Um dia no Denarc com Gilberto Castro

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Gil planta maconha medicinal para tratar esclerose múltipla e foi surpreendido por agentes do Denarc que visitaram sua casa na quarta-feira (21).

Por Rafael Bruza e Bruna Pannunzio

De cima abaixo: o policial Eduardo, Adriana Paixão, a jornalista Bruna e Gil Castro / Foto (Luana Guedes/Independente)

Eu, Rafael Bruza, e Brunna Pannunzio estávamos analisando possíveis pautas jornalísticas na quarta-feira (21), quando vimos Gilberto Castro dizendo no Facebook que recebeu uma “visita da narcóticos” em sua casa. Ele usa maconha medicinal no tratamento de esclerose múltipla e planta a erva regularmente para ter acesso a ela. Agentes do Denarc de São Paulo estavam em sua residência por conta de uma legislação limitada, que impede seu direito à saúde, enquanto tantos traficantes poderosos continuam com poder intocado. Esta história tinha que ser contada.

Ligações e mensagens nas redes sociais foram inúteis. O carro e o trânsito de São Paulo nos levaram até a residência, em busca de algo que nem sabíamos o que era.

Eu, Bruna e minha namorada, Luana, cruzamos a cidade seguindo um simples post de Facebook.

Chegando de surpresa, obviamente, tocamos a campainha e fomos recebidos por Gil e um senhor barrigudo com cara de confusos.

A Bruna foi reconhecida.

– Oi Bruna! – disse Gil, enquanto cumprimentava a jornalista.

– Oi Gil! Viemos por causa da visita do Denarc que você recebeu, está tudo bem? – questionou.

– Sim, sim.

– E o Denarc, já foi embora? – perguntei intrigado.

– Não, estamos aqui ainda – afirmou Eduardo, o senhor de 61 anos, que vestia roupas comuns, mas aparentava longa experiência na Polícia.

Ele apontou ao carro parado diante do portão.

“É nossa viatura, viemos à paisana”, explicou.

Gil prontamente disse que Bruna é uma amiga antiga e o agente, surpreendendo a todos nós, disse que nossa chegada tinha sido “boa” porque ela seria “a segunda testemunha do caso”.

Ela entrou pelo portão e fiquei com minha namorada, Lu, ansioso, esperando do lado de fora.

Lá dentro, a jornalista resistiu dizendo que não confirmaria as ações dos policiais porque aquela operação era injusta e arbitrária.

Mas o Eduardo disse para ela se tranquilizar.

“Não achamos nada, leia o mandado e você verá que não há flagrante. Você é jornalista? Se for falar algo, não diga nada mal de nós porque somos do bem”, disse o agente.

De fato, as plantas de Gil haviam morrido meses antes da ação policial, vítimas de uma praga.

O mandado de busca e apreensão criminal assinado pela juíza Rosane Cristina de Aguiar Almeida, do Foro Central Criminal da Barra Funda, só falava em confisco de “plantio de cannabis”, então os agentes não poderiam apreender nada além de plantas de maconha.

O mandado foi expedido porque a juíza Rosane negou Habeas Corpus que poderia autorizar o cultivo de cannabis para Gil e ordenou o mandado de busca e apreensão contra as plantas do paciente, interpretando o cultivo como tráfico de drogas.

Sem flagrante, Bruna testificou que os policiais estavam certos. A situação estava calma e em dez minutos todos saíram pelo portão rumo ao Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (DENARC), em dois carros, que dividiam os policiais de todos nós.

Os sinais quebrados do Ipiranga foram furados pelo carro à paisana que piscava luzes tímidas, enquanto Bruna brincava no volante fazendo sons de sirene com a boca e dizendo que “ninguém dá passagem porque não viam que o carro da frente é polícia”.

Passando pelo Brás, rumo à Delegacia no Bom Retiro, pegamos um pouco de trânsito e os carros ficaram janela a janela por uns segundos.

Entre os comentários trocados rapidamente no momento, o policial desabafou: “podíamos estar fazendo algo mais importante do que esta operação”.

Mas eles têm que cumprir ordens…

O caminho seguiu e chegamos na delegacia. Eduardo pediu para somente a Bruna entrar.

Aceitei, obviamente, pois uma única profissional lá dentro já seria excelente do ponto de vista jornalístico.

Vi como subiam as escadas e aguardei do lado de fora (como mostra a primeira foto desse post).

Lá dentro, o advogado encontrou todos e seguiram rumo ao 5º Departamento de Investigações sobre Narcóticos (DISE). Gil se sentou em uma cadeira, enquanto aguardava o atendimento do delegado.

Os envolvidos foram chamados, enquanto o escrivão fazia seu trabalho.

Bruna sacou o celular e gravou cenas discretamente (veja o vídeo acima)

A ida ao Denarc foi uma formalidade. Sem apreensões, nada aconteceria com Gil naquele momento, mas a situação era símbolo da vulnerabilidade que pacientes brasileiros se encontram simplesmente por precisar de maconha para aliviar sintomas de doenças e efeitos colaterais – sem falar que ele ainda pode receber a polícia em sua casa.

