‘Preconceito é crime’, diz professora com down em resposta à desembargadora

0

“Eu ensino muitas coisas para as crianças”. “O que eu acho mais importante de tudo isso é ensinar a incluir as crianças e todo mundo pra acabar com o preconceito porque é crime”, conclui a professora na carta.

Por Rafael Bruza

A professora Débora Seabra de Moura e a carta de respost à desebargadora

A professora Débora Seabra de Moura, de 36 anos, fez uma carta de resposta dirigida à desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que a criticou em um grupo fechado de Facebook por ter síndrome de down. A magistrada ficou conhecida na opinião pública esta semana por divulgar informação falsa sobre o caso de Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada na última quarta-feira (14).

“Apuro os ouvidos e ouço a pérola: o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down!!! Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social… Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem?”, escreveu Marília.

Debora então respondeu a magistrada.

“Eu não quero bater boca com você (desembargadora). Só quero dizer que tenho síndrome de down e sou professora auxiliar de crianças em uma escola de natal. Trabalho à tarde todos os dias com minha equipe, que tem uma professora auxiliar”, diz o texto. “Eu ensino muitas coisas para as crianças. A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferenças de cada um e ajudem a quem precisa mais” (veja a carta na íntegra, abaixo).

“O que eu acho mais importante de tudo isso é ensinar a incluir as crianças e todo mundo pra acabar com o preconceito porque é crime”, conclui a professora na carta.

Débora Seabra trabalha há 13 anos como professora assistente em um colégio particular de Vitória (ES), a Escola Doméstica, e é autora do libro “Débora Conta Histórias” (Alfaguara, 2013).

Ela já recebeu convites para realizar palestras em várias partes do Brasil, Argentina e Portugal, segundo a Tribuna do Norte, e em 2015, recebeu o Prêmio Darcy Ribeiro de Educação, em Brasília.

A desembargadora e as fake News

A equipe da desembargadora não confirmou que a mensagem sobre a professora é real. O texto viralizou esta semana por conta de outra polêmica: a juíza divulgou informações falsas sobre Marielle Franco e foi criticada na opinião pública.

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) informou nesta segunda-feira (19) que vai investigar a desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro por conta do comentário.

Ela se defendeu dizendo que repasssou informação de uma amiga precipitadamente.

“No afã de defender as instituições policiais, ao meu ver injustamente atacadas, repassei de forma precipitada notícias que circulavam nas redes sociais. A conduta mais ponderada seria a de esperar o término das investigações, para então, ainda na condição de cidadã, opinar ou não sobre o tema”, escreveu Marília Castro Neves.

“Reitero minha confiança nas instituições policiais, esperando, como cidadã, que este bárbaro crime seja desvendado o mais rápido possível. Independentemente do que se conclua das investigações, a morte trágica de um ser humano é algo que se deve lamentar e seus algozes merecem o absoluto rigor da lei”.

Mais reações

A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down repudiou as declarações da desembargadora.

“A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down vem tornar público seu repúdio à demonstração de preconceito manifestado por uma autoridade pública, a desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em relação às pessoas com síndrome de Down”, diz a nota. Sabemos que os juízes também têm a liberdade de se expressar como cidadãos, mas a atividade que escolheram lhes impõe uma série de limitações, de natureza normativa, presentes no Código de Ética da Magistratura, dentre as quais o dever de manter a integridade de sua conduta e o de comportar-se em sua vida privada de modo a dignificar a função de magistrado”.

“A FBASD considera que mensagem carregada de preconceito, ofende, definitivamente, os ditames impostos aos juízes por seu Código de Ética. Textos dessa natureza claramente denigrem a magistratura e, assim, devem ser rigorosamente apurados pelos órgãos competentes, tais quais a Corregedoria do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e o Conselho Nacional de Justiça”, conclui.

 

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook