“A universidade deve ser pública, gratuita e de qualidade”, diz reitor da Unicamp

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Marcelo Knobel comenta a situação financeira da Universidade Estadual de Campinas, se posiciona contra a cobrança de mensalidade em universidades públicas e fala de assuntos atuais, como o Escola sem Partido e as políticas de inclusão social que existem na Unicamp.

Por André Henrique, Rafael Bruza e Vinicius Bernardi

O reitor da Unicamp, Marcelo Knobel / Foto – Reprodução

Com extensa participação na vida acadêmica e experiência na implantação de programas sociais universitários, Marcelo Knobel foi nomeado reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a melhor universidade da América Latina – segundo ranking da publicação britânica, Times Higher Education – em abril de 2017.  Knobel ressalta a importância do papel da universidade na sociedade e defende a gratuidade do ensino superior público no Brasil, no debate sobre a possibilidade de cobrar mensalidade nestas instituições.

“Temos gente criticando a autonomia da universidade e muitos questionam até a existência da universidade pública. Mas é importante destacar que a pesquisa de extrema qualidade só pode ser feita nestas universidades”, diz Knobel, que também comenta resultados do investimento. “No caso da Unicamp, por exemplo, nós temos hoje, cadastradas, 584 empresas que denominamos empresas filhas da Unicamp, criadas a partir de alunos, ex-alunos, ex-funcionários e ex-professores. Essas empresas geram em torno de 28 mil empregos diretos e um faturamento de R$ 3 bilhões de reais. Então, quando alguém me pergunta: ‘qual é o retorno da universidade pública’? Está aí”.

Acreditando que a sociedade tem interesse em financiar a universidade, o reitor defende políticas afirmativas como cotas sociais e raciais para promover o desenvolvimento do país.

Marcelo Knobel, no entanto, também é realista. Nesta entrevista exclusiva ao Independente, em parceria com a Rede Popular e o canal Politike por Bernardi, ele informa que a Unicamp vive problemas financeiros atualmente.

Independente – Qual é a situação financeira da universidade?

Marcelo Knobel – Bastante crítica. Vivemos um momento de crise na universidade, que não é exclusividade da Unicamp. É uma crise generalizada, que ocorre em todas as universidades públicas paulistas, federais, prefeituras, estados… Na Unicamp, em particular, também é uma crise bastante complicada. Nosso saldo e reserva estão diminuindo. Portanto temos que tomar medidas muito dramáticas e muito difíceis internamente para reduzir os gastos, aprimorar e otimizar as despesas da universidade. Também estamos conversando com diversos setores da sociedade para ampliar os recursos, fazendo convênios, trabalhando com órgãos públicos, discutindo a melhora do sistema de saúde com o Governo do Estado para melhorar o financiamento da área de saúde. Então estamos nos movendo de todas as formas para aumentar as receitas e diminuir as despesas, no sentido de equilibrar as finanças da universidade.

Independente – E essa crise afeta o ensino e a pesquisa?

Marcelo Knobel – Não, ainda não aconteceu. Porém nosso papel é justamente evitar que isso aconteça. Estamos tomando uma série de medidas paliativas e, neste momento, temporárias, para evitar prejuízos em nossas atividades fins, que são ensino, pesquisa, atendimento a população em nossos hospitais e a extensão de nossas atividades à comunidade. Isso é algo fundamental, que realmente não pode ser afetado por uma crise porque então a universidade pública deixa de ter sentido.

Independente – As notícias que saem na mídia sobre as universidades públicas são muito preocupantes. A sociedade teme que elas estejam indo à falência ou decadência.

Marcelo Knobel – Não chega a esse ponto. Porém, temos realmente que tomar cuidado porque estamos constantemente sob ataque. Temos alguns valores: a universidade deve ser pública, gratuita, de qualidade e precisa atender a sociedade. Temos cada vez mais gente criticando o fato de a universidade pública ser gratuita. Temos gente criticando a autonomia da universidade e muitos questionam até a existência da universidade pública. Mas é importante destacar que a pesquisa de extrema qualidade só pode ser feita nestas universidades. Muitas áreas só podem acontecer e acontecem em universidades públicas. Por nosso papel social no atendimento à população, nas pesquisas e na extensão à universidade, é fundamental que a universidade pública seja financiada pela sociedade. Mas nos estamos falhando em algumas coisas. Primeiro porque a universidade exige uma autonomia exige uma responsabilidade que muitas vezes não foi realizada. Precisamos ter autonomia forte, mas também responsabilidade para usar bem os recursos disponíveis, pois a sociedade afinal financia e investe em nós. Em segundo lugar, temos que melhorar a comunicação e mostrar para a sociedade que, sem uma universidade pública de qualidade, nosso país não tem futuro. Ou seja, o Brasil não teria chegado onde chegou hoje e nossos filhos e netos não terão futuro se a universidade pública deixar de existir. Então é importante destacar isso com toda força. Temos que mostrar todo bem que fazemos para devolver os recursos que a sociedade coloca em nossa gestão diária.

Independente – Então você é contra a ideia de cobrar mensalidade dos alunos.

Marcelo Knobel – Sou contra.

Independente – Sobre a democratização do acesso ao ensino: o senhor é favorável às políticas afirmativas, como cotas raciais e para alunos de escolas públicas?

Marcelo Knobel – Sou favorável. Trabalhamos essa questão de forma bem cuidadosa. A Unicamp foi pioneira nas ações afirmativas, quando introduziu, em 2003, o PAAES, Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social. É um programa de bonificação inédito e único na época, que ainda funciona. Ele foi responsável por manter cerca de 30% de estudantes de escolas públicas na Unicamp. Depois, em 2010, introduzimos o Profis, Programa de Formação Interdisciplinar Superior, que é completamente inovador e busca, ainda na fase piloto, trazer os melhores estudantes de todas as escolas públicas da cidade de Campinas. E esse programa tem funcionado muito bem, apesar de ser um programa pequeno. Agora estamos discutindo em fase avançada a introdução das cotas étnico-raciais e uma serie de inovações diferentes para o vestibular de 2019. Espero que as decisões saiam no final do ano. A ideia é que a sociedade seja representada aqui dentro. Essa representatividade trará força e melhoria para nossa universidade pública. Temos convicção que teremos melhores estudantes quando tivermos uma universidade mais diversa.

Independente – Muitos dizem que a universidade é uma torre de marfim afastada da sociedade. O que a Unicamp tem feito para aproximar a sociedade, sobretudo no campo local?

Marcelo Knobel – Temos, como acabei de mencionar, o Profis, que traz estudantes de diversas escolas públicas de Campinas. Um detalhe impressionante: quando começamos a discutir e a pensar no Profis, fizemos uma pesquisa e percebemos que 70% das escolas públicas de Campinas nunca tinham colocado estudantes na Unicamp. Esse programa buscou mitigar um pouco esta questão. Ainda é um programa piloto, um programa pequeno, mas temos diversos programas sociais. Vamos a comunidade fazer programa de iniciação musical, orquestra e formação de futuros talentos na música. Então realmente temos o potencial de mudar vidas. Também não podemos esquecer que nosso setor hospitalar, nossa área de saúde aqui, é a principal referência da macrorregião de Campinas. É o hospital de referência da região. E é, em nossa opinião, subