Procuradores do MP fizeram ‘entrevista coletiva em off’ para vazar Lista de Janot

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Apuração da ombudsman da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, indica que procuradores da República vazaram os nomes a jornalistas sob promessa de anonimato e sigilo.

Informação – Por Rafael Bruza * Errata: a informação da ombudsman indica que a “entrevista coletiva em off” foi feita por membros do Ministério Público, sem informar se estes fazem parte ou não da Operação Lava a Jato. O Independente alterou o título para indicar que os servidores eram do MP e não “da Lava a Jato”, como a manchete indicava anteriormente.

O procurador Geral da República, Rodrigo Janot / Foto – Reprodução

Em artigo chamado “um jato de água fria” e publicado no domingo (19), a ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, afirma que a 2ª Lista de Janot foi vazada a jornais corporativos do Brasil através de uma “entrevista coletiva em off”, feita por integrantes do Ministério Público a jornalistas. A ombudsman indica que este tipo de entrevista é “aquela que determinada fonte passa ao jornalista com o gravador desligado e com proteção de anonimato”.

“A ombudsman apurou que a divulgação da chamada segunda lista de Janot se deu por meio do que, no mundo jornalístico, se convencionou chamar de ‘entrevista coletiva em off’”, diz o texto, que logo indica a definição do termo.

“Após receberem a garantia de que não seriam identificados, representantes do Ministério Público Federal se reuniram com jornalistas, em conjunto, para passar informações sobre os pedidos de inquérito, sob segredo, baseados nas delações de executivos da Odebrecht”, afirma a publicação.

Na terça-feira (14), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a abertura de 83 inquéritos contra pessoas com foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal, além da quebra do sigilo das investigações.

A relação de nomes passou a ser chamada de 2ª Lista de Janot – procedendo uma lista com pedidos de inquérito divulgada em 2015, que ficou conhecida apenas como Lista de Janot.

A divulgação dos nomes presentes na segunda lista era aguardada no meio político de Brasília. Os nomes da lista seguem em sigilo de Justiça, assim como as delações da Odebrecht.

“Não é possível divulgar detalhes sobre os termos de depoimentos, inquéritos e demais peças enviadas ao STF por estarem em segredo de Justiça”, afirma a PGR por meio de nota, como indica a própria coluna da ombudsman.

O profissional que vaza informações sigilosas de um inquérito antes da criação do processo pode ser enquadrado no “crime oficial” de violação de sigilo profissional, previsto no artigo 154  do Código Penal.

Art. 154 – Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.
Parágrafo único – Somente se procede mediante representação.

Entrevista coletiva em off

O ombudsman de um jornal tem a função de receber críticas, sugestões e reclamações de usuários e consumidores, com o dever agir de forma imparcial para mediar conflitos entre as partes envolvidas.

No texto, Cesarino estranha o fato de Folha, Estadão, O Globo e Valor terem publicado “os mesmos 16 nomes de políticos” das dezenas de envolvidos na publicação.

“A surpresa foi a constatação de que a cobertura dos principais órgãos de comunicação – impressos, televisivos e eletrônicos- trazia versões inacreditavelmente harmoniosas umas com as outras. Um jato de água fria em quem acredita na independência da imprensa”, afirma o texto.

Cesarino também analisa a cobertura midiática daquele momento.

“No dia seguinte, a corrida jornalística por notícia voltou ao normal, com vários veículos obtendo informações exclusivas de partes não divulgadas dos inquéritos sob sigilo”.

Os nomes divulgados incluem de seis ministros do atual governo Aloysio Nunes (Relações Exteriores), Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria Geral), Gilberto Kassab (Ciência e Tecnologia), Bruno Araújo (Cidades), Marco Pereira (Indústria, Comércio Exterior e Serviços), os presidentes da Câmara e do Senado (Rodrigo Maia, DEM-RJ e Eunício Oliveira, PMDB-CE), cinco senadores, dois ex-presidentes (Lula e Dilma) e dois ex-ministros (Antônio Palocci e Guido Mantega, ambos do PT.

“Qual o sentido de se deixar conhecer só alguns dos envolvidos? Qual a estratégia dos procuradores, parte interessada do processo, ao divulgar uns e omitir outros? Por que não liberar, por exemplo, os que estão nos pedidos de arquivamento?” – questiona a ombudsman no texto.

Na semana passada, o G1 (Grupo Globo) divulgou matéria jornalística informando os “novos nomes” da lista de Janot “revelados pela TV Globo”.

Críticas da ombudsman

A ombudsman, Paula Cesarino Costa, conclui o texto com críticas à decisão dos jornais e pede que a Folha trnha transparência com seu leitor.

Para o leitor, resulta em história contada pela metade. Informação passada a conta-gotas tira o entendimento do todo e levanta a desconfiança de manipulação.

O resultado desse tipo de acordo subterrâneo é que o jornalista se submete a critérios não claros da fonte, que fornecerá as informações que tiver, quiser ou puder. O repórter concorda em parar de fazer perguntas em determinado momento.

Não foi a primeira vez, porém, que tal procedimento ocorreu. A prática já se repetiu no Palácio do Planalto, no Congresso e até no STF.

Tudo isso resulta numa desconfortável uniformidade de narrativa jornalística, que exala tom oficial.

Nos muitos escândalos que assombraram o país desde a redemocratização de 1985, a imprensa manteve, até muito recentemente, posição dianteira e relevante na investigação de ilícitos públicos.

Na intrincada narrativa da Lava Jato, a dependência dos repórteres para com fontes e investigações oficiais tem sido grande demais.

O ideal é que o jornal tenha linhas investigativas próprias e independentes. Mas tem sido difícil para não dizer impossível sobreviver sem a colaboração oficiosa de órgãos envolvidos na Lava Jato.

Diante disso, o jornal deve, no mínimo, transparência ao leitor, que tem o direito de saber de onde vem a informação que consome. Procurada, a direção da Folha não quis comentar. Como nos bons vinhos, denominação de origem é boa forma de controle de qualidade.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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