‘Temer e Jungmann usam a morte de Marielle para justificar intervenção no Rio’

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A vereadora do PSOL de Campinas (SP), Mariana Conti, comenta a repercussão do assassinato de Marielle, as fake news e algumas bandeiras de seu partido, como a desmilitarização da PM.

Por André Henrique – produção de Leandro Bolina e edição de Rafael Bruza

O assassinato da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, gerou diversas reações políticas na sociedade e na imprensa. Boatos foram espalhados pelas redes sociais na tentativa de destruir a reputação da vítima do crime, por exemplo, e um editor-chefe da Agência Brasil enviou e-mail a jornalistas subordinados a ele orientando que a cobertura da empresa pública exponha apenas declarações de autoridades sobre o caso Marielle – gerando protestos na redação, que falam em censura. Neste contexto, outra vereadora do PSOL, Mariana Conti, eleita na cidade de Campinas (SP), comenta as reações políticas do assassinato e acusa o Governo de usar o crime a favor de suas intenções políticas no Rio de Janeiro.

“A Marielle morreu por ter uma posição política: a de denunciar a intervenção militar no Rio de Janeiro. Mas usam a morte dela politicamente para justificar a intervenção. Temer, Raul Jungmann e Pesão têm falado da morte como se isso fosse uma evidência a favor  dos investimentos em segurança pública que realizam”, diz a vereadora, em entrevista exclusiva aos canais Independente, Rede Popular e Hortolândia News.

“A Marielle tinha um lado. Ela criticava a militarização do Rio de Janeiro. A melhor forma de homenagear a vereadora é honrar o que ela defendia. Ela era contra as políticas desses governos, a favor de direitos sociais, da distribuição (de renda) e de garantir direitos para que o Estado vá além do Estado policial”.

A vereadora de Campinas também argumenta que os boatos espalhados sobre a vereadora assassinada provêm do “ódio ideológico”.

“É preconceito por ela ser uma mulher negra e periférica. É como se pensassem: ‘uma mulher negra só pode ter relação com tráfico; não pode ser outras coisas da vida ou ter outra trajetória’. Não se fala da Marielle como uma menina que fez cursinho popular, que entrou na universidade por cotas, que se formou em Sociologia, que fez mestrado em Administração Pública, que estudava a questão das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro), que foi uma figura importante na Alerj, que participou da CPI das Milícias…” argumenta.

“É uma posição ideológica do não reconhecimento de que uma mulher negra e periférica pode chegar e alcançar um espaço como este. Então é uma forma de construir uma imagem pejorativa, além de ser uma estratégia política, onde se justifica uma morte dizendo que ‘ela se envolveu com bandido, então foi morta por bandido’. O que é uma mentira”, declara. “Mas com Marielle, isso não cola, pois ela tinha uma função política. O crime escancara o quanto esse discurso preconceituoso é uma narrativa construída pelas elites para justificar o genocídio de um setor da população jovem, negra e pobre, que morre todos os dias. O crime traz isso a tona”.

Confira outros trechos da entrevista:

Independente – Quinze dias depois do crime, que avaliação você faz do caso? Você vê como um crime político, tem que continuar investigando e cobrando a Justiça?

Mariana – Ainda é muito difícil processar tudo isso. Foi uma coisa terrível, um crime bárbaro, e as primeiras investigações mostram claramente que foi um crime com características de execução, muito bem planejado, praticado por profissionais, não por amadores, e com certeza o assassinato tem um significado político porque a Marielle representava um grande contingente da população que historicamente é excluída dos espaços de poder. Ela chegou nesse espaço como a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, com 46 mil votos, contrariando toda as estatísticas e tendências. Ela estava criticando abertamente a intervenção militar no RJ, havia sido nomeada como relatora da Câmara dos Vereadores responsável por acompanhar a intervenção, ela tinha acabado de denunciar a execução de dois jovens na favela do Acari, estava denunciando a violência do batalhão desta favela contra os moradores, ou seja, ela defendia a população que representava.

Independente – A Marielle vai virar um símbolo?

Mariana – Acho que já é. E tem uma coisa que acho odioso em nossa elites, que tentam construir a ideia de que algumas vidas são descartáveis. Recentemente ocorreram 9 assassinatos na Rocinha. E tentam dizer que todas estas pessoas eram ligadas ao tráfico, como se ser ligada ao tráfico justificasse a execução. E se fala pouco da história dessas pessoas. Vi que uma das vítimas era dançarino, fazia parte de uma banda… Então é muito pouco provável que ele tivesse ligação do tráfico, mas tenta-se construir esse discurso para justificar a execução dessas pessoas. Mas no caso da Marielle, isso não cola porque ela já tinha chegado a um espaço de poder. O crime escancara o quanto esse discurso preconceituoso é uma narrativa construída pelas elites para justificar o genocídio de um setor da população jovem, negra e pobre, que morre todos os dias. O crime traz isso a tona;

Independente – O que motiva os boatos contra Marielle? Um ódio ideológico?

