Quem financia o Movimento Brasil Livre?

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O jornalista Rafael Bruza conta como o MBL nasceu a partir das manifestações de 2013 e apresenta as informações disponíveis sobre os mecanismos de financiamento deste grupo.

Por Rafael Bruza

O MBL teve papel importantíssimo nas manifestações a favor do Impeachment de Dilma Rousseff e até hoje influencia milhões de pessoas todos os dias em seus canais de comunicação, como o JornaLivre, o canal do MamãeFalei e a página do movimento no Facebook, que tem mais de 2 milhões e meio de seguidores. Mas, apesar de ser amplamente conhecido, os mecanismos de financiamento desse grupo são mistérios na opinião pública porque o MBL nunca divulgou suas receitas, seus ganhos ou gastos.

Quando o jornal El País Brasil pediu dados financeiros internos do movimento para uma reportagem, os líderes do movimento declararam que não divulgam essas informações porque “o MBL é o movimento mais perseguido do Brasil” e não expõe seus balanços financeiros “em respeito à privacidade e integridade” de seus colaboradores, membros e doadores.

Com tudo isso em mente, selecionei informações publicadas pela Agência Pública, pelo jornal El País Brasil e pela revista Piauí para contar a vocês o que sabemos sobre “o financiamento do Movimento Brasil Livre”.

Para entendermos melhor a realidade financeira do MBL, convém explicar a origem desse movimento.

Começa em 2013, entre outras pessoas, com Fábio Ostermann e Juliano Torres, que são membros dos Estudantes pela Liberdade, a filial brasileira do movimento Students for Liberty, um grupo dos EUA muito importante para entender o que é o MBL e como esse movimento se financia.

Os Estudantes pela Liberdade e o Students for Liberty têm laços estreitos com outras organizações internacionais, como a Atlas Network, que forma uma rede entre mais de 400 organizações liberais de vários países do mundo.

A Atlas Network também é importante nessa história toda porque ela ajuda seus parceiros com cursos, treinamentos e patrocínios “modestos” para projetos, que variam de US$ 5 mil a US$ 10 mil, chegando a US$ 20 mil em “situações raras”, segundo site da organização.

O presidente da Atlas Network, Alejandro Chafuen, e Fábio Ostermann / Foto – Reprodução

A função da Atlas não é propriamente promover ideias liberais em outros países, mas sim “nutrir”, movimentos destas nações, alinhados com o liberalismo econômico, como declarou o argentino Alejandro Chafuen, que preside a Atlas Netowrk e aparece ao lado de Fábio Ostermann em uma foto, durante uma das manifestações a favor do Impeachment de Dilma Rousseff.

No Brasil, a Atlas é parceira de vários portais e sites conhecidos, como o Instituto Liberal, o Instituto Mises, do Instituto Liberal de São Paulo e o Instituto Millenium – que tem participação de órgãos da Grande Imprensa, como Grupo Globo e Grupo Abril.

Todas estas organizações, além de outras dezenas de think tanks, ou seja, formadores de opinião, difundem ideias a favor do livre mercado, das privatizações, da redução do papel do Estado, entre outras bandeiras, e recentemente contam com apoio de artistas como Roger Flores e Lobão na divulgação de suas ideias.

Irmãos Koch

Ao contrário do que veículos da mídia alternativa costumam denunciar, não há evidências que provem que o MBL recebe dinheiro dos irmãos Koch, do ramo do petróleo.

Mas a Atlas Network e a Studens for Liberty são parcialmente financiadas por fundações dos irmãos Koch e de outros multimilionários, como John Templeton, como revelou a Agência Pública em reportagem de 2015.

Depois de entender melhor essa rede nacional e internacional de think tanks liberais que tem relação com a origem do MBL, podemos continuar com a história do movimento.

Como disse, Ostermann e Torres foram treinados e participaram de cursos de think tanks estadunidenses, como o próprio Students for Liberty e a organização Atlas Network.

Nas manifestações de 2013, eles e outros membros do Estudantes pela Liberdade queriam fazer ativismo político durante os grandes protestos de junho.