O advogado explicou ao delegado que as plantas de Gil haviam morrido “por incompetência do jardineiro”, como disse o próprio, mas ressaltou que ele usa a erva no tratamento de esclerose múltipla e voltará a plantar.

O escrivão estranhou e disse que não poderia escrever aquilo. Mas o delegado minimizou.

“Põe, ué, não houve flagrante, as plantas morreram, mas a operação foi feita e concluída”, declarou o policial.

O clima na delegacia estava calmo. Bruna e a primeira testemunha, Adriana Patrão, faziam brincadeiras com o policial Eduardo. Ele contou que já levou um tiro no trabalho e perdeu uma parte de pulmão. Se aposentaria em pouco tempo e relatou que teve filhos recentemente com sua mulher.

Todos até tiraram selfies.

Do lado de fora

Alguns minutos se passaram do lado de fora e vi uma viatura da Guarda Civil Metropolitana (GCM) chegando no Denarc com uma moça no banco de trás chorando muito.

Fiquei atento à situação. Os agentes – todos homens – pediram para a mulher se acalmar e a tiraram do carro algemada.

Ela tinha vestes muito desgastadas, não aparentava ser moradora de rua, mas era evidentemente usuária de drogas pesadas.

“Eu não sabia que era droga!!” – gritou a moça – “achei que era dinheiro, senhor, não quero ser presa, não me leve!!”, exclamou, enquanto subia as escadarias do Denarc.

Um drama social profundo. Profundíssimo.

A moça tinha sido pega com 100g de crack e vários pinos de cocaína. Agentes policiais disseram que ela era “mula do fluxo da Cracolândia” – em outras palavras, a moça era usada por traficantes para levar crack às barracas que vendem drogas ao ar livre, no centro de São Paulo, ali perto da delegacia, onde a GCM vem fazendo patrulhas desde que o Governo de João Doria assumiu a Prefeitura.

Ela começou a se debater muito. Chorava inconsoladamente e os agentes não conseguiam controla-la. Caiu no chão e foi literalmente amarrada pelos policiais.

Eu não sabia o que fazer. A cena era truculenta, mas a mulher também gritava e esperneava sem parar.

Quem estava errado? Os policiais? Ela? Nós??!!

A impotência acabou comigo.

Eu poderia desafiar os policiais, mas isso adiantaria nada na situação de quem está desesperada e se debatendo agressivamente por ser pega com 100 g de crack, num país que trata o assunto como caso de polícia e não entende a vulnerabilidade social nesta área.

Instantes depois, vi Gil descendo as escadas com um sorriso no rosto. Sua situação já tinha se resolvido e ele estava calmo.

Mas Bruna e Adriana Patrão viram a situação da mulher amarrada e ficaram revoltadas com os policiais, que foram questionados e gravados.

Os agentes então mostraram a pedra enorme de crack.

“Parecia rapadura”, disseram as duas.

Amarrada, a mulher continuava gritando e se debatendo.

Era simplesmente desesperador, mas não havia o que fazer, segundo o advogado de Gil.

Fomos embora com pesar e algo de culpa, mas pelo menos o Gil não “rodou” nesta situação.

Na casa do próprio, o clima já estava completamente diferente. Gil preparou seus baseados e fumou relaxadamente, depois de algumas horas sem a erva.

Os efeitos da maconha medicinal na esclerose múltipla são visíveis e impressionantes.

Gil contou como conseguiu controlar a enfermidade incurável usando maconha e disse que sua situação é um milagre.

Adriana Paixão, a outra testemunha, tinha feito quimioterapia um dia antes e estava bem, fumando e se relacionando normalmente, enquanto contava suas pesquisas na Unifesp e comentávamos o dia maluco que se passava.

Enquanto isso, milhares de pessoas ficam sem este tratamento importantíssimo por conta de uma legislação sobre as drogas extremamente limitada e débil.

E o que falar sobre a questão social do assunto?

Quantos seres humanos são presos anualmente por tráfico de drogas e se veem obrigadas a entrar em facções criminosas, onde trabalham para grandes traficantes e ficam completamente vulneráveis, assim como aquela mulher do Denarc estava?!

É tudo MUITO INJUSTO.

Fizemos a matéria jornalística que circula pelo país neste momento e recolhemos declarações em vídeo que vão contribuir com o debate sobre as drogas no país.

A luta deve continuar, enquanto for necessário. N

o Brasil, autoridades passam a mão na cabeça de senadores do Helicoca, enquanto perseguem e intimidam cidadãos pacíficos como Gil, que só querem fumar um baseado plantado por ele para se sentir melhor durante o dia.

“Sou brasileiro idiota e não desisto nunca”, disse o “jardineiro”.

Não, Gil, idiota são eles, que não movem um dedo para defender a sociedade, e serão varridos da classe política gradativamente, enquanto a consciência social compreende a inutilidade da guerra às drogas e sente os altos preços que todos pagam pela falta de consciência.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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