo pessoal)
A estudante secundarista,Isabela Haibara / Foto – Reprodução (Arquivo pessoal)

2- Independente – Então, com o fim das ocupações, podemos dizer que o Alckmin venceu vocês na política?

Isabela – Temporariamente.

Sarah – Ano passado ele enfraqueceu 100% o movimento. As ocupações estavam pipocando em todo lugar e quando ele disse que ia só adiar a reorganização, não fez o que a gente estava pedindo, que era uma cancelação definitiva (da reorganização escolar). Se fosse para fazer um plano, teria que ser um plano com os estudantes. E aí quando ele adiou, o movimento perdeu muita força. Não tinha mais o apoio da população para ocupar, porque as pessoas falavam: “ah, vocês já conseguiram o que queriam”. Foi um momento em que o movimento se perdeu e então chegamos à situação de hoje, quando aparecem matérias dizendo que o Alckmin pretende retomar a reorganização esse ano. Então ele ganhou enfraquecendo o movimento.

Isabela – Mas a gente não vai parar.

Sarah – Nós ensinamos uma grande lição. Eu não esperava que as ocupações fossem se estender, que fossem a vários estados e que o Rio de Janeiro, por exemplo, fosse fazer.

Isabela – Eles estão fazendo ocupações desde o começo do ano.  Saiu a lei do Temer (que pretendia transformar o Ministério da Cultura em secretaria) e eles estão lá. E é pesado, tem muita repressão.

Sarah – A luta da ocupação se disseminou não só em escolas. Teve na USP, nas reitorias, etc. Então eu não acho que o Alckmin ganhou. Acho que outros estados olharam para ele e falaram “Alckmin, você fez uma cagada muito grande que foi deixar os estudantes ensinarem alguma coisa. E você não poderia ter feito isso”. Porque o que fizemos foi tão grande, que saiu do território do governo dele e atingiu territórios de outros governos. E já nos disseram que os estudantes, os secundaristas, foram os primeiros a fazer o Alckmin voltar atrás em uma decisão. E, mesmo que ele esteja se sentindo vitorioso e que a gente não tenha conseguido o que ele queria, voltar atrás em uma decisão mexe muito com o orgulho dele, sabe?

2- Independente – A orientação da Procuradoria-Geral do Estado de que a Polícia pode fazer reintegração de posse sem autorização judicial afetou muito as ocupações, não é?

Sarah – A orientação acabou com a marca do movimento dos estudantes, que são as ocupações. Já fomos para rua, fizemos manifestações, fomos na Alesp protestar, mas o que chocou mesmo foram as ocupações. Porque quando manifestamos, só paramos o trânsito. Mas quando ocupamos prédios públicos, fazemos uma manifestação que dura as 24 horas do dia. E afetamos toda uma rede que inclui os pais dos alunos que ficam sabendo do protesto porque o filho não foi para a escola, todos que trabalham na escola, por exemplo, inclusive as empresas terceirizadas, que não podem enviar seus produtos para as escolas, os funcionários terceirizados que deixam de receber… Então tudo isso funciona como foco de pressão para o Governo.

Isabela – Na verdade os terceirizados nos contaram que estão sem receber desde o começo do ano, mas com certeza a ocupação funciona como um foco de pressão por afetar o setor privado.

3- Independente – Como eram as ocupações desde dentro? Quer dizer, o que você viveu e sentiu lá dentro?

Isabela – Bom, dentro da escola durante ocupação era nossa casa, nós éramos uma família bem grande. As salas eram chamadas de quarto, aquela entrada da secretaria de portaria, o refeitório de cantina, e assim vai… No começo nós criamos comissões que não duraram quase nada, acabou que cada um fazia um pouquinho quando necessário. O mais legal foi ver como sem querer criamos uma sociedade utópica, onde as mulheres tiveram muito protagonismo e não teve problema nenhum nisso. Teve dia que os meninos lavavam os banheiros e cozinhavam, enquanto as meninas reformavam o palco e cuidavam da entrada. Muita gente sofria em casa, alguns até foram expulsos, e encontraram as escolas como porto seguro. Lá a gente de sentia acolhido de verdade, foram poucos os dias que não dividi a cama com alguém. Sinto falta de estar dentro da escola quando ela era a Ocupa Ciri, um espaço aberto para discussões, atividades, com aulas de verdade, onde o aluno se sentia pertencente ao lugar que mais passa seu tempo