Mas eles tinham um problema sério, pois a lei dos Estados Unidos proíbe que organizações daquele país financiem movimentos ativistas de outras nações.

Ou seja: a Estudantes pela Liberdade teria problemas jurídicos nos EUA se fizesse ativismo político nas manifestações enquanto recebe verbas de organizações daquele país.

Para manter as verbas internacionais da EPL, sem perder a chance de fazer ativismo político nas ruas, Ostermann, Torres e outras pessoas envolvidas resolveram criar uma marca informal de pessoas físicas, não jurídicas, que, obviamente, era o Movimento Brasil Livre.

Criado o logo e a campanha de Facebook, os membros da Estudantes pela Liberdade participaram dos protestos de 2013 sob a marca do MBL. Conseguiram 10 mil seguidores no Facebook e quiseram continuar com o trabalho de ativismo político a favor de ideias liberais.

Foi então que Kim Kataguiri e Renan Santos entraram no grupo e deram uma guinada “incrível” no movimento, segundo Juliano Torres, introduzindo a bandeira do Impeachment da presidente da República,  Dilma Rousseff, e transformando o MBL num movimento fundamental para a derrubada da petista em 2016.

O resto, portanto, é história…

Boa parte, dessas informações que contei até agora estão publicadas desde 2015 numa reportagem da Agência Pública chamada “A nova roupa da Direita”, mas ninguém foi atrás de mais informações porque, como expliquei acima, parte considerável da Grande Mídia compõe esta rede de think tanks internacionais e, portanto, têm mais interesse em manter várias questões deste assunto na sombra.

Mas, blindagens à parte, não sabemos se o MBL recebe dinheiro diretamente dos irmãos Koch nem temos informações sobre quanta verba a Atlas Network e a Students for Libery já deram a este movimento.

Mas sabemos que os multimilionários financiam as organizações estadunidenses liberais, Atlas Network e a Students for Liberty, que a sua e vez ajudam formadores de opinião liberais mundo a fora, como o próprio MBL.

Assim funciona a rede de think tanks liberais.

Mas depois de nascer com ajuda de organizações internacionais, o movimento se desenvolveu muito e criou novos mecanismos de financiamento, numa situação que impressionou até mesmo as expectativas dos membros da Students for Liberty e da Atlas Network.

Eles passaram a vender produtos numa loja virtual, como canecas do Sérgio Moro e camisetas do movimento, além de pedir doações em programas de “filiação”, que vão de 30 a 10 mil reais por mês, segundo matéria do El País.

Também é fato que o PMDB cedeu sua máquina partidária ao movimento durante a campanha do Impeachment e logo o MBL foi chamado por Temer para “tornar suas reformas mais palatáveis”.

Mais tarde, em 2017, a revista Piauí publicou conversas de um grupo de Whatsapp onde líderes do MBL interagem e pedem doações à executivos de médio e alto escalão do mercado financeiro. O texto diz que no grupo havia pelo menos 158 funcionários de instituições financeiras, como Banco Safra, a XP Investimentos e a Merrill Lynch. Um dos doadores, por exemplo, realizou uma transferência de R$ 15 mil ao movimento e prometeu outra no mesmo valor.

Além disso, o MBL se define juridicamente como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, uma Oscip, que permite que doadores recebam descontos no imposto de renda pelas doações realizadas.

Então o movimento nasceu e cresceu com ajuda de organizações dos Estados Unidos, financiadas por fundações de multimilionários do país, teve peça central na queda de Dilma Rousseff, quando recebeu ajudas de partidos políticos tradicionais, como o PMDB de Michel Temer e Eduardo Cunha, e logo desenvolveu mecanismos de financiamento próprios, sem nunca divulgar quanto ganha ou de quem ganha dinheiro.

Essa é a história básica do MBL, mas cabe lembrar que isso que contei aqui é apenas a ponta do iceberg, ou seja, são apenas as informações que conhecemos e que são públicas.

Ainda há muita coisa a ser revelada e estudada sobre esse movimento, então vamos em frente!

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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