“Preparamos uma ambiciosa lei de mudança climática”, diz deputado espanhol

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O deputado do Unidos Podemos, Juantxo López, fala sobre o momento político da Espanha e argumenta que a superação de crises depende de mudanças estruturais.  

Por Adrián Argudo – para ver la versión en español “pinche aqui”

O deputado espanhol, Juantxo López / Foto – Reprodução

Juantxo López de Uralde (1963, Espanha) é deputado de Unidos Podemos – coligação eleitoral formado por Podemos, Esquerda Unida e outros diversos partidos de esquerda para concorrer às Eleições gerais na Espanha em 2016. Mas Juantxo não é um parlamentar usual, pelo que ele contou: “a política não consiste em sentar numa cadeira e votar de vez em quando”; “eu sempre serei ativista porque trago isso no DNA”. O deputado não possui uma trajetória tradicional na política. Não veste terno e gravata. Na verdade, usa traje de ativismo, com as duras consequências que tal rótulo pode trazer – ele esteve 21 dias preso por protestar com um cartaz na reunião da organização das Nações Unidas (ONU), em Copenhague, Dinamarca, em 2009.

Juantxo ama a natureza. Dedica suas forças a defendê-la e estuda-la.  Foi diretor do Greenpeace da Espanha durante quase uma década, depois fundou o EQUO, partido espanhol ecologista. Agora pretende apresentar uma Lei de mudança climática e transição energética na Espanha que promova a adaptação aos impactos da mudança climática e estabeleça planos ambiciosos de redução de emissões de gases poluentes, alinhada com determinações científicas feitas no Acordo de Paris.

É uma pessoa simples, que trata todos bem – quem conhece sabe. Converso com ele sobre o governo espanhol do PP, corrupção, crise da Catalunha, meio-ambiente e, obviamente, sobre o Brasil.

Independente – Por que Juantxo decidiu entrar na política em 2015?

Juantxo – Na verdade, essa decisão surgiu muito antes. Depois de Copenhague, repensei a forma de entender o ativismo e a política. No final das contas tomei a decisão de dar um passo adiante porque, depois de muitas reuniões com partidos, vi que as decisões necessárias não estavam sendo tomadas. Por isso me um com pessoas que compartiam a mesma visão e fundamos EQUO em 2010.

Independente – Você gosta mais de ativismo ou de política? Há mais semelhanças ou diferenças?

Juantxo – Tem mais semelhanças do que imaginamos, pelo menos na forma em que eu entendo a política, que não consiste em sentar numa cadeira e apertar um botão de voto de vez em quando. Eu sempre serei ativista porque levo isso no DNA. Na política, encontrei uma forma de propor mudanças legislativas e políticas que cuidam das pessoas e do planeta.

Independente – Você pertence ao grupo parlamentar Unidos Podemos, mas é do EQUO. Qual é o projeto de seu partido, em linhas gerais?

Juantxo – EQUO é um partido verde, pertencemos ao Partido Verde Europeu e trabalhamos para mudar as coisas. Nós entendemos que a crise econômica, social, política e ecológica que estamos vivendo só pode ser vencida se mudarmos de modelos. Isso implica mudanças estruturais em todos os níveis: desde a forma de produzir, até como nos movemos, que consumimos, etc. E isso deve ser feito enfrentando um modelo capitalista que vai se agarrar para sobreviver. Apesar de estar claro que o modelo não funciona, para mudá-lo precisaremos de muito esforço e muito tempo, mas estamos jogando muito.

Independente – Como podemos definir brevemente o desenvolvimento das sessões do Congresso espanhol, que foram polêmicas, pelo que vimos de legislatura?

Juantxo – Apesar de o PP não ter mais maioria absoluta e não poder passar o rodo como na legislatura anterior, a verdade é que o trabalho feito no Congresso nem sempre dá resultados. Em primeiro lugar, porque o PP se dedica a vetar ou omitir o que é aprovado em plenário que não convém a eles. E em segundo lugar porque em muitos casos recebe apoio de sua marca branca, que é Ciudadanos, e até do partido socialista (PSOE), como estamos vendo. O último exemplo disso foi a mudança da lei de Biodiversidade que o PP propôs e que teve apoio do PSOE.

Independente – 900 cargos do PP foram denunciados. Como você definiria o partido que governa a Espanha?

Juantxo – Agem como uma organização mafiosa.

Independente – O Ministério Público Espanhol (Fiscalía) reiterou a acusação de corrupção contra o PP. Rajoy sabia de tudo?

Juantxo – Parece inacreditável pensar que alguém na posição dele ignorava o que ocorria em seu partido. Aliás, creio que ninguém tem dúvidas sobre quem é esse M.Rajoy que aparece nos papéis que mostram cobrança de super-salários.

Independente – Nestes dois anos, que seu grupo parlamentário fez e o que deve ser feito?

Juantxo – Foram dois anos de aprendizagem, coordenação, de chegar a consensos, etc. Entretanto, o balanço é muito positivo. Realmente acredito que conseguimos apresentar leis inovadoras que há muito tempo faziam falta em nosso país. Falamos da eutanásia, de direitos LGBT, de subir o salário mínimo, de uma lei de transição energética, de mudança climática, etc. Mas o PP se encarrega de enterrar. Acho que todo esse trabalho precisa ser valorizado e conhecido pela sociedade.

Independente – O Brasil tem 3,5 milhões de pessoas na linha de pobreza. Não em vão, na Espanha há várias famílias que vivem dramas econômicos e sociais, verdade?