Sarah – A ocupação me fez muito feliz. Eu vi senhores velhinhos admirando a gente por algo que estávamos fazendo. Vimos a vizinhança dando comida para a galera. A população que literalmente alimentou a gente. O bairro de Cerro Corá levava comida. A ocupação formou novos cidadãos. Quem já acreditava na luta e desejava uma sociedade melhor teve a esperança renovada e até quem era contra às vezes mudava de opinião. Muita gente de outras escolas vieram para mim, inclusive gente que eu discutia muito, como o Pedro, sabe (dirigindo-se à Isabela)? Ele era totalmente contra, virou para mim e falou que eu estava fazendo uma coisa ridícula. Depois o vi um dia, levando coisas para o Alves, que é outra escola, para dormir lá, ajudar a ocupar. E teve um dia que ele falou “desculpa, de verdade”. Aí virou tão de esquerda a ponto de sentar comigo e discutir nas linhas de esquerda como “a luta de classe é isso; não, é aquilo!”. Ou seja, algumas pessoas ficaram com a cabeça totalmente aberta. Então acho que o maior medo não é só porque a ocupação age contra o Estado diretamente, mas porque ela forma novos cidadãos que entendem que devem ir contra o Estado. Foi isso que a ocupação fez. Muita gente chegou lá, perguntou o que está acontecendo, pediu para entrar e é gente que nem sabia de nada, gente que só vê Globo. Aí saiu da ocupação dizendo “nossa, vocês estão certos”. Mas também é gente que, se não tivesse ido na ocupação, não iria entender, nem saber por que que os estudantes estão fazendo isso.

4- Independente – Se vocês pudessem enumerar as maiores dificuldades das ocupações de 2016, quais seriam?

Isabela – Os alunos que eram contra. Tivemos que lidar com gente que vemos todos os dias. E eles resistiram porque teríamos que fazer reposição de aulas durante as férias. A gente entende o lado dessas pessoas… Quando ocupamos, não perdemos o direito a ter aula porque a escola entra em recesso. Então repomos essas aulas nas férias.

Sarah – Foi justamente por isso. Muitos disseram: “não quero ir para a escola nas férias”. Eu não vou julgar ou fingir que não entendo. Mas essas pessoas não se politizaram.

Isabela – E com o tanto de informação que a gente tem, quando a gente vê todos os problemas, sai na rua, apanha de policial de graça, sem ter feito nada, as causas ficam claras. Mas era um pouco horrível dizer: “gente, não vamos respeitar a decisão de vocês. Vamos continuar todos os dias. É por uma causa muito maior”. Mas acho que nem houve dificuldade no geral. Eu ficaria lá (nas ocupações) mesmo com os problemas.

5- Independente – E a violência policial?

Isabela – Nem vejo a violência policial como uma dificuldade porque só dói na hora e depois a revolta é popular…

Sarah – Eu fico com muita raiva ai volto lá só para olhar para a cara dele e falar “ó, você vai bater e eu vou voltar” (risos).

Isabela – Também tem a manipulação da mídia…

Sarah – As escolas também foram treinadas para ir contra as ocupações. Os alunos foram manipulados. Professores perseguindo a gente…

Isabela – Divulgaram inclusive um manual que dizia o que as escolas deveriam fazer caso houvesse ocupação. Muita gente pensou que a gente estava estragando a escola, ainda mais com a imprensa. Teve uma notícia do Estadão que dizia: “não adianta nada só escola modelo ter ficado em bom estado e outras escolas não”. Mas em Fernão, que é “a escola em modelo”, entre aspas, não foi tão conservada assim, não deixaram a escola bonitinha quando saíram… E a mídia foi só para lá.

Sarah – As escolas de periferia tiveram oportunidade de fazer reformas. Vi muitas escolas de periferia em que os alunos aproveitaram aquele tempo para pintar a escola, limpar, até na nossa escola nós fizemos coisas que precisávamos fazer a muito tempo, e ali tivemos a oportunidade de fazer.

Isabela – Infiltrações e outras coisas…

Sarah – A ocupação também serviu para mostrar ao aluno que a escola é dele. Não é do diretor, não é do Geraldo Alckmin… Ela foi construída por causa de mim, então vou lutar por meus direitos. E acho que isso é o maior perigo, porque quem entendeu que a escola é dele, vai reivindicar. Eles vão dizer que a gente não pode. Mas eles sabem que a gente pode. A escola foi criada por causa de mim, então na verdade você é um servidor. Eu não estou aqui para te servir. Muitas vezes nós somos tratados por professores e diretores como se o objetivo de existência do aluno fossem eles. Mas na verdade não é assim. O objetivo deles existirem como professores e diretores somos nós. Então viramos para eles e dizemos: “amor, não somos seus servidores. É totalmente diferente a situação. Na verdade, você que é meu servidor”.

