Por que Rodrigo Janot escolheu um vice-procurador-geral ligado ao PSDB?

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Ela Wiecko renunciou ao cargo após aparecer em protestos contra Michel Temer, em seu lugar entrou o filho de um deputado tucano e ex-advogado-geral de FHC e Aécio Neves.

Por Rafael Bruza

O novo vice-procurador-geral da República, José Bonifácio Borges de Andrada, e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot / Foto - Reprodução
O novo vice-procurador-geral da República, José Bonifácio Borges de Andrada, e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot / Foto – Reprodução

Os fatos

A Procuradoria-Geral da República é a representação física e sede administrativa do Ministério Público Federal. O procurador-geral da República, que atualmente é Rodrigo Janot, chefia o Ministério Público Federal. Seu vice, portanto, é o segundo cargo mais importante do MPF. É sobre este cargo de vice que falaremos. Em junho de 2016, a antiga vice-procuradora da República, Ela Wieko, foi gravada em um protesto contra Michel Temer em Lisboa, onde fazia um curso como estudante.

A aparição gerou problemas para Wiecko no final de agosto de 2016, quando o Senado julgava o Impeachment de Dilma Rousseff e as imagens de Wiecko no protesto chegaram à imprensa.

Jornalistas como Reinaldo Azevedo exigiram imediatamente a saída da vice-procuradora da República, alegando que ela foi “descoberta” em um protesto contra o Governo.

Na época, Wieko concedeu uma entrevista à própria revista Veja para explicar por que apareceu no protesto.

“Eu estava de férias (em Portugal), em um curso como estudante. Não posso pensar nada? Não posso ter liberdade de manifestação? Isso é um pouco exagerado. Fui discreta, estava junto, e não tive protagonismo maior”, afirmou Wiecko à revista Veja.

Na entrevista, a então vice-procuradora-geral da República, também chamou o Impeachment de “golpe” e lançou acusações à Michel Temer.

“Eu acho que, do ponto de vista político, é um golpe, é um golpe bem-feito, dentro daquelas regras. Eu estou incomodada com essas coisas que estão acontecendo no Brasil. Acho que não foi da melhor forma possível. E pelas coisas que a gente sabe do Temer, não me agrada ter o Temer como presidente. Não me agrada mesmo. Ele não está sendo delatado? Eu sei que está. Eu não sei todas as coisas a respeito das delações, mas eu sei que tem delação contra ele”, afirmou Ela Wiecko à revista.

Dois dias depois, a vice-procuradora geral da República renunciou ao cargo. Janot aceitou a renúncia.

Seu marido, Manoel Lauro Volkmer de Castilho, que era assessor do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavaski, também pediu exoneração desse posto depois de assinar um manifesto contra o juiz federal Sérgio Moro.

A troca na Vice-Procuradoria-Geral

A nomeação do subprocurador-geral da República, José Bonifácio Borges de Andrada, para o cargo de vice-procurador-geral da República foi formalizada na sexta-feira (09), quando sua designação foi publicada no Diário Oficial da União (DCO).

O novo vice-procurador-geral da República é filho de um dos deputados do PSDB mais longevos da Câmara: Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), que é repetitivamente eleito pelo partido desde 1979.

Além disso, o filho do deputado tucano (e novo vice-procurador da República, como dito acima) foi advogado-geral da União (AGU) no último ano do Governo de Fernando Henrique Cardoso e advogado-geral do Estado de Minas Gerais (AGE) durante gestão de Aécio Neves, de 2003 até 2010.

Trata-se, portanto, de um cidadão que defendeu governos do PSDB como advogado em duas ocasiões e que é filho de um dos deputados tucanos mais antigos da Câmara dos Deputados.

A análise

A designação de José Bonifácio Borges de Andrada, no entanto, obedece a questões políticas que vão além da especulação de “proteger tucanos” de acusações dentro da Procuradoria-Geral da República.

Rodrigo Janot apostou no nome de Bonifácio por duas questões políticas.

Funcionários anônimos da Procuradoria-Geral da República disseram ao portal UOL (Grupo Folha), que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pretende “construir uma ponte” com o novo governo de Michel Temer.

A saída de Ela Wiecko com nomeação de um nome próximo ao PSDB (e ao Governo) é péssima para a independência do Ministério Público Federal, mas agrada o Governo e sua base aliada, por tratar-se de um nome próximo ao PSDB, que pertence à base aliada de Michel Temer.

Tanto é que a imprensa corporativa só fez uma simples notícia sobre esse caso na sexta-feira (09). Essa cobertura é suficiente para evitar acusações de omissão dirigidas à redações da Grande Mídia, mas é insuficiente para conscientizar as pessoas de quem realmente é José Bonifácio Borges de Andrada, o novo vice-procurador-geral da República.

A conscientização é negativa para quem defende a nomeação de Bonifácio. Então, para quem defende o Governo Temer e o PSDB, é  melhor não colocar holofotes sobre o novo vice-procurador-geral da República.

Além disso, José Bonifácio Borges de Andrada é próximo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que protagonizou uma recente crise com o Ministério Público Federal, após acusar procuradores de terem vazado informações à revista Veja, sobre as prévias da delação premiada de Léo Pinheiro em que aparecia o nome do também ministro do STF, Dias Toffoli, amigo de Mendes.

A designação de José Bonifácio Borges de Andrada deve minimizar a crise entre Mendes e Janot.

Então a designação do novo vice-procurador-geral da República foi feita para, (1), “construir uma ponte” entre Janot e o Governo de Michel Temer, e (2) para minimizar a crise entre o ministro do STF, Gilmar Mendes, e a Procuradoria-Geral da República. Simples assim.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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