‘Quase todas as notícias são enviesadas’, diz Gabriel Priolli

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Com experiência nos principais setores da mídia nacional, o jornalista faz uma análise crítica da imprensa brasileira nesta entrevista exclusiva para o Independente.

Por André Henrique e Rafael Bruza

O jornalista Gabriel Priolli durante entrevista

O jornalista Gabriel Priolli trabalhou na Grande Imprensa, esteve na mídia pública quando trabalhou na TV Cultura e agora colabora com o site Nocaute, que se enquadra na imprensa alternativa de esquerda.

Com essa experiência, o jornalista conversou com o Independente no começo de agosto e analisou a imprensa brasileira profundamente, apontando características e defeitos do jornalismo nacional, que se encontra, segundo Priolli, em um dos momentos mais difíceis de sua história.

Independente – No Brasil, temos uma mídia concentrada nas mãos de poucas famílias, qual é o impacto histórico disso e o impacto na Democracia?

Priolli – É a perda de diversidade. Temos uma mídia que é muito monocórdia, todos falam a mesma coisa, há um número muito pequeno de empresas e grupos familiares que as controlam. Eles impõem uma linha editorial praticamente homogênea, onde você não tem diversidade.

Independente – Durante a era Lula, convencionou-se chamar o jornalismo contrário ao PT e às esquerdas de jornalismo de guerra. Que avaliação você faz desse processo?

Priolli  Eu acho que jornalismo de guerra é um pouco impreciso. Mas é certamente um jornalismo de campanha. Usam o veículo de informação para campanha política, com fins políticos. Eu acho que isso é infelizmente uma tendência mundial, não apenas brasileira, e corresponde a uma mudança no perfil do jornalismo. Nós tivemos até o século XIX, um jornalismo de padrão liberal, clássico, que separava sua função informativa de sua função opinativa. A opinião da empresa jornalística e seus proprietários era feita nas páginas editoriais e de colunismo. Mas o noticiário era preservado, perseguia-se como ideal a isenção, o equilíbrio e a busca de diversidade de fontes. Esse jornalismo entrou em declínio. Hoje é unidirecional. Há menos diversidade e menos heterogeneidade de vozes na imprensa. E o noticiário é voltado para um sentido político. Os interesses da empresa jornalística passam a ser condutores da linha editorial. Determinam o que é notícia, o que não é notícia, o que é importante e o que não, além da forma que os assuntos são tratados. Isso nos lança ao século XIX, aos antigos pasquins, à imprensa militante do período imperial, onde surgiu a mídia brasileira, e nasceu de publicações de claro caráter político e partidário, defensor de teses, sem nenhuma isenção. É um recuo de 200 anos. E isso é uma lástima porque o noticiário é muito contaminado. O leitor tem uma dificuldade enorme porque quase todas as notícias são enviesadas politicamente. Há interesses determinando como aquela noticia será dada.

Independente – Parte da direita brasileira afirma que a mídia é ocupada pela esquerda. Dizem que existe uma hegemonia esquerdista na mídia. O que você acha disso?

Priolli – Acho mais um delírio do setor extremo da direita brasileira, que é de um grau de estupidez realmente impressionante. Sim, é fato que até o início desse século, a imprensa tinha um grande contingente de profissionais de esquerda. Mas eram profissionais de veículos liberais. Há vários casos de jornalistas de esquerda que escreviam os editoriais de direita dos veículos em que trabalhavam.

Independente – Você disse que a imprensa brasileira tem um perfil liberal. Mas não está ocorrendo uma guinada à direita? Alguns veículos têm jornalistas com discurso de ódio e de extrema-direita.

Priolli – Sim, essa é a tendência geral. Tivemos durante um período grande, que atravessou a maior parte do século XX, um equilíbrio maior, uma imprensa basicamente liberal, que procurava equilibrar a balança das visões políticas. As matérias procuravam esse equilíbrio. Quando o tema era, por exemplo, um assunto de política econômica, as matérias incluíam não apenas os economistas que concordavam com aquela política econômica, mas também da linha oposta, que contestava. As matérias procuravam debater os temas. A ideia de ouvir o outro lado e dar voz ao mesmo virou uma formalidade. Na TV, as matérias dão amplo espaço a quem denuncia e o denunciado só fala em uma nota lida pelo âncora, quando a transmissão volta ao estúdio, sendo que era de dever dos autores colocar uma câmera lá e ouvir o sujeito para incluir a fala na reportagem, de forma que o público julgue, a acusação e a defesa, o pró e o contra. Isso é jornalismo, independente da ideologia. Nas páginas editoriais e de opinião que a empresa pode exercer sua opinião com toda legitimidade, procurando influenciar o público. Mas não dá para fazer isso matéria por matéria, simplesmente excluindo vozes discordantes e transformando o noticiário em uma extensão dos editoriais, onde só é assunto aquilo que o veículo julga importante desde uma determinada ótica. Isso não é jornalismo sério.