Isabela – É, para eles, isso é um grande perigo.

Sarah – É abrir a possibilidade para um questionamento, não é? Antes eu questionava, mas não questionava tudo. Agora é olhar, ver que não tem papel e perguntar “por que não tem papel”. Além de ver como as pessoas mentem, como a Karen (diretora), que falou no começo do ano que tinha acabado o papel e até hoje aquele papel não chegou. Foi bom por ter aberto a cabeça para questionamento e, para mim, por me ajudar a perceber que eu posso questionar. Que está certo questionar. Que devo questionar. E ela tem que me responder.

Isabela – Tirando que depois da reorganização saiu o negócio do Escola sem Partido…

Sarah – Não tem como você falar de Ditadura Militar sem lembrar que os partidos que fizeram o regime (PMDB, DEM, por exemplo) são os que estão no poder hoje.

6- Independente – Sim, teve professor afastado apenas por ensinar Karl Marx… Mas, mudando de assunto, que vocês acham da reorganização escolar em si: do ciclo único e a ideia de fechar as escolas?

Sarah – Eu concordaria com a ideia de separação de ciclo e eles usaram um argumento muito bom, mas é uma pena que essa não era a intenção verdadeira deles. O governador queria cortar gastos. Além disso, a ideia era fazer os estudantes estudarem perto de casa e aproximar os alunos da família.

Isabela – Mas a gente não quer uma escola perto de nossa casa, porque elas são ruins. Queremos estudar na escola que é melhor. E essa diferença está errada porque, se o sistema é único, se as escolas recebem as mesmas verbas, a escola da periferia também deveria ser boa. Então por que é tão desigual?

Sarah – Eles usaram um argumento muito bom, mas não é o que eles estavam fazendo. Era uma máscara. Se você dividir as escolas por ciclo, você precisa de mais espaço, não menos, que é o que eles quiseram fazer com o fechamento de escolas. Então eu repudio o plano de reorganização porque ele basicamente queria fechar escolas para cortar gastos. E aí você desce o pau nos estudantes porque eles estão lutando contra essa reorganização… É muito complicado, cara… A educação já está uma droga e nós lutamos para que ela continuasse a mesma droga. Só queríamos que não piorasse.

7- Independente – E o que aconteceu?

Sarah – E aí piorou a situação. Não conseguimos fazer a escola continuar como estava.

Isabela – E os professores também iam perder com isso, porque se não tem escola, não tem onde professor trabalhar. Eles teriam que se deslocar e ir para outra escola. Alguns talvez até desistissem de trabalhar por causa da mudança.

Sarah – Eles foram contra leis. Contra várias coisas. O Governo tem que dar uma educação livre e de qualidade. Mas eles foram contra tudo que eles mesmos dizem. “Que a educação é a base da sociedade, a educação forma o cidadão e que sem a educação, a gente não consegue ter uma sociedade forte”.  Como nosso país quer desenvolvimento se não investe em educação? Foram contra tudo que um governo tem que fazer, foram contra todos os planos. Porque se você começa a investir em educação, você garante que tudo lá na frente aconteça.

8- Independente – Olhando as causas das manifestações de estudantes, vocês falaram de merenda, a reorganização maquiada, o sucateamento das escolas… Indo um por um nesses três pilares básicos, qual é a situação de cada elemento desse

Isabela – Nós vemos essa situação toda junta. Está tudo conectado.

Sarah – É, a situação da merenda para mim, chega a ser desumana porque você literalmente está roubando comida da boca do estudante. Você já tira dos pais deles, que são trabalhadores, mas não tem dinheiro para comprar comida. Ai você vai e rouba deles diretamente. Eu, por exemplo, tenho a opção de almoçar em casa. Mas eu sei que a situação de uma grande maioria não é essa. Tem muita gente que se não almoçar na escola, provavelmente não vai almoçar em casa, possivelmente vai ficar doente e o sistema de saúde não vai atender ela porque você sabe como é nosso sistema de saúde. Então é nojento porque literalmente rouba comida da boca do estudante, você está tirando o básico do ser humano. Com o sucateamento você acaba com a chance de a sociedade ser melhor. As pessoas falam que “tem que investir na indústria, tem que investir na tecnologia, nas empresas privadas, fazer terceirização”, mas ninguém entende que essa sociedade deu errado porque a educação é errada. E a próxima sociedade vai dar errada porque a educação continua errada. Falamos muito desses países de primeiro mundo, construímos ciclovias porque tem na Holanda, fazemos algo porque existe em outro país, então gastamos milhões para fazer Copa do Mundo e Olimpíadas tirando dinheiro de aposentados, e esquecemos que os países de primeiro mundo são o que são porque formaram pessoas capazes de fazer um país de primeiro mundo. E é o que a gente deveria estar fazendo agora.

9- Independente – E vocês têm alguma perspectiva de futuro? Acham que essa geração consegue fazer a diferença em longo prazo?

Isabela – Já estamos fazendo…

Sarah – É, muita gente olhou para nós durante a ocupação e falou: “nossa, isso não existia na minha época”! Muitos sentiram orgulho de nós. E acho que foi um momento de mostrar para eles que essa galera consegue fazer a diferença. Hoje a gente é estudante. Mas amanhã quem vai ocupar cargos como os da educação, é a gente. Da tecnologia, é a gente. E dos trabalhadores também é a gente. Aí sabemos que se o trabalhador quiser se mobilizar, ele vai fazer uma grande diferença. Então é uma visão esperançosa e acho que essa galera de agora tem sim grande chance de fazer a diferença. É uma questão de se manter na esperança de não se deixar corroer pelo sistema.

10- Independente – Sim, a geração mais velha sai, a de vocês cresce e troca tudo…

Sarah – Sim, a nossa geração também vai ter filhos e eu não vou ensinar meus filhos a ir para escola, se calar, tirar boas notas e fazer uma faculdade. Vou explicar que nossa condição social é essa por causa disso. Joãozinho é pobre, mas não porque o pai dele não trabalhou. Temos muito essa visão meritocrata em que os ricos dizem que ‘seu avô não trabalhou’, mas minha vó trabalhou. Trabalhou como uma escrava e não teve a possibilidade de enriquecer. Eu não vou ensinar essa visão de que “o mundo é mundo porque Deus quis” ou “você nasceu pobre porque Deus quis”.  Vou mostrar que tem alguém te roubando.  E acredito que essa geração vai ensinar seus filhos e vai ensinar as próximas gerações que a gente aprendeu olhando para o mundo. Eu acredito em duas coisas, na verdade. Ou o mundo vai acabar de um jeito terrível ou tem a possibilidade de evoluir. Eu espero que a verdade seja a segunda opção porque se não, não tem por que continuar lutando.

11- Independente – E se você pudesse mandar uma mensagem para todas as pessoas do Brasil, no geral, o que diria?

Sarah – Diria que fico muito triste por eles só terem olhado para nós como cidadãos e como estudantes a partir do momento em que tivemos que tomar uma medida drástica. Fico triste por eles só terem escutado nossa voz no momento em que a gente teve que gritar.  E na verdade foi um momento em que eles não tiveram como não escutar a gente, não dava para ignorar. Nossa voz estava só ouvida dessa forma, que é a pior possível. Porque agente teve que tomar praticamente a última medida. A ocupação não foi algo tranquilo que se diz “ah, vamos ocupar, vai ser legal…”. Não é assim. A gente na verdade se vê encurralado. Se vê sem nenhuma outra opção. Você vê que ir para rua não estava adiantando porque a polícia desce o cacete. E aí tem as opções de fazer manifestação e abaixo-assinado. Tudo isso a gente fez… Mas realmente não resolveu. Para as pessoas que apoiaram a gente, quero dizer que não acabou por aqui e que a gente convoca todo mundo para a luta. Essa geração de agora continua esperançosa. E vamos lutar não só nessas coisas de reorganização, nem só pela educação, mas também pelo todo, pelo trabalhador, etc. Onde eu estiver envolvida e me sentir roubada, vou lutar. Para as pessoas do Governo, quero dizer que não era para eles me verem como um inimigo. Fico muito chateada porque eles eram os únicos que poderiam ajudar a gente no momento em que estávamos lutando, mas eles preferiram contra-atacar e derrubar a gente ao invés de atenderem nossas reivindicações. Fico triste com isso. Mas se é assim que eles nos veem, não vamos deixar de lutar. Se me atacar, eu vou atacar (risos). E é bem isso. Não queria formar um exército ou fazer uma chacina. Não queria ter visto estudante apanhando ou sendo perseguida. Não queria chegar num lugar e ouvir um policial me dizendo que me conhece e iria me revistar. Nem queria ver meus professores passarem por isso ou que isso fosse uma guerra. Só que se a luta é a única forma de chegar a um objetivo, então vai ter luta. É isso.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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