Ofendidos, dois funcionários da Globo resolveram divulgar o vídeo de William Waack

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Diego Rocha e Robson Cordeiro acreditam que serão processados pela TV Globo e ressaltam que divulgaram as imagens porque ficaram revoltados com o comentário do âncora, que comandava o Jornal da Globo desde 2005 até ser afastado por conta do caso.

Por Rafael Bruza

O ex-âncora do Jornal da Globo, William Waack (esq.) o operador de VT Diego Rocha Pereira e o designer gráfico Robson Cordeiro
Ramos (dir.) / Fotos – Reprodução

O vídeo em que o ex-âncora do Jornal da Globo, William Waack, faz comentários de cunho racista antes de uma transmissão ao vivo de Washington, Estados Unidos, foi gravado pelo operador de VT, Diego Rocha Pereira, de 28 anos, e divulgado pelo designer gráfico Robson Cordeiro Ramos, de 29. Em entrevista ao jornalista João Guimarães, da rádio “Jovem Pan”, Diego contou que estava na sede da emissora em São Paulo, no dia 8 de novembro de 2016, quando recebeu as imagens.

Nelas, William Waack se prepara para entrevistar Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute, do Wilson Center, durante a cobertura das eleições norte-americanas, quando alguém na rua começa a disparar uma buzina, que é registrada pela gravação. Contrariado, o jornalista insulta a pessoa de “merda do cacete” e afirma que esta conduta: “é coisa de preto”.

Após a divulgação, feita esta semana, o vídeo viralizou nas redes sociais e teve ampla repercussão. A emissora afastou o jornalista na noite da última quarta-feira (9). Ele era âncora do jornal da Globo desde 2005. Em nota, o canal disse que o áudio da gravação é ruim, mas salientou que ”ao que tudo indica”  William Waack fez comentários “de cunho racista”. A emissora também declarou que é contra qualquer tipo de manifestação racial e informou que o veterano de 65 anos ficará longe de suas atividades até que a situação seja esclarecida.

“Tudo aconteceu enquanto a produção estava colocando o microfone nele”, explica Diego. “Eu ainda voltei as imagens para ter certeza, não estava acreditando que ele teria falado aquilo. Fiquei tão revoltado que filmei com meu celular”.

Diego também relata que mostrou as imagens aos seus supervisores na época, sem que providências fossem tomadas.

“Percebi que não tomaram providência nenhuma. Acho uma injustiça, ele, como formador de opinião, emitir uma ofensa racial sem qualquer tipo de justificativa. Esse tipo de pessoa não pode ter esse tipo de pensamento”, afirmou Diego.

A divulgação do vídeo foi feita pelo designer gráfico Robson Cordeiro Ramos.

Diego conta que eles demoraram um ano em divulgar as imagens porque haviam perdido a gravação e quase desistiram de tornar o caso público. Mas há uma semana, Robson encontrou o vídeo guardado em seus arquivos e decidiu torná-lo público.

“O vídeo original ficou em um celular que perdi durante o Carnaval. Mas o Robson tinha ele em um backup, quando foi atualizar o telefone recentemente, o vídeo apareceu”, relata o operador de VT.

A primeira divulgação foi feita em um grupo de Whatsapp, onde se encontram membros do movimento negro – tanto Robson quanto Diego são produtores de uma festa de música negra na cidade de São Paulo.

A dupla faz questão de reforçar que, ao contrário do que afirmam comentários sobre o episódio, o objetivo da divulgação do vídeo não é atrair fama e dinheiro.

“Eu me revolto porque ele (Waack) trabalha com milhões de negros dentro da Globo. Ele é o âncora, ele traz a informação, mas em volta dele tem um monte de negros trabalhando. Fico imaginando como ele é fora da câmera”, completou.

Eles acreditam que a Rede Globo moverá um processo judicial contra eles.

“Sabemos que a Globo vai nos processar”, afirmam. “Ele (Waack) cometeu um crime, eu não. Me senti ofendido. Estava trabalhando. Desnecessário ofender por nada”, explicou Diego.

Segundo os profissionais, as imagens chegaram a ser oferecidas a outros veículos de imprensa, mas não houve interesse.

“Chegamos a ouvir, ‘se não é do William Bonner’, não interessa”, contou Ramos.

Ainda na entrevista concedida à Jovem Pan, Diego explicou que os operadores de VT têm acesso a praticamente todas as imagens feitas durante a preparação do jornal, ainda que não tenham sido gravadas em estúdio, e lamentou a naturalidade com que o âncora do Jornal da Globo fez o comentário racista.

“Ele não foi repreendido depois. Ali estava cheio de gente, tinha coordenador, diretor de imagem, o próprio entrevistado poderia ter reclamado da ‘piadinha”, afirma Diego.

Eles também sustentam que atitudes racistas como a do apresentador precisam ser combatidas no cotidiano e entendem que a punição a Waack pode ter uma repercussão positiva na sociedade.

“As pessoas vão pensar: ‘olha o que aconteceu com ele, se eu tiver a mesma atitude, acontecerá comigo também’”, argumentou Ramos.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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