Teste de Bechedel-Wallace e o machismo de berço

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Você conhece esse teste? É simples de aplicar. Escolha um filme ou série que você gosta e repare em três coisas: a) se existem duas personagens femininas; b) se elas conversam entre si, e c) se elas conversam sobre algo que não sejam homens.

Existe grande chance do filme ou série não passar em mais esse teste que revela a posição subalterna, fútil e reificada em que a mulher é retratada no conjunto das representações produzidas e reproduzidas pela sociedade misógina.

O teste surgiu em 1985, através de uma personagem do quadrinho “Dykes to Watch Out Fo”, da cartunista americana Alison Bechedel. Segundo a autora a inspiração veio da amiga Liz Wallace, que por sua vez estava referenciada no ensaio “Um teto todo seu” de Virginia Woolf. O crítica de cinema no Brasil tem boas iniciativas no uso desse teste.

Fora dos quadrinhos e das telas, na concretude da participação social, tudo fica pior. Na locomoção diária pela cidade; nas relações afetivas; na repartição das tarefas, das oportunidades, das recompensas; nos veredictos judiciais… As provações para as mulheres no seu dia a dia são ainda mais perversas.

Não discuto, portanto, a essencialidade, a legitimidade e nem a urgência do movimento feminista, elas me parecem óbvias. Há muito tempo as mulheres vivem em pleno estado de sítio e preciso me conter para não recomendar a luta armada. Entendo também as implicações do meu próprio lugar de fala na dimensão política desse embate necessário, peço, assim, desculpas e licensa.

Tenho percebido, contudo, que há um grande grupo de mulheres para a qual vivência dessa assimetria e a consciência de seu próprio papel militante tem provocado sofrimento pessoal além do suportável.

Não desejo circunscrever esse contingente em uma geração específica e nem ignorar os evidentes cortes de classe. Mas refiro-me ao grupo de mulheres dos vinte e tantos, aos quarenta e poucos que estão na linha de frente dessa batalha, mas que levam na bagagem uma carga ainda muito presente do machismo de berço. Daquele que interdita, impregna as fantasias e dá sobrevida a instituições escravizantes.

Boa parte dessas mulheres que hoje enfrentam a barbárie de peito aberto teve pouco exemplo de equidade de gênero em casa. Vem de famílias em que meninas não devem sair assim e meninos não precisam voltar. Em que o descanso do macho é sagrado e o das mulheres frescura ou relaxo. Em que elas precisam se proteger, enquanto eles precisam conquistar. Lares que foram ou são verdadeiros criadouros de heróis da mamãe e de princesas do papai.

Talvez já aconteça diferente com as crianças e meninas de hoje, precisa acontecer. E pode ser que os conflitos não tenham sido tão agudos para nossas mães e avós por questões de sobrevivência. Mas, para essas mulheres de quem estou tratando, é uma herança ainda em inventário.

Por mais que a sociedade avance e que a gente se liberte de amarras infantis, quanto de todo esse entulho não permanece reverberando em nossas escolhas atuais? E o cansaço de ter que explicar e reexplicar o evidente, inclusive para homens tão queridos? E a raiva justíssima que vai crescendo, onde despejar sem alimentar estereótipos? Com quem compartilhar divergências ou deslizes de militância?

A existência e a aplicabilidade de um teste como o de Bechedel-Wallace reafirmam o que sabemos: o machismo é endêmico. Todas as mulheres são oprimidas. Mas é preciso lembrar que cada uma sai machucada de um jeito particular. A tristeza é geral, mas é singular também.

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