Operação do Bope no complexo da Maré teve resultado ‘catastrófico’, segundo ONG

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Segundo a ONG Redes da Maré, a Polícia não comunicou mortes e não fez perícia no momento dos crimes; em protesto, moradores levaram corpos em um carrinho até a Avenida Brasil.

Por Rafael Bruza

A ONG Redes da Maré divulgou notícia em seu site nesta terça-feira (06), em que classifica como “catastróficos” os resultados da operação do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) no Complexo de Favelas da Maré, zona norte do Rio de Janeiro.

A ação começou durante a madrugada desta terça-feira (6), por volta de 1h, e seguiu até pelo menos às 15h.

Cinco pessoas morreram e outras oito ficaram feridas. A PM não informou as circunstâncias e origem dos disparos que provocaram as mortes. Não há evidências ou declarações oficiais que apontem envolvimento das vítimas com ações criminosas.

Segundo a ONG Redes da Maré,  moradores encontraram o professor de Física, Willian Figueira de Oliveira, por volta das 8h, baleado, ferido e amarrado na Rua Teixeira Ribeiro, na Nova Holanda, principal acesso à favela e centro comercial da comunidade.

A ONG enviou uma equipe ao local. Identificou o óbito e acionou de o Ministério Público e a Defensoria Pública Estadual.

O professor de 36 anos morava na Maré há 11 meses e trouxe sua esposa do Nordeste na última semana. A Redes da Maré aponta que a morte do professor ocorreu por volta das 5h, sem ser comunicado pela Polícia.

“Embora o ‘Caveirão’ (blindado do Bope) tivesse passado duas vezes pelo local, nenhum comunicado havia sido feito para que a Delegacia de Homicídios enviasse a perícia ao local”, afirma a ONG.

Entre as demais vítimas, estão uma moradora conhecida apenas como Zezé, que também foi baleada na Nova Holanda, e Thiago Ramos Pereira, que chegou morto ao Hospital Federal de Bonsucesso com um tiro na cabeça.

Moradores apontam que a Polícia Civil não entrou na favela para realizar a perícia e remoção dos corpos. Como forma de protesto, levaram o corpo de William e de Zezé num carrinho até a Avenida Brasil.

“A ação (de levar os corpos num carrinho) foi consequência do descrédito sobre a possibilidade da Polícia Civil entrar na favela para realizar a perícia e remoção dos corpos. O não informe das mortes por parte da Polícia Militar do Rio de Janeiro também fere a Ação Civil Pública e a Constituição, que estabelecem a necessidade da comunicação imediata de um óbito à Delegacia de Homicídios. A Polícia Civil só foi informada dos homicídios às 10h pela Redes da Maré.”, relata a ONG.

Outras vítimas

A quarta vítima fatal é Marcos Paulo Fernandes Mota e a quinta pessoa não foi identificada.

O funkeiro MC Rodson está entre os feridos, após ser baleado no pulmão. Ele passou por cirurgia no hospital Evandro Freire, na zona norte e se encontra em estado considerado estável.

Morador da região e com um quantia considerável de fãs — são 592 mil no Facebook e 72 mil no Instagram — , MC Rodson estava passeando com a cachorra na rua de sua casa quando foi atingido, segundo posts em suas redes sociais.

A polícia, por outro lado, aponta que os feridos da operação são ligados ao tráfico de drogas e nega arbitrariedades na operação.

Versão policial

Segundo o porta-voz da Polícia Militar do Rio de Janeiro, major Ivan Blaz, a ação na Maré foi emergencial e ocorreu devido a informações de uma concentração de traficantes de várias comunidades na região.

“Bandidos da Maré e inclusive de outras comunidades estavam em reunião na comunidade e isso motivou a ação”, afirmou, sem explicar o objetivo da mobilização dos traficantes.

A Polícia Militar também informou que a operação apreendeu cerca 800 quilos de maconha em tabletes, um fuzil automático, uma pistola automática, uma granada, além de nove veículos, sendo três carros e seis motocicletas.

