Policiais do ES relatam pressão de familiares e julgamento da sociedade durante paralização

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Em entrevista ao El País, policiais fizeram relatos sobre a pressão em cima dos policiais e a situação interna da Polícia Militar do Espírito Santo.

Informação – Por Rafael Bruza * com conteúdo do El País e da Agência Brasil

Mulheres e familiares de policiais acampam na porta dos batalhões da Polícia Militar / Foto – Reprodução (Agência Brasil)

“Nunca sofri tanta pressão na minha vida”, desabafa ao jornal El País Brasil o soldado B., integrante de um dos principais batalhões da Polícia Militar em Vila Velha, no Espírito Santo. O jornal digital relata que desde que um grupo de mulheres começou a bloquear a saída de batalhões e quartéis no estado, policiais se veem tomados pela angústia e desespero.

“Os comandantes pressionam para a gente sair o tempo todo dizendo que seremos punidos. As mulheres falam para a gente ficar e fortalecer o movimento que luta pela categoria. Minha mãe me liga cinco vezes ao dia para saber se estou vivo e, para completar, a sociedade me hostiliza”, conta o policial não identificado à reportagem do jornal.

Para acabar com as paralizações, o Comando Geral da PM do Espírito Santo começou a convocar policiais em diferentes lugares. Os policiais relatam que o modelo da corporação pretende impor medo nos policiais.

“Temos que estar pendentes disso o tempo todo. Mudam toda hora e corremos o risco de levar falta e sermos punidos se não nos apresentarmos na hora correta. Estão fazendo de propósito. Esse medo de ser indiciado é constante”, conta outro policial militar ao jornal.

Também há relatos que falam em “surtos de estresse” nos últimos dias. “Um deles ficou tão louco que começou a destruir uma viatura”, contam os policiais ao El País.

O soldado B visitou um companheiro no Hospital da Polícia Militar (HPM) neste domingo (12).

“Ele estava bem desequilibrado emocionalmente. Mas o que me surpreendeu foi chegar lá e ver uns 20 amigos da corporação, o hospital estava muito cheio”, conta.

O soldado também informa que a retirada de policiais feita por helicóptero deixou os agentes ainda mais confusos sobre o que fazer. Alguns policiais saíram aos prantos, segundo relatos.

A pressão e desorientação ocorre pela pressão imposta aos policiais.

O fim da paralização não acabou com os protestos de familiares dos policiais, que continuam nas portas dos batalhões. Mas como policiais militares não podem entrar em greve por questões constitucionais, o movimento foi considerado ilegal pela Justiça e a Polícia Militar do Espírito Santo já indiciou 703 agentes pelo crime de revolta, com penas de 8 a 20 anos de detenção em presídio militar.

Estes tiveram o ponto cortado desde sábado (04) e não vão receber salário.

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Nylton Rodrigues, afirmou que o número de indiciamentos “com certeza” irá aumentar muito e que a maioria dos responsáveis pela paralização tem pouco tempo de serviço na corporação.

A PM também informou que publicará nesta terça (14) a instauração dos Inquéritos Policiais Militares (IPM’s) e o processo de demissão de 161 agentes envolvidos na paralização.

Em paralelo, o secretário de Segurança Pública do Governo PMDB/PSDB no Estado, André Garcia, afirmou que o Governo está identificando as esposas dos policiais responsáveis pela paralização para responsabilizá-las civilmente na Justiça.

Derrotado ao exigir reajuste salarial ao Governo, o movimento grevista atualmente se concentra em pedir anistia aos policiais que decidiram fazer a paralização. Mas o Governo Estadual não pretende atender esse pedido. A falta de policiamento durante 10 dias deixou mais de 140 mortos no Estado, mesmo com a chegada das Forças Armadas e da Força Nacional.

O maior medo do Governo Federal é que o movimento de paralização do Espírito Santo chegue a outros estados, como o Rio de Janeiro, onde esposas de policiais militares chegaram a fazer protestos na porta de batalhões, apesar do policiamento ter prosseguido com normalidade.

Então os governantes não pretendem negociar para evitar qualquer paralização futura.

Com isto, os policiais se veem pressionados por esposas e governo.

O psicólogo Pedro Luiz Ferro, que foi professor de um curso de formação da Polícia Militar, relatou ao jornal El País Brasil que episódios de surto e descontrole de agentes aumentaram com a crise de segurança pública dos últimos dias.

Um antigo aluno soldado escreveu a Ferro pedindo ajuda.

“Escreveu que estava pressionado, precisando de um psiquiatra. Ele começou com um discurso suicida e vale lembrar que ele tem uma arma na mão”, relata Ferro.

O psicólogo o encaminhou a uma consulta com psiquiatra. Mas Ferro também conta que as clínicas psiquiátricas estão cheios, em situação similar à do Hospital da Polícia Militar relatada pelo soldado B.

“Uma tristeza, vi muitos de farda chorando como crianças. A questão é que eles não possuem assistência psicológica e estão com as emoções à flor da pele. Hoje, o que existe são voluntários do Conselho de Psicologia e da Universidade Federal do Espírito Santo que tentam ajudar”, conta.

Os agentes de fato não possuem atendimentos psicológicos nos quartéis e batalhões, mas podem pedir assistência no Hospital da Polícia Militar.

O soldado B., entrevistado por El País, comentou o fim das paralizações.

“A grande maioria desses agentes que estão atendendo ao chamado do comando e indo para as ruas, mesmo a pé, são oficiais, são os chefões que não estão geralmente no patrulhamento. Até gente do administrativo eles colocaram para passear nas ruas. É um teatrinho”, explica.

Além disso, o soldado informa que este policiamento não ocorre na periferia, onde são feitos os “acertos de contas e a bandidagem”.

“É lá onde eu moro. Estou saindo à paisana com o colete por baixo da blusa, porque se um bandido me vê de farda, ele logo vai tentar me matar porque sabe que o policiamento está escasso”, diz. Na última quarta-feira (09), o soldado sofreu uma tentativa de assalto e foi cercado por quatro homens que estavam de moto, quando chegava em casa em Vila Velha. “Eles não viram que eu era policial, por sorte”, conta.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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