A possível relação entre a febre amarela e o desastre de Mariana

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Biólogos e o Ministério da Saúde investigam possível relação entre o maior desastre socioambiental da história do Brasil e o maior surto de febre amarela já registrado pelo MS. Outros especialistas discordam desta possibilidade.

Por Rafael Bruza

Zona atingida pela “lama da Samarco” / Foto – Reprodução

Com mais de mil casos suspeitos, 101 óbitos e dezenas de casos ainda em investigação apenas no estado de Minas Gerais, o Brasil vive seu pior surto de febre amarela já registrado pelo Ministério da Saúde. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais, a maioria dos óbitos provém de cidades dos Vale do Rio Doce e do Mucuri. As primeiras foram diretamente atingidas pelo desastre de Mariana em 2015, quando uma barragem controlada pela Samarco Mineração S.A se rompeu, provocando o vazamento de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro que desceram o Rio Doce e chegaram até o litoral da Bahia. Diante desta situação, biólogos e o Ministério da Saúde começaram a avaliar possíveis relações entre o desastre e a doença.

A bióloga da Fiocruz Márcia Chame, acredita que o desequilíbrio gerado pelo desastre de Mariana contribui com o surto.

“Mudanças bruscas no ambiente provocam impacto na saúde dos animais, incluindo macacos. Com o estresse de desastres, com a falta de alimentos, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo a febre amarela. Isso pode ser um dos motivos que contribuíram para os casos. Não o único”, afirmou a bióloga ao Estadão em fevereiro.

Márcia também observa que essa região do Estado já apresentava um impacto ambiental importante, provocado pela mineração. “É um conjunto de coisas que vão se acumulando”, disse a bióloga.

O Ministério da Saúde também estuda a tese de que o surto de febre amarela pode ter relação com a tragédia de Mariana.

“Isso é uma tese que está sendo desenvolvida e que nós estamos aguardando eventual confirmação. Mas não há, da nossa parte, uma confirmação sobre essa questão. O Ministério acompanha o desenvolvimento dessa tese”, afirmou no final de janeiro, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, em entrevista à Rádio Estadão.

Teses contrárias

A Fundação Renova, ligada a Samarco, que é responsável pela tragédia, realizou um seminário em janeiro para rever o que se sabe sobre o tema.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é de que o desmatamento ao longo dos anos deixou as espécies de macacos em fragmentos muito pequenos de florestas, o que traz diversos desdobramentos. “Sistemas ecológicos empobrecidos podem favorecer o crescimento das populações de mosquitos. Mosquitos infectados encontrando populações grandes de macacos em pedaços de mata atlântica isolados podem ser a origem destes surtos”, alerta Sérgio Lucena.

Evidências científicas também dão a entender que florestas saudáveis, com elevada biodiversidade, dificultariam a proliferação dos vírus. Embora o surto não deixe de ocorrer, sua intensidade pode ser menor em um meio ambiente preservado. É o que explica Servio Ribeiro, biólogo e professor de ecologia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Segundo o pesquisador, a cada surto, a população de macacos se reduz bastante e vai se recuperando devagar nos anos seguintes. “Um novo surto provavelmente acontece naquele momento em que o vírus encontra na natureza macacos com quantidade, condições e características genéticas favoráveis. E quando há muitos animais infectados, é fácil que a doença chegue aos humanos”, explica.

Uma floresta onde há maior disponibilidade de frutos e sombras e onde não há poluição faz com que os macacos se desenvolvam mais saudáveis e sem estresses, com um sistema imunológico mais eficiente, oferecendo mais resistência à doença. Servio Ribeira destaca que a genética também influencia.

“No período quando o vírus é raro, as populações de macacos se reproduzem sem essa pressão seletiva. Significa que, por um intervalo de anos, ser ou não ser resistente ao vírus da febre amarela, não é um fator que muda o sucesso reprodutivo dos macacos. Acontece que vivendo em pequenos fragmentos de florestas, sem corredores interligando as matas, essas populações crescem com parentes cruzando entre si. Desta forma, os indivíduos são muito parecidos geneticamente. Quando um vírus alcança um macaco de uma população sem diversidade genética ele rapidamente se dissemina”, afirma o pesquisador.

Por outro lado, Servio Ribeiro considera remota a possibilidade de influência da tragédia de Mariana (MG) neste surto de febre amarela em Minas Gerais.

“A febre amarela é uma doença de interior de floresta. O mosquito que a transmite põe ovos em cavidades de árvores e em bromélias. É um mosquito da estrutura da floresta. Ele não se relaciona muito com grandes corpos d’água e com rios. As cidades afetados pela doença estão em uma região onde os rejeitos não chegaram com força para derrubar a floresta”, diz o biólogo.

Para Servio Ribeiro, a hipótese teria mais força caso o surto tivesse ocorrido próximo à Mariana (MG) onde o impacto da tragédia foi mais agressivo e levou ao desmatamento.

“No Vale do Rio Doce, esse rejeito se acumulou nas margens. Claro que há uma degradação. Mas esta degradação, pelos conhecimentos que temos, não deve estar afetando a relação entre os vetores e os macacos no interior da floresta”, acrescentou.

A febre amarela

Causada por um vírus da família Flaviviridae, a febre amarela é uma doença de surtos que atinge repentinamente grupos de macacos e humanos. Autoridades foram notificadas de mortes de macacos por razões ainda desconhecidas na região próxima da cidade capixaba de Colatina, localizada no Espírito Santo, na margem do Rio Doce, que foi atingido pelo desastre de Mariana. Há técnicos investigando estas mortes.

O comportamento repentino da doença é desconhecido. No final de janeiro, um grupo de especialistas de diferentes estados do Brasil se uniu para investigar a relação entre o surto da febre amarela e a degradação do meio ambiente.

Segundo Sérgio Lucena, primatólogo e professor de zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o surto de febre amarela é um fenômeno ecológico, ou seja, relacionado com os vínculos entre seres vivos e o meio ambiente.

A doença é transmitida em áreas rurais e silvestres pelo mosquito Haemagogus. Em área urbana, ela pode ser transmitida pelo Aedes aegypti, o mesmo da dengue, do vírus Zika e da febre chikungunya. No entanto, não há registros no Brasil de transmissão da febre amarela em meios urbanos desde 1942. No surto atual, nenhum dos casos confirmados e suspeitos em Minas Gerais são urbanos.

Sérgio Lucena explica que o vírus da febre amarela está estabelecido em algumas matas e regiões silvestres com baixa ocorrência. De repente, por algum motivo ainda a ser desvendado, ele se propaga rapidamente, atingindo macacos e humanos. Os animais começam a morrer primeiro. “São sentinelas. Se o vírus começa a se propagar em determinada área, a morte dos macacos nos enviará um alerta”, explica.

Para o primatólogo, o Brasil poderia ter um sistema bem articulado para se antecipar aos surtos, mas não há investimentos neste sentido. Se houvesse mais conhecimento, Minas Gerais poderia, por exemplo, ter dado início mais cedo à campanha de vacinação nos municípios da área de risco, reduzindo a disseminação da doença. A vacina é a principal medida de combate à febre amarela.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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