Duas pessoas foram presas. Entre eles, Alex Sandro Alexandre dos Santos, vulgo Ratinho, que é responsável por roubo de cargas na comunidade e possui 8 anotações criminais, e já foi condenado pela Justiça a 7 anos de prisão em regime fechado.

Além do Bope, participam da ação o BPChq (Batalhão de Polícia de Choque) e o BAC (Batalhão de Ações com Cães). Os grupos atuam nas comunidades do Parque União e Nova Holanda. De acordo com a polícia, o 22º BPM (Maré) montou um cerco na zona. O objetivo da ação, segundo a PM, “é restabelecer a rotina dos moradores e prender os criminosos envolvidos na disputa do tráfico de drogas local”.

Todas as escolas públicas e postos de saúde das comunidades Parque União, Nova Holanda, Rubens Vaz e Parque Maré ficaram fechadas durante todo o dia. Milhares de pessoas ficaram sem aula e sem atendimento médico.

“Truculência” policial

A Redes da Maré ainda aponta que a PM se absteve de “contabilizar mortes, escolas sem aulas, postos de saúde sem atendimento”, além dos “prejuízos ao comércio fechado”, e cometeu “outras violações de direitos”, como a revista, sem mandado, a casas de moradores.

“Apesar da declaração do major Ivan Blaz sob a legalidade da operação, a mesma desrespeita os pontos estabelecidos na Ação Civil Pública (ACP), firmada em julho de 2017”, diz a ONG. “A ACP tem por objetivo reduzir danos causados pelas operações à população local e estabelece algumas regras a serem seguidas como o fato de não poderem ser realizadas juntamente com a execução de mandados de busca e apreensão”.

A ONG ainda se queixa da falta de câmeras em viaturas e ambulâncias.

“Embora a ação tenha sido caracterizada como de urgência e emergência, pela ACP ela não poderia realizar invasões a domicílio de madrugada e uma série de outras violações de direitos. Outro ponto assegurado na ACP é que as viaturas policiais têm de estar equipadas de câmeras de vídeo e áudio, além de GPS; e ambulâncias devem estar nas imediações para socorrerem possíveis vítimas. Todas essas cláusulas foram descumpridas. ACP, intermediada pela Defensoria Pública do Estado, é um documento legal firmado entre representantes da Maré e o Comando das Polícias Civil e Militar.”, afirma a Redes da Maré.

Moradores entraram em pânico durante a operação e relatam diversos confrontos com a presença de blindados do Bope.

“A polícia sempre chega no clarear da manhã. Essa é a primeira vez que vejo a polícia chegando assim à noite. Até achei que fosse briga de facção. Ninguém dormiu”, comentou a moradora Isabel Ignácio (52).​

Dados

O estado do Rio de Janeiro registrou aumento de 72% no número de homicídios decorrentes de intervenção policial entre os meses de julho e setembro na comparação com o mesmo intervalo do ano passado, de acordo com relatório divulgado pelo ISP (Instituto de Segurança Pública), órgão vinculado à Secretaria de Segurança.

No período, sob vigência do decreto de intervenção federal na segurança pública do Rio, foram contabilizadas 412 mortes pela polícia contra 239 no mesmo trimestre de 2017 – os dados, revelados em outubro, são os mais recentes divulgados.

Nas redes sociais, moradores comentaram que o confronto foi tão intenso durante a madrugada que era possível ouvir os tiros em bairros vizinhos. “A Guerra do Iraque se mudou pra Ramos [bairro da zona norte próximo à Maré]? Daqui da estação [de trem]dá pra ouvir”, disse um morador. “Consigo ouvir da estação [de trem]de Bonsucesso”, comentou outro.

“Estou ouvindo barulho de várias sirenes na Avenida Brasil”, disse uma moradora ainda durante a madrugada. “Ninguém merece tanto terror”, lamentou outra pessoa.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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