Por que Haddad disse que ‘golpe é uma palavra dura’ para qualificar o Impeachment

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Nada na política acontece sem razão. Alguns jornalistas de esquerda criticaram Haddad por enfraquecer o discurso do “golpe” na entrevista concedida ao Estadão, mas há outras realidades em torno da declaração do prefeito que precisam ser consideradas.

Opinião – Rafael Bruza

O prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, que afirmou que “golpe é uma palavra dura” para qualificar o Impeachment de Dilma / Foto – Reprodução
O prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, que afirmou que “golpe é uma palavra dura” para qualificar o Impeachment de Dilma / Foto – Reprodução

Haddad recebeu duras críticas de sites e blogs de esquerda por dizer em entrevista à TV Estadão publicada nesta quarta-feira (10) que “golpe é uma palavra dura” para qualificar o Impeachment porque “lembra a ditadura militar”, “armas e tanques na rua”.

Ele ressaltou que o Impeachment tem no máximo, “casuísmo” (medida de caráter artificioso, particularmente nos campos do direito, da moral e da política, fundados em casos concretos e não em regras gerais; segundo o dicionário Online de Português).

“Não me parece de bom tom o que vem acontecendo: um vice se insurgir contra a cabeça de chapa”, afirmou o prefeito.

As críticas dirigidas à Haddad, que tenta ser o primeiro petista a se reeleger prefeito da maior cidade da América Latina, afirmam que ele “fez o jogo da direita” durante a entrevista ao Estadão, conglomerado de mídia favorável à Temer e ao Impeachment.

Um texto de opinião do Diário Centro do Mundo, meio de comunicação que usa a palavra “golpe” em seu cotidiano e que se opõe ao Impeachment, indica que “os golpistas agradecem a declaração do prefeito”.

De fato, enfraquecer a ideia de que o Impeachment é um “golpe” favorece os políticos pró-Impeachment, que tentam (com enorme dificuldade) se livrar do rótulo de “golpistas” com que são taxados por cidadãos, políticos e jornalistas à esquerda.

Porém, e apesar das críticas ao prefeito terem razão, é preciso considerar que Haddad está fazendo campanha.

Precisa dialogar com eleitores paulistas de todas as faixas etárias, ideologias e classes sociais para conquistar votos. E o prefeito busca mudar sua imagem diante do eleitorado, sabendo que a crise do PT na política nacional desgastou (e muito) sua candidatura em São Paulo.

Então essa declaração de Haddad tenta amenizar a distância com setores mais ao centro e à direita buscando independência em relação ao PT nacional.

Muitos jovens que votaram em Aécio em 2014 e cujos pais são eleitores tradicionais dos tucanos cogitam com sinceridade o voto no prefeito nas eleições de outubro.

Russomano, Marco Feliciano, Doria e outros candidatos à direita (como a vira-casaca, Marta Suplicy) simplesmente não convencem esses jovens, que, apesar da pouca idade, têm força de opinião dentro de suas famílias.

Mas, na contramão à oposição a candidatos coxinhas, esses jovens têm simpatia pela Avenida Paulista aberta, pelas ciclovias, os grafites e outras medidas que sem dúvida rejuveneceram a cidade de São Paulo.

É com esse e outros eleitorados que Haddad tenta dialogar ao minimizar o rótulo de golpe do Impeachment, que nunca foi defendido com veemência pelo prefeito e que agora teve um ponto crucial de enfraquecimento em seu discurso.

Não pretendo discutir se o impedimento é ou não um golpe, mas devo dizer que ao fazer a polêmica declaração na entrevista ao Estadão, o prefeito contraria toda militância de seu partido, que vem construindo o discurso do golpe desde maio.

Então dentro da esquerda, cabem críticas a Haddad, sim.

Mas também cabe uma reflexão.

O PT perdeu grande parte do apoio da classe média paulista em 2015, quando fez duras críticas às primeiras manifestações pró-Impeachment.

Formadores de opinião à esquerda chamaram os manifestantes de lunáticos, fascistas, totalitários, mimados, “elite branca”, aecistas, entre muitos outros adjetivos que guardam grande significado político.

Independentemente da veracidade das críticas, é fato que o discurso provocativo e ridicularizante do PT e de cidadãos de esquerda em relação aos manifestantes da Paulista aumentou o nível de rancor e raiva dessas pessoas.

Depois dessa estratégia, as manifestações cresceram mais, mais e mais até chegarem a seu tamanho máximo em março de 2016, quando milhões de pessoas foram às ruas um dia depois da convenção em que o PMDB anunciou que iria estudar o rompimento com o Partido dos Trabalhadores.

A questão é: se os formadores de opinião pró-PT tivessem uma conduta mais serena, talvez (apenas talvez) o ódio à Dilma fosse menor do que era na época da votação na Câmara.

Essa hipótese é impossível de se confirmar, mas é fato que Haddad busca um discurso menos conectado com a estratégia nacional de seu partido, pois essa estratégia desgasta sua candidatura municipal, queiram cidadãos de esquerda ou não.

Então Haddad simplesmente pretende amenizar a ferrenha oposição que recebe de cidadãos da cidade de São Paulo por ser petista e por estar em um dos partidos que chama o Impeachment de “golpe”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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