Páginas sem rigor jornalístico promoveram o debate sobre a exposição do Santander

0

“Fora Foro de São Paulo”, “Terça Livre” e a página do humorista Jonathan Nemer obtiveram o maior número de visualizações nesse debate, que foi feito e impulsionado principalmente através de vídeos nas redes sociais. Confira análise sobre o caso.

Por Rafael Bruza

A exposição Queermuseu, que foi suspensa em Porto Alegre / Foto – Divulgação

Uma análise do Monitor do debate político no meio digital – feita no campus leste da Universidade de São Paulo (USP) e publicada na segunda-feira (11) – mostra as páginas de Facebook que impulsionaram a polêmica sobre a exposição Queermuseu, que foi cancelada em Porto Alegre (RS) após pressão feita contra seu realizador, o Santander Cultural. O banco foi acusado de promover a pedofilia e a zoofilia por conta de algumas obras, enquanto críticos foram acusados de promoverem censura aos artistas.

O debate sobre o tema ocorreu principalmente através de vídeos (confira abaixo a lista completa).

Os três vídeos mais visualizados até a segunda-feira (11) foram feitos por:

1- Página Fora Foro de São Paulo – Vídeo (retirado do ar) chamado: “Banco Santander apóia ‘artes’ para ofender e destruir o cristianismo). Teve 777 mil visualizações até a publicação da análise.

2- Terça Livre – Vídeo chamado “Pedofilia, zoofilia, pornografia e profanação sendo promovidos pelo Ministério da Cultura aos olhos de crianças!

Teve 673 mil visualizações até a publicação da análise.

3- Jonathan Nemer – Vídeo chamado: “Tem uma exposição “artistica” acontecendo no SANTANDER CULTURAL em Porto Alegre/RS. Essa exposição tem obras que fazem apologia a PEDOFILIA, ZOOFILIA, IDEOLOGIA DE GÊNERO, ALÉM DE OFENSAS A SIMBOLOS RELIGIOSOS”.

Teve 311 mil visualizações até a publicação da análise.

Na sequência, os vídeos que obtiveram mais visualizações foram publicados pelas páginas: “Pau de Arara opressor” (vídeo com 148 mil visualizações), Bibo Nunes (vídeo com 122 mil visualizações), Capitão Augusto (vídeo com 114 mil visualizações), Magno Malta (vídeo com 81 mil visualizações), Carta Capitalista (vídeo com 75 mil visualizações), MBL (vídeo com 70 mil visualizações).

Confira a análise completa das páginas que mais obtiveram visualizações sobre o caso do Queermuseu.

Análise – Páginas sem rigor jornalístico promoveram a polêmica sem contextualizar o caso.

Com todo respeito, as duas primeiras páginas que obtiveram os maiores índices de audiência costumam usar discursos emocionais, alarmantes e moralistas, alinhados ao conservadorismo político (o que não é um problema em si), mas não com a ética jornalística (isso sim é um problema).

A última página – de Jonathan Nemer – pertence à um humorista gospel, que também carece de filtros jornalísticos apropriados à opinião pública.

Sobre as demais páginas: mais do mesmo. Nenhuma delas seguiu os critérios de comunicação seguidos na profissão jornalística, o que confunde a opinião pública de diferentes formas.

Quando falo em “falta de filtros” e de “rigor jornalístico”, refiro-me às ações profissionais seguidas no trabalho jornalístico. Apuração dos fatos, contato com o outro lado da notícia e objetividade na transmissão de informação são algumas dessas práticas exigidas a jornalistas profissionais.

Nenhuma das páginas que tiveram mais visualizações nesse debate seguiram os passos acima, que são ensinados a todo estudante de jornalismo.

Ou seja: o debate sobre a exposição Queermuseu foi feito por páginas alarmistas que obtiveram incríveis índices de audiência através de discursos emocionais, que olhavam apenas um lado da história – a que interessava a eles politicamente – e que concedia maior audiência às suas polêmicas.

Os quadros da exposição Queermuseu foram completamente tirados de contexto pelos críticos e acusados de serem criminosos sob um determinado ponto de vista – o dos críticos.

Mas as acusações de “apologia” à pedofilia se basearam em apenas 3 das 264 obras da mostra, como mostra esse artigo do Buzzfeed. E estas acusações ainda foram descartadas por um promotor da Infância de Porto Alegre, chamado Julio Almeida, que esteve na exposição e declarou ao G1 (Grupo Globo): “não há pedofilia”.

Traduzindo: onde as páginas denunciantes viram algo escandaloso e criminoso, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, que trabalha com casos desse tipo – não viu absolutamente nada.

Se os responsáveis pelas acusações falassem com os autores e com o curador da exposição, seguindo as orientações jornalísticas que seguimos na profissão, poderiam compreender os objetivos e expressões procuradas em cada uma das obras.

Mas preferiram fazer polêmica nesse tipo de caso, que, infelizmente, garante muito mais audiência.

Ponto para as páginas. Mas quem perde é a opinião pública.

Então o caso da exposição Queermuseu mostra como páginas sem rigor jornalístico promovem polêmicas que confundem a opinião pública ao impor visões de mundo nem sempre alinhadas com a realidade dos fatos.

Fique atento com essas “denúncias escandalosas” e “bombásticas” de páginas sedentas por audiência na Internet.

Essas denúncias, no geral, provém diretamente de interpretações muito específicas da realidade, que são transmitidas com muita eficácia graças à discursos focados em persuasão em massa, mas não seguem orientações e condutas apropriadas à esse tipo de comunicação e denúncia.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook