Prefeitura divulgou dados ‘descasados’ sobre número de desaparecidos no prédio que desabou

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Ocupação abrigava moradores de rua e imigrantes em condição ilegal; bombeiros trabalham com informação de pelo menos 4 desaparecidos, após descartar dado de 49 pessoas não encontradas.

Por Rafael Bruza

Três dias depois do incêndio e da queda do edifício Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, no centro de São Paulo, a Prefeitura controlada por Bruno Covas (PSDB) não sabe ao certo quantas pessoas desapareceram ou morreram na tragédia, que ocorreu na madrugada de terça-feira (01).

O edifício continha uma ocupação ilegal que abrigava cerca de 372 pessoas e era coordenada pelo Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM). Ao longo da semana, o Corpo de Bombeiros informou que havia 49 desaparecidos na tragédia – número obtido pelo cruzamento de dados de secretarias municipais vinculadas à Prefeitura.

Mas a conta utiliza informações recolhidas em março do ano passado e o resultado é considerado pela Prefeitura como um “descasamento” de dados, por conta da alta rotatividade de pessoas na ocupação ilegal.

“É possível que essas pessoas (desaparecidas) nem estivessem mais dormindo lá, assim como outras podem ter entrado no local desde o incêndio”, diz reportagem da Folha de S. Paulo.

Um morador de rua declarou ao Independente que o número de falecidos pode ser maior que o divulgado pelas autoridades, pois o local também abrigava indigentes e estrangeiros da América Latina, África e Haiti, que viviam em condição ilegal no Brasil e não apareciam nos cadastros da Prefeitura.

“Não é o que a mídia está mostrando, é muito mais. A maioria do pessoal que morava na ocupação era ex-moradores de rua ou moradores de rua e estrangeiros. O número vai crescer e eles nem vão saber de onde saiu tanta pessoa morta porque tinha muita gente ali que vivia ilegal no Brasil”, declarou um morador que passou o dia diante da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandú, onde moradores da ocupação também passam as noites desde a queda do edifício.

O prefeito Bruno Covas declarou no dia da tragédia que 25% dos 372 moradores da ocupação ilegal eram estrangeiros.

Segundo o prefeito, a região do Largo do Paissandu, onde aconteceu o incêndio, possui mais oito prédios ocupados. Ao todo, o município contabiliza uma centena de ocupações irregulares em toda a cidade.

“As famílias estão sendo encaminhadas para os abrigos da prefeitura”, disse Covas, que assumiu a prefeitura depois que João Doria se tornou candidato do PSDB para o Governo do Estado.

Descartado o dado anterior de desaparecidos, os bombeiros agora trabalham com a informação de pelo menos 4 cidadãos que foram procurados e não apareceram a familiares ou autoridades.

Além de um morador chamado Ricardo, que caiu no momento do desabamento, o vendedor Antônio Ribeiro Francisco, de 42 anos, disse que busca informações sobre a ex-mulher dele, Selma Almeida da Silva, e os dois gêmeos filhos dela, que moravam no prédio.

Agora, mais pessoas aparecem buscando parentes, segundo o G1 (Grupo Globo). As irmãs Edivânia da Silveira e Vaneide buscam estão agoniadas buscando informações sobre a mãe, Eva Barbosa da Silva. Eva e o marido, Walmir Souza, moravam no prédio e não foram vistos desde o desabamento.

Nenhum corpo foi encontrado até o momento e não há informações do Governo sobre números estimados de mortos na tragédia.

De acordo com a prefeitura, 320 pessoas foram cadastradas como desabrigadas após o desabamento e 40 delas buscaram atendimento na assistência social.

Na tarde desta quinta-feira (03), o Corpo de Bombeiros terminou de resfriar os escombros do edifício incendiado e começou a retirar os restos que sobraram no local com duas escavadeiras e um trator.

Trator retira escombros no Largo do Paissandu / Foto (Rafael Bruza/Independente)

O secretário de Segurança Pública, Mágino Alves, afirmou na tarde desta quinta-feira (3) que um curto-circuito foi a causa do incêndio que levou ao desabamento do edifício.

“Acabo de receber a informação de que sabemos onde começou o incêndio. Foi no quinto andar do prédio, em um cômodo onde moravam quatro pessoas. O incêndio começou em decorrência de curto-circuito, em uma tomada com TV, micro-ondas e geladeira. Não foi briga de casal. O que aconteceu foi fatalidade”, disse o secretário.

Cidadãos nas ruas

Dezenas de moradores da ocupação instalada no edifício em que ocorreu a tragédia se encontram diante da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandú, centro de São Paulo, desde o ocorrido.

O secretário da Habitação, Fernando Chucre, acredita que muitas destas famílias deixarão a praça quando confirmarem o recebimento do auxílio-aluguel.

Em paralelo, o secretário de Assistência Social, Filipe Sabará, informa que estão sendo oferecidas vagas em abrigos da prefeitura a todos os desabrigados que se encontram acampados na praça. De acordo com Sabará, 44 pessoas já aceitaram o acolhimento, mas muitos recusam a oferta argumentando que os locais sugeridos não permitem entrada de famílias completas e são inseguros.

“Muitas pessoas no albergue faziam coisa errada onde moravam e vão lá para se refugiar. Não é a situação de todos, mas a maioria deles faz essas coisas”, diz um morador de rua no Largo do Paissandu. “Você guarda uma coisa, a pessoas vem e te rouba. Você já não tem nada, aí leva o que você não tem e fica sem nada”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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