Mariana – Acho que é sim um ódio ideológico, um preconceito por ela ser negra e periférica. É como se dissessem que uma mulher negra só pode ter relação com o tráfico. Não pode ter outra trajetória. Não se fala da como uma menina que fez cursinho popular, que entrou na universidade por cotas, que se formou em Sociologia, que fez mestrado em Administração Pública, que estudava a questão das UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro), que foi uma figura importante na Alerj, que participou da CPI das Milícias… É uma posição ideológica do não reconhecimento de que uma mulher negra e periférica pode chegar a um espaço como esse. É uma forma de construir uma imagem pejorativa, além de ser uma estratégia política dentro daquela mesma discussão em que se justifica uma morte. Tentam criar uma mácula na imagem da Marielle para dizer “ah, ela se engajava com bandidos e fpoi morta por bandidos”. O que é uma mentira. Aquela foto que circulou não é nem a Marielle nem o Marcinho VP. Essa é a segunda morte da Marielle. Tentaram matar a memória dela, para apagar esta trajetória de lutas, posições políticas e o trabalho que ela fazia.

Independente –  Vemos muito preconceito contra a ideia de desmilitarização da Polícia Militar. Você poderia contar sua visão do assunto?

Mariana – Desmilitarização não é o fim da polícia. Existem exemplos de sistemas de segurança que são interessantes. Uma polícia eficiente tem alto investimento em inteligência e na investigação de homicídios, por exemplo, que o Brasil tem índices risíveis. A desmilitarização significa tirar o controle das polícias do estatuto militar. Não é só a esquerda que defende isso. Uma pesquisa do Forum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 70% dos policiais são favoráveis à desmilitarização. A instituição Polícia Militar foi constituída durante a Ditadura como polícia de intervenção nas multidões e de repressão. É isso que precisamos acabar transformando esta polícia em uma corporação treinada para lidar com a população, que atua em conjunto com a sociedade tendo investimento grande em inteligência. Isso se o objetivo for cabar com os crimes organizados, investigar os homicídios e tudo mais.

Independente – Como você conheceu a Marielle?

Mariana – Foi no final de 2016, quando o PSOL elegeu 11 vereadoras feministas pelo Brasil. Formamos a chamada bancada feminista do PSOL. Fizemos um encontro dessa bancada para discutir as expectativas, nossos desafios, etc. Foi lá que conheci ela e mantivemos contato entre as vereadoras por Whatsapp. Quando mataram a Marielle, foi como se tivessem tirado uma parte de nós porque ela era uma de nós da bancada feminista. Nós, milhares do PSOL, nos empoderamos para chegar aos espaços do poder. É difícil processar tudo isso. Acho que faremos um encontro da bancada feminista para entender tudo. Devemos fazer um encontro, mas será difícil fazer sem a Marielle.

Independente – Num discurso no Congresso, a viúva de Marielle disse que ‘a voz dela não pode ser calada com a morte do corpo dela’. O que você entende disso?

Mariana – O PSOL está fazendo uma batalha par investigar esse crime. Precisam esclarecer não só quem matou, mas também quem mandou matar. Mas, além disso, o que falam da voz da Marielle é para denunciar a intervenção militar no Rio de Janeiro. A Marielle morreu porque tinha uma posição política. Qual era? A de denunciar a intervenção militar. O que temos visto é o uso político da morte da Marielle para justificar a intervenção militar. Temer, Raul Jungmann e Pesão têm falado da morte da Marielle como se a morte dela fosse uma evidência de que ‘é necessário investimento em segurança pública e tudo mais’. Mas a Marielle tinha um lado crítico. Ela denunciava os 600 milhões (de reais) gastos na favela da Maré e dizia: “eu sobrevivi a 14 meses de intervenção militar na favela”, que não trouxe nenhum resultado concreto, um avanço, nada. A melhor forma de homenagear a vereadora é honrar o que ela defendia. Ela era contra as políticas desses governos, a favor de direitos sociais, da distribuição (de renda) e de garantir direitos para que o Estado vá além do Estado policial.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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