A sociedade da polêmica

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Por Marcelo Machado

Diagrama de Nolan. O eixo vertical indica as liberdades individuais, sendo acima os mais autoritários e baixo os mais libertários. E o eixo horizontal indica as concepções econômicas com a clássica divisão entre direita e esquerda

A vida na sociedade contemporânea tem sido cada vez mais estressante e recentes transformações tem agravado ainda mais este quadro, as polêmicas na internet. Em grande parte das vezes essas polêmicas ganham um recorte político, com a tradicional divisão entre direita e esquerda, mas as recentes revisões de correntes que se declaram de direita nos levam a mais uma vez se perguntar: Ainda é pertinente esta divisão para o entendimento da política contemporânea, e se for, de que maneira podemos atualizar estas noções?

Não se pode negar o sentido de corrente elitista para a direita, com ênfase no crescimento econômico no liberalismo, mas também em referência ao conservadorismo da nobreza e aristocracia, e de corrente das massas populares para a esquerda, que reivindica a dignidade e valorização dos trabalhadores, mas se com isso não conquistam a liberdade, pode também representar a doutrinação ideológica e a servidão a um regime autoritário. Porém, na maior parte das vezes em que os termos são usados não servem para esclarecer essas concepções, mas justamente o contrário, são usados para instigar a polêmica, abusando desta ambiguidade, sempre no melhor sentido para si mesmo e no pior sentido para a oposição. Não é de se esperar que esta forma de usar tais conceitos mude tão cedo, pois serve a muitos como estimulo ao debate e a participação.

Para superar a polarização e abordar a questão de forma diferenciada, David Nolan, cientista político americano, publica um diagrama em 1971, e que tem sido popularizado atualmente na internet, o “Diagrama de Nolan”. Neste diagrama, que pode ser apresentado em um gráfico semelhante ao plano cartesiano, mas também com algumas variações, um dos eixos representa as liberdades individuais e o outro representa as concepções econômicas, com o lado esquerdo indicando a valorização ao trabalho vivo e o lado direito, o capital acumulado. Assim, demonstra visualmente como cada uma das concepções pode ser mais ou menos autoritária, com essa característica não sendo exclusividade de nenhuma das correntes.

A popularização deste diagrama pode ter alimentado algumas dessas revisões aqui no Brasil, mas que de alguma forma espelham a trajetória deste debate nos EUA, e com isso podemos destacar um aparente consenso, o repúdio ao autoritarismo e a defesa das liberdades individuais. Ninguém, ao defender sua corrente, a considera autoritária ou se considera defensor do autoritarismo, todos se identificam como defensores da liberdade. Poderíamos com isso esperar uma convergência de posições e alianças para o desenvolvimento nacional, mas ao invés disso vemos um acirramento cada vez maior nos conflitos e debates políticos.

A questão é justamente o lado negativo da polarização. Muitos dos que se identificam com um lado na verdade o fazem para se contrapor ao outro. Após muito ódio ter sido alimentado contra um dos lados é possível que muitos nem se importem em avaliar os limites, incompletude e ambiguidade da corrente que defende e nem mesmo se importe em compreende-la e se deixem dominar por estes sentimentos negativos. Desde modo, tendem a acreditar que quem não concorda com elas em algum tópico das discussões politicas merece o repúdio e a agressividade pois tem de ser necessariamente um defensor do inimigo, sem levar em consideração as nuances e complexidades das questões. Se isto pudesse se resumir a conflitos privados não seria um grande problema, mas não é este o caso. Cada vez mais esses sentimentos são induzidos e manipulados na população através do uso indevido da mídia e do sistema judiciário e se essa situação não for devidamente apresentada a população estaremos caminhando exatamente no sentido que todos desejam evitar, a instalação de um regime autoritário, pois são essas as principais características ou ferramentas que são usadas por esses regimes, com o assassinato de reputações e perseguições sistemáticas de todos que se opõem ou criticam o governo, para controlar o Estado sem oposição e monopolizar a capacidade de formação da opinião pública.

Alguns ainda acreditam na utilidade desta polarização supondo que com isso vão ser capazes de liderar uma frente unificada contra a corrente opositora, mas isso não é apenas ingênuo, como se unir os libertários com os autoritários de cada corrente fosse possível, mas na verdade oportunismo de alguém que tem consciência de que promete algo que não pode cumprir.

Outro aspecto contraditório da sociedade que não é compatível com este recorte político é aquele entre tradição e progresso, com todos os arranjos possíveis presentes em algum lugar do mundo ou da história recente. Porém quero concluir com a parte mais positiva que este recorte político pode nos legar, a compreensão de que os conflitos sociais são reflexos de divisões ideológicas e não étnicas, pois por longo tempo eram esses conflitos entre povos que definiam as culturas e o controle dos territórios e hoje percebemos que as pessoas devem ser consideradas pelas decisões que tomam e não pelas condições em que nascem.

Marcelo Machado, cientista político pós-graduado pela PUC-SP, é pacifista e acredita na sociedade civil organizada como indutora de um desenvolvimento sustentável.

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