Perito questiona laudo do IML sobre morte de João Victor no Habib’s

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Perito e médico contratados pela defesa consideram o laudo falho e indicam que as conclusões possuem três pontos questionáveis .

Informação – Por Rafael Bruza * com informações da Ponte Jornalismo e UOL

O estabelecimento Habib’s em que o João Victor morreu e foto do menino ao lado / Foto – Reprodução

Na última sexta-feira (10), o perito particular Eduardo Llanos e o médico Levi Miranda questionaram o laudo do Instituto Médico Legal (IML) sobre o falecimento do menino João Victor Carvalho, de 13 anos, que morreu diante de um Habib’s no final de fevereiro, após suposta agressão e perseguição de funcionários do estabelecimento.

O perito chileno, especialista em Ciências Policiais, afirma que havia restos de alimento nos brônquios de João Victor. Isto pode indicar que o menino se desesperou ao tentar fugir dos seguranças e sofreu asfixia por alimento, que causou a parada cardíaca.

“Tem uma parte no laudo que diz que foram encontrados restos de comida nas vias aéreas. Isto significa que ele teve um refluxo. Possivelmente se afogou [asfixiou]e acabou morrendo com a parada cardíaca”, afirmou Llanos. “Se faz um faz um esforço muito grande [para se desvencilhar das agressões]e se tem um refluxo [alimento volta às vias aéreas e provoca asfixia]”, disse

A presença de restos de alimentos consta no laudo do IML, mas foi descartada como causa da morte. A equipe particular que foi contratada pela defesa considera que o laudo do IML é falho e deixa pontos questionáveis sobre a morte do garoto.

O documento divulgado na semana passada indica que o menino morreu de infarto cardíaco após ingestão de lança-perfume e cocaína, tendo em vista que a perícia encontrou substâncias presentes nestas drogas no corpo do garoto. Testemunhas disseram que o menino havia levado um soco, mas o laudo não apontava sinais de trauma na cabeça de João Victor.

O perito e o médico que questionam o laudo do IML foram contratados pelo escritório FC Advogados, que diz atender a família de João Victor de forma voluntária. Os questionamentos foram feitos durante coletiva de imprensa na sexta (10).

Os advogados que defendem a família também afirmam que a velocidade em que o laudo do IML foi feito coloca em dúvida a informação de que havia 38 ng/ml de cocaína no sangue do menino. Segundo a defesa, o exame que pode determinar essas quantidades leva de 25 a 35 dias para ser concluído, enquanto o laudo foi feito no dia 27 de fevereiro, um dia após a morte do garoto.

“O IML demorou para apresentar o laudo, mas ele foi feito no dia 27. Eles soltaram a prévia do laudo e fizeram o laudo final no mesmo dia. Essa informação da cocaína é falsa”, afirma a assessoria de imprensa do escritório de advogados.

O terceiro questionamento da defesa de João Victor está relacionado com a presença das substâncias tricoloetileno e cloroformil no sangue de João Victor.

O IML concluiu que estas substâncias sinalizam que o garoto usou lança-perfume. Mas os peritos particulares e os advogados da família de João Victor sustentam que essas substâncias são usadas para fabricar muitas coisas, dentre elas colas, removedores de tintas e tintas propriamente ditas — e não apenas lança-perfume.

“O perito não pode induzir o pensamento, escrevendo que acha que se trata de lança-perfume. Essas substâncias estão presentes em colas de sapateiro, e crianças de rua cheiram cola pra amenizar a fome”, diz a defesa de João Victor. “A substância que o perito da polícia alega ser componente da cocaína é usada em medicamentos anestésicos também, ou seja, mesmo que os exames tivessem sido feitos (coisa que não foram, do contrário os resultados só sairiam depois do dia 25/3), nada evidencia o uso de cocaína e lança-perfume”, completa.

Versão do IML

A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável pelo caso, informou por meio de nota que o IML levou em consideração todos os elementos, inclusive a presença de alimento nas vias respiratórias do garoto.

“Cabe esclarecer que o IML levou em consideração todos os elementos, inclusive a presença de alimento nas vias respiratórias do garoto, no momento de elaborar a conclusão. As amostras foram analisadas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas sequencial e por cromatografia gasosa com detector de chama. Esses exames identificam a presença e a dosagem de substâncias lícitas ou ilícitas no sangue”, afirma a nota.

Segundo a secretaria, “as amostras foram realizadas em duplicata, seguindo os padrões científicos internacionais para esse tipo de exame, por peritos altamente qualificados”. O órgão explica que as amostras guardadas poderão ser solicitadas pela Justiça para eventual contraprova e que os peritos do IML só estão autorizados a discutir os resultados se questionados pelos órgãos oficiais citados.

A Secrataria de Segurança Pública também se defendeu do questionamento sobre a velocidade em que o laudo foi feito.

“O IML concluiu o laudo dentro do prazo estipulado no Código de Processo Penal, que é de até 10 dias. Cabe ressaltar que o IML conta com o melhor laboratório de toxicologia do Brasil, que analisou todas as substâncias encontradas no corpo da vítima. Outros exames, como tomografias, também não encontraram sinais de que a morte tenha sido causada por agressão”, diz a nota.

Exumação

A defesa de João Victor afirma que esperará os próximos passos da investigação e a conclusão do inquérito para então pedir exumação do corpo.

Assim que for para a Justiça, entraremos com o pedido oficial de exumação do corpo”, afirmou o advogado da família do garoto, Francisco Carlos da Silva.

A Polícia Civil investiga a conduta dos funcionários do restaurante, que são suspeitos de agredir João Vitor. Até o momento, duas testemunhas foram ouvidas pela polícia e disseram que o menino de 13 anos foi agredido e arrastado por dois funcionários do Habib’s antes de falecer.

O menino chegou a ser resgatado, mas faleceu no caminho ao hospital.

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