Títulos acadêmicos de Edir Macedo são falsos, segundo jornalista

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As duas graduações em Teologia, citadas no currículo do fundador da Igreja Universal, são de empresas não reconhecidas pelo MEC; em paralelo, a entidade espanhola onde o bispo diz ter feito mestrado e doutorado informou que não possui registros sobre Macedo.

Por Rafael Bruza * com informações do Blog do Pannunzio

O fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo / Foto – Reproduçao

O fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Edir Macedo, informa em seu currículo que possui duas graduações em Teologia, além de mestrado e doutorado feitos em Madri, Espanha. Segundo investigação do jornalista Fabio Pannunzio, no entanto, as faculdades citadas por Macedo são empresas não reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC) como instituições de ensino e a entidade espanhola não possui registros do líder da Universal em seus arquivos.

O currículo do bispo costuma ser citado em publicações que o classificam como “um dos líderes evangélicos mais conceituados e reconhecidos no mundo, graduado pela Faculdade de Teologia Evangélica do Seminário Unido e pela Faculdade de Educação Teológica no Estado de São Paulo (Fatebom), Mestre em Ciências Teológicas na Federación de Entidades Religiosas Evangélicas de España (FEREDE) e Doutor em Teologia e filosofia Cristã”.

CNPJ da Faculdade de Teologia Evangélica do Seminário Unido

Procurada pelo jornalista, a assessoria de imprensa do MEC informou que as faculdades Seminário Unido e Fatebom, citadas no currículo de Macedo, “não figuram como Instituição de Educação Superior e não possuem credenciamento junto ao Ministério da Educação para ofertar cursos de nível superior”.

“Deste modo, não são, de fato, Instituições de Ensino Superior”, diz a nota.

A sua vez, a Federación de Entidades Religiosas Evangélicas de España (FEREDE), citada no currículo de Macedo, informa que o bispo não estudou na entidade (veja no final da matéria).

A assessoria de imprensa da Igreja Universal não respondeu as dezenas perguntas enviadas pelo Blog do Pannunzio nos últimos meses.

Em 2017, quando Fabio Pannunzio compartilhou publicações no Facebook sobre a série Segredo dos Deuses, feita pela emissora portuguesa TVI – que acusa a Igreja Universal de promover adoções ilegais de crianças – advogados da entidade enviaram uma notificação extra-judicial ao jornalista exigindo retirada do conteúdo do ar e espaço para pronunciamento.

Caso contrário, dizia a notificação, a igreja o processaria por conta dos posts.

Pannunzio negou e entrou em contato com as jornalistas portuguesas responsáveis pela investigação com intuito de ajudá-las.

A reportagem sobre os títulos acadêmicos de Macedo é um dos conteúdos que o jornalista publicou sobre o assunto – outros materiais podem ser vistos “neste site”.

Graduações compradas?

Segundo a reportagem, a Faculdade do Seminário Unido, onde Edir Macedo diz ter estudado Teologia, oferece diplomas em seu site por R$ 200.

Um título de graduação igual ao de Edir Macedo pode ser comprado ainda hoje (…). Se você quiser iniciar uma carreira acadêmica idêntica à do chefão da IURD, comece clicando aqui para acessar o site”, diz a reportagem.

“O interessado não precisará perder horas a frequentar salas de aula, estudar, ler, pesquisar nem produzir teses e dissertações. O único trabalho será o de preencher um formulário informando seus dados pessoais, dar o número do cartão de crédito e aguardar o envio do diploma”, informa Pannunzio.

O Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), vinculado ao Ministério da Fazenda, aponta que a Faculdade do Seminário Unido está registrada como uma “associação para fins culturais”.

O jornalista esteve no Rio de Janeiro para visitar o prédio em que a Faculdade do Seminário Unido está instalada. No post, ele diz que o local se encontra “caindo aos pedaços”.

“Apenas o térreo e o primeiro pavimento estão ocupados. O segundo andar e a laje parecem ter sido abandonados há muito tempo. No primeiro andar, funciona uma espécie de oficina de reforma de móveis. Algumas das salas parecem servir como residência coletiva. No térreo há um salão onde está templo  com bancos para cerca de 50 pessoas”, diz a reportagem, que disponibilizou vídeo do local.

Fatebom acusada na Justiça

A Faculdade de Educação Teológica no Estado de São Paulo (Fatebom), onde Macedo também diz ter estudado Teologia, não consta como instituição de ensino no Ministério da Educação (MEC).

Segundo Pannunzio, a organização lesou centenas de pessoas que tentaram comprar um título entre os anos 90 até 2010 e entraram no poder Judiciário para procurar seus direitos.

O fundador da Fatebom é um pastor da Assembleia de Deus chamado Domingos Dias Ferreira, que morreu em 2010, quando enfrentava dezenas de processos de pessoas que pagaram até R$ 18 mil por um diploma falso de bacharel, mestre ou doutor.

Dias Ferreira prometia certificados reconhecidos, mas enganava os clientes.

“As poucas vítimas que conseguiram um certificado, receberam um ‘diploma’ de outra escola fantasma, a Faculdade de Teologia de Boa Vista (FATEBOV). Ou seja: o sujeito se matriculava em uma faculdade e recebia o diploma de outra”, diz a reportagem de Pannunzio.

A Fatebov tampouco consta como instituição de ensino no Ministério da Educação.

Diploma quase engana autoridades

Apesar de não ser reconhecido pelo MEC, o documento da Faculdade de Educação Teológica no Estado de São Paulo (Fatebom) foi usado para Edir Macedo obter uma cela especial no 91º Distrito Policial de São Paulo, onde o bispo esteve preso durante 11 dias, em 1992, acusado de crimes de estelionato, charlatanismo e curandeirismo (“veja aqui” publicação da IURD sobre a prisão).

O documento foi encontrado pelo advogado, João Donizetti de Almeida, que trabalhava no departamento imobiliário da Universal no início dos anos 90. Ele revelou ao Blog do Pannunzio que se pôs a vasculhar os arquivos do bispo porque “alguém falou que ele tinha  diploma de curso superior”.

“Ninguém, nem o bispo Macedo, sabia onde estava e muito menos para que servia aquele papel”, relata Donizetti de Almeida.

Localizado, o documento rendeu a Macedo direito a cela especial, de onde recebia visitas a qualquer hora e gravava seu programa na rádio Record, como mostra reportagem da revista Veja da época (foto).

Reportagem da revista Veja sobre a prisão de Macedo em 1992

Mas quatro dias depois, a polícia descobriu que o diploma apresentado pelo bispo não tinha reconhecimento do Ministério da Educação e limitou o número de visitas a sua cela, além de cogitar sua transferência para uma cela comum.

Na outra semana, a despeito disto, o advogado de Macedo conseguiu aprovação do habeas corpus que pôs o bispo em liberdade.

Ele acabou absolvido pela 21ª Vara Criminal de São Paulo no processo.

Espanha sem registros de Macedo

A Federación de Entidades Religiosas Evangélicas de España (FEREDE), onde Macedo diz ter estudado mestrado e doutorado, não é uma instituição de ensino, mas sim uma associação de igrejas evangélicas.

A entidade mantém convênios com faculdades e conseguiu o reconhecimento oficial de 5 cursos de teologia, mas não está habilitada para oferecer cursos de doutorado, contrariando informação do currículo de Macedo, que aponta mestrado e doutorado cursados na entidade.

Procurada, a direção da FEREDE afirmou que Edir Macedo não possui títulos acadêmicos concedidos pela entidade.

“Após consultar o secretário Executivo da FEREDE, confirmamos que este senhor mencionado não tem estudos ou aval da faculdade” afirmou a direção. “Desconhecemos como este senhor faz declarações e novamente informamos que não estudou com a FEREDE, nem tem aval, nem com as cinco faculdades mencionadas”.

Doutor Honoris causa, em instituição suspeita

No início de 2016, o Grupo Educacional Inepe (GEI) entregou diploma de Doutor Honoris Causa em Teologia para Edir Macedo Bezerra. O título também costuma aparecer no currículo do bispo e foi entregue pelo diretor do grupo,  Faustino da Rosa Júnior.

Na última sexta-feira (11), Faustino foi condenado pela 3ª Vara Criminal de Maringá (PR) por crimes de falsidade ideológica e uso de documento falso. A punição estabelecida é de três anos e quatro meses de reclusão em regime aberto.

Conforme denúncia do MP, os crimes de Faustino foram cometidos entre 2009 e 2010, quando ele se candidatou a professor de curso de pós-graduação na Faculdade Centro Sul do Paraná (Facspar), ligada ao Grupo Educacional Inepe, apresentando três diplomas de cursos superiores falsos — Administração de Empresas e Licenciatura em Letras, em nome da PUCRS, e um doutorado em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 Ao ser descoberta a farsa, Faustino perdeu o emprego, e um processo criminal aberto em 2013, tramitando em grande parte desses cinco anos em segredo de Justiça a pedido do réu. Foi também em 2013 que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul confirmou sentença da 6ª Vara Criminal do Fórum Central de Porto Alegre, condenando Faustino a dois anos de reclusão (pena convertida em multa de R$ 21,1 mil). O crime: apresentou seis documentos falsos, entre eles, três certificados de pós-graduação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ao ingressar por meio de concurso público no Instituto de Previdência do Estado (IPE). Após quatro meses de trabalho, foi demitido.
O Grupo Facinepe ainda é investigado por suspeita de oferta irregular de cursos de pós-graduação pelo Ministério da Educação, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Civil gaúcha.

 

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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