Juantxo – A crise econômica golpeou com força as pessoas mais vulneráveis e o que aqui chamamos de classe média, onde as pessoas viram suas vidas dando giros de 180 graus. Ainda enfrentamos altas cifras de desemprego. Há um grande número de famílias com todos os membros desempregados e inclusive trabalhadores que, mesmo empregados, são pobres. Muitas organizações sociais procuraram paliar essa situação, enquanto o PP recortava os setores mais necessitados: saúde, educação, serviços sociais… Isso não pode ser consentido.

Independente – Tema Catalunha: nestes dias comprovamos propostas e soluções de cada lado. De fato, também há diferentes posições em seu grupo. Que receita o Juantxo gosta mais neste assunto?

Juantxo – Com certeza a o caminho unilateral não é adequado, mas também discordo da aplicação do artigo 155. Neste assunto falta altura política e diálogo. Durante alguns momentos, pareceu que ambas as partes queriam o conflito aberto, que poderia ser evitado. No EQUO sempre defendemos uma reforma constitucional que inclua um modelo territorial em que todos encontrem seu espaço, não apenas a Catalunha. Esse debate tem que ser aberto de forma transparente e participativa. E esta situação deve ser respondida com mais democracia e mais participação. Acho que a solução que propusemos, de um referendo acordado com todas as garantias democráticas e uma lei clara, é a saída. Obviamente apostamos por um modelo federal em que todos os territórios tenham seu espaço. Não defendemos a independência.

Independente – Há um momento falamos de corrupção, que está presente em altos níveis tanto no Brasil quanto na Espanha. O que assola mais nosso país: a corrupção ou a mudança climática?

Juantxo – (Risos) As duas questões são muito relevantes. Mas há uma questão que envolve diretamente nossa sobrevivência e trata-se da mudança climática.

Independente – Passamos o Halloween com manga curta e seguimos assim até o final de outubro. O que ocorre? A temperatura vista em novembro na Espanha é preocupante?

Juantxto – É preocupante há muito tempo. O problema é que as consequências vão ficando mais visíveis e isso obviamente gera impactos econômicos. Ainda resta algo, um pouco, melhor dizendo, de margem de manobra para agir e por isso temos que atuar com urgência. Além disso, a Espanha é um dos países mais vulneráveis às consequências da mudança climática. Neste sentido, e diante da inação do Governo, decidimos fazer uma Lei de mudança climática e de transição energética a partir de nosso partido. A mudança climática é um desafio global que deve envolver todos nós, mas em nosso caso não podemos esperar mais para agir.

Independente – Carros e grandes cidades: deve haver alternativas? Em Madri, já temos conquistas neste sentido.

Juantxo – A alternativa passa por uma transformação das cidades e da forma que nos movemos. Temos que passar a uma mobilidade mais sustentável, limpa e inteligente. Para isso, é preciso trabalhar em muitas frentes, começando pelo fomento. É verdade que o impulsionamento feito em cidades como Madri ou Barcelona, com o protocolo antipoluição e o plano de qualidade do ar, é importantíssimo, enquanto o Governo só põe obstáculos.

É muito importante, aliás, saber chegar à cidadania e comunicar muito bem o que supõe tudo isso, explicando que a saúde de todos está em jogo.

Independente – Os governos progressistas do Brasil, Argentina e Peru foram trocados por outros de perfil liberal e conservador. A América Latina vive uma mudança de ideologias. Você vê algum movimento internacional agindo no continente que incentive a saída de presidentes de centro-esquerda e entrada de gestões mais à direita?

Juantxo – Não há dúvidas de que existem interesses financeiros, não só na América Latina, que se movem para promover regimes liberais favoráveis a seus interesses. Igualmente, acho que o panorama político se modifica e por isso penso que devemos trabalhar para apoiar o fortalecimento das democracias, também na América Latina, onde estes interesses ameaçam a preservação da região, por exemplo, que reúne recursos naturais importantíssimos.

Independente – O Governo Temer, pressionado por empresas e políticos vinculados ao negócio da agricultura e exploração mineral no Brasil, pretende reduzir a proteção a certas zonas da Amazônia para fortalecer a produção mineral destes espaços. A Europa se preocupa com a ação de empresas interessadas na Amazônia ou entende que esta questão é interna do Brasil e dos demais países em que floresta se encontra?

Juantxo – A Europa se preocupa menos do que deveria. É uma péssima notícia que um dos grandes pulmões de nosso planeta se encontre tão ameaçado. Vivemos em um mundo globalizado, em que a economia e muitas empresas têm dimensão internacional e companhias possuem capital transnacional. Não podemos permanecer imóveis diante disto porque as consequências fatais afetam o mundo todo.

Independente – Por último, como estará Juantxo no final de 2019?

Juantxto – 2019 é um ano muito importante porque jogamos tudo nas candidaturas municipais e temos que nos posicionar para que os governos que chegaram em 2015 possam continuar com seu trabalho de transformação. Também será um ano importante em nível europeu, com eleições ao Parlamento. Entretanto, a nível estatal acho que o Governo do PP esgotará a legislatura e provavelmente entremos em 2020 com eleições gerais. É preciso que a política espanhola finalmente mude e por isso quero por meu grão de areia e voltar a me candidatar. Muitas coisas não sairão do papel nesta legislatura e é preciso levá-las adiante. Conseguiremos isso com uma maioria progressista no Congresso.

Tradução de Rafael Bruza

Formado em jornalismo e pós-graduado em Comunicação pela Universidad Carlos III de Madrid. Apresentador de televisão na Espanha e editor-chefe no jornal regional de Madri Nuevo Cronica. Correspondente do Independente na Espanha. Serviçal do jornalismo. Professor. Torcedor do Atético de Madrid.

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