Os efeitos das caravanas de Lula

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Por André Henrique

Caravanas simbolizam força de Lula, o ex-presidente lidera as pesquisas para presidência da República.

As caravanas ratificaram a força política do ex-presidente Lula no Nordeste e o fortaleceram em Minas Gerais, estado com um vácuo de poder, por uma nova hegemonia, depois da derrota dos tucanos para o PT nas eleições de 2014 e do enfraquecimento de Aécio Neves no caso JBS.

Não adianta adversários afirmarem que apenas militantes do PT e de movimentos sociais aderiram às caravanas. Isso é irrelevante. Não se mede a força de Lula pelo número de pessoas em seus atos, mas pelas pesquisas de opinião. Os institutos o apontam em primeiro lugar para presidente da República e com a preferência de 60% do eleitorado nordestino.

Com exceção do PSDB e do DEM, quem no Nordeste não gostaria de subir no palanque com o petista? Tal capital político será essencial para construir palanques estaduais. Saiu na imprensa que o PT abriu negociações com partidos de centro, à esquerda e à direita, e que Lula estaria acertado com o PMDB, nas Alagoas, Ceará e Minas Gerais.

Lula sofre a resistência de setores da esquerda contrários a alianças com partidos que apoiaram o golpe parlamentar desferido contra Dilma. Entretanto, estes são os partidos e políticos reais, ignorá-los por intransigência ideológica é assinar a sentença de morte política como fez Dilma ao perder a sustentação congressual. O PT foi mal nas eleições municipais porque estava isolado. Em suma, como as esquerdas não têm hegemonia no Congresso e na sociedade, tais alianças são necessárias. Se Lula e o PT não as fizerem, o PSDB e o DEM as farão. Simples assim.

A falta de um nome consensual na direita liberal favorece as negociações petistas.  Nem depois de o governador Geraldo Alckmin derrotar João Dória como postulante do PSDB, o campo liberal sossega. Toda semana um candidato diferente. Ora Henrique Meirelles, PSD. Ora Luciano Huck, DEM.

Este escriba acredita que o governador de SP será o candidato da centro-direita, e terá Lula como seu principal concorrente para atrair aliados.

E se o ex-presidente for condenado no TRF-4?

De acordo com pesquisa Data-Poder360, em cenário sem o petista, Ciro Gomes sai de 5% para 14%, e alcança o segundo lugar, atrás de Jair Bolsonaro, com 23%. Mesmo com a eleição distante, os números mostram um potencial brutal de transferência de votos de Lula para um candidato do mesmo espectro ideológico, prova de que o petista pode ser forte também como cabo eleitoral.

Parece que o fiasco da agenda neoliberal do governo PMDB-PSDB pesa mais para a maioria dos brasileiros que a sentença de Sérgio Moro e os depoimentos de Palocci. O sucesso progressista nas pesquisas é resultado das perspectivas econômicas negativas que o reformismo neoliberal do governo Temer provoca.

Dificilmente Lula vencerá a batalha jurídica, mas está a vencer a Lava-Jato do aspecto político. As caravanas simbolizam isso. Está claro que o petista tentará nos próximos meses reconquistar o empresariado e redesenhar um pacto social pela estabilidade econômica e política do país.

Trata-se de algo factível, tendo em vista a fragmentação da direita liberal e a sua incapacidade de pacificar o país com uma agenda econômica derrotada em quatro eleições presidenciais e rejeitada por mais de 90% dos brasileiros que fazem de Michel Temer o presidente mais impopular do mundo.

Eis a razão do desespero liberal por um outsider. Seria uma forma de camuflar o programa neoliberal com um personagem apolítico. Luciano Huck é a bola da vez, mas não empolgou nas primeiras pesquisas, e teria de superar Geraldo Alckmin. Perguntem a João Dória se é fácil derrotar uma raposa velha que governa o estado mais rico da nação.

Desde a entrevista para o programa a “Sala do Zé”, Lula, que não nasceu ontem, já trata Geraldo Alckmin como seu adversário. Ciro Gomes tem feito o mesmo não é de hoje. Os campos centristas ganham algum ordenamento. Lula, com suas caravanas, à esquerda, sai na frente. Se não é fácil derrotar uma raposa velha, imagine atingir a cabeça da jararaca.

Restou à direita o tapetão. Seria fraco um presidente de direita eleito em um pleito sem um Lula condenado sem provas e com 30% da preferência do eleitorado, no mínimo. O país continuaria tenso e hostil para os negócios. Ruim para os empresários. Com as caravanas, Lula está a mandar um recado para as elites: “e aí, vão tomar juízo, ou não?”

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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