Independente – E, infelizmente, na Internet, muitos veículos de esquerda e de direita estão seguindo esse caminho que o senhor está falando.

Priolli –  A antigamente chamada imprensa alternativa, ou seja, a versão contemporânea da imprensa alternativa vai se transformando na contra-facção da imprensa dominante e hegemônica de direita. Ela faz as mesmas coisas, com sinal trocado, infelizmente. Hoje temos uma imprensa de esquerda, progressista, que em larga medida faz crítica do noticiário da imprensa de direita, conservadora. Ela reproduz esse noticiário de forma crítica. Não gera conteúdo autônomo. A produção de conteúdo autônomo da mídia alternativa é muito pequena e muito irrelevante. Esse conteúdo autônomo é quase 100% opinião e não informação, apuração, reportagem e levantamento primário dos fatos. Isso acontece por uma série de razões, a maior das quais é a fraqueza de recursos econômicos, pois fazer reportagem e noticiarismo é muito caro e implica investimento para ser feito em grande escala. A imprensa alternativa não possui esses recursos, mas isso não a exime de produzir na escala em que isso possa ser feito. Os blogs são veículos essencialmente de opinião e não de reportagem. Houve uma expansão disso na produção de toda mídia independente, de esquerda, atual. Isso deve ser pensado. Fica muito frágil criticar as insuficiências, erros e manipulações da imprensa de direita e, de alguma forma, ou em larga medida, em alguns casos, fazer a mesma coisa.

Independente – Citando fatos concretos: quando o Governo Dilma estava em crise, o jornalista José Trajano fez algumas defesas do governo e caiu na ESPN. Agora o Mário Magalhães, que chamou o Impeachment de golpe, não teve o contrato renovado. Parece que os jornalistas de esquerda estão sendo escanteados na mídia…

Priolli – Não só parece, como isso vem acontecendo em grande escala. Há um processo de triagem ideológica na mídia que está se aprofundando. Isso em lá de trás. Começa no momento da contratação dos profissionais, das renovações e da admissão de novos profissionais, que são os focas. Os focas estão sendo contratados claramente por critério ideológico. Os cursos de formação e seleção interna são feitos de forma que a pessoa tenha que se expor politicamente e esse é o ponto de corte. Então se a pessoa é muito explícita em se colocar como um cidadão de esquerda, simplesmente não é contratado, independente de sua capacidade de redigir e fazer todas as coisas que são necessárias dentro do trabalho de imprensa. Então há triagem ideológica, que vem desde a base, e ela infelizmente está chegando à cúpula, que são as instâncias diretivas. Era muito comum até certo tempo atrás, termos diretor de redação que enquanto trabalhava numa empresa privada, de mercado e liberal, tinha vinculação com movimentos e partidos de esquerda, às vezes até clandestinos. O cara saia da redação do jornal e ia para a reunião do partido clandestino sem problema nenhum, com todos sabendo. Mas esse tempo pertence ao passado remoto. Isso acabou completamente. Um jornalista de Brasília formulou a situação atual muito bem há uns anos. Ele disse que “antigamente a gente simplesmente trabalhava em jornal; hoje para trabalhar no jornal você precisa praticamente ser sócio da empresa, tem que se associar politica e ideologicamente ao jornal, se não você não trabalha lá”. É assim que funciona.

Independente – Um tema polêmico é a regulação da mídia. Quando ele aparece, a imprensa diz que é censura, bolivarianismo, tentativa de amordaçar jornalistas … Mas há exemplos de regulação de mídia nos EUA, por exemplo, que são duros. Você acha que a imprensa brasileira precisa avançar nesse assunto da regulação?

Priolli – Urgentemente. É um setor econômico praticamente sem regulação. Há poucas leis. Também existe um poder de coação enorme. Se um governante decidir cobrar alguma responsabilidade de um setor de mídia, pode sofrer uma campanha negativa e ser destroçado. Não só governante como o cidadão comum. Se existe lei para todos os cidadãos da economia e todos são regulados, por que diabos a mídia não pode ser regulada? Em outros países a propriedade é proibida. As principais democracias do mundo não deixam que uma mesma empresa controle, como temos aqui, rádio, televisão, jornal, portal de Internet, TV a cabo … Não pode. Isso é regra de monopólio. Outros setores econômicos não podem ser monopólio, mas a imprensa pode? Por que a mídia pode e outros não? Essa conversa é muito cômoda para a imprensa e é muito simples levantar o argumento da censura quando esse tema aparece. Estamos falando em lei. Estabelecer uma lei em que, salvo engano, é votada no Congresso Nacional. Não tem nada de autoritário nisso.

Independente – O senhor tentou construir um jornalismo público independente de mercado e de Estado. Isso é uma dificuldade de ser construída no mundo inteiro. Por que isso não acontece no Brasil?

Priolli – A mídia pública no Brasil foi capturada pelos interesses privados. Os governos brasileiros são voltados ao mercado e instrumentalizaram a mídia pública. Em países mais democráticos que o nosso, essa mídia é diferente da privada. Ela considera a diversidade da sociedade e tem padrões editoriais muito rigorosos no sentido de proteger a diferença e divergência de opiniões e visões das coisas. É assim que a mídia publica funciona de modo geral, com problemas também, evidentemente, pois são controladas por governos, que exercem pressões. Mas eles têm mecanismos fora do Brasil muito mais eficientes para resistir as pressões do que aqui. Depois do golpe em maio do ano passado, a mídia foi completamente capturada pelos interesses do mercado. Então não há mais divergência de linha editorial entre uma emissora pública e uma privada, atualmente. A busca que se fazia de outras expressões culturais, de mais heterogeneidade já se perdeu. É um problema muito complexo.

Independente – Você acredita que o jornalismo digital pode realmente ser uma alternativa ao jornalismo tradicional?

Priolli – Ele vem tentando ser. O jornalismo digital ainda é um conjunto de experiências no âmbito de empreendimentos privados. Há veículos bons e sérios, buscando a qualidade e procurando fazer jornalismo. Mas temos uma tendência no mundo digital, fomentado pelas redes sociais, de criar o fenômeno de bolhas, que segregam as pessoas dentro de comunidades de pessoas, onde todas pensam igual. Logo a mídia se volta para atender a bolha X ou a bolha Y. Isso é muito ruim. Se não rompermos com essa lógica de bolhas, não pode haver democracia. A democracia morre se não romper com isso. As pessoas têm que ter a opinião que tiverem, mas elas têm que cruzar essas opiniões e a mídia tem que fertilizar o debate em todas as áreas, mesmo que ela tenha engajamento. Na mídia digital, está havendo uma segmentação cada vez maior. Buscam esses públicos cada vez mais segmentados, mas ela está perdendo a visão do todo e a do papel que a mídia tem de fomentar o debate entre os diversos grupos da sociedade.

Independente – Os veículos fake news têm muita audiência e os administradores até ganham dinheiro inventando mentiras sem mostrar a cara. O que o você acha disso?

Priolli – Isso é um fenômeno tipicamente da Internet e tem a ver com as redes sociais. Ou seja: com a adesão de milhões de pessoas às redes e o papel que elas têm de distribuidoras de conteúdo permitiu a disseminação desses sites que simplesmente reproduzem informações, distorcendo-as, buscando sensacionalismo, manipulando ou mentindo completamente. E fazem isso sem nenhum interesse político. São sites caça-cliques, caça-likes. É essa ideia: buscam grandes audiências para poder monetizar e ganhar dinheiro com isso. Em certo sentido, esse fenômeno aprofunda o problema da falta de precisao e qualidade da informação que debatemos sobre a mídia nacional. Porque a mídia fake news não é um privilégio da Internet. É um defeito que acontece om a imprensa de modo geral de decorre, em larga medida do abandono de seu compromisso com a diversidade, investigação do fato, apresentação das coisas tais como elas são e doa a quem doer. Há uma infinidade de matérias da Grande Imprensa que são pura manipulação. Se você entender a fake News como a informação manipulada e distorcida para que ela busque uma reação, vemos que é um fenômeno bem generalizado e, sendo objetivo, isso também pega a imprensa esquerda, independente e alternativa que frequentemente escorrega nesse assunto. Lê os fatos de forma distorcida, apimenta as coisas… Este é um problema geral do jornalismo e tem que ser pensado nessa direção. Mas sites como ClickPolítica, Pensa Brasil e tal são pura picaretagem e devem ser banidos. As pessoas devem ter cuidado ao ler uma manchete atraente. Têm que olhar quem está falando. E depois, se você for entrar no site, procure saber quem está editando. Cem por cento desses sites que espalham notícias falsas não têm dono nem assinatura. No jornalismo sério, o grupo, blogueiro ou jornalista responsável se identifica. Você pode contatá-lo. Isso é seriedade. Quem não tem isso é picareta, pode ter certeza absoluta, tenha ele a ideologia que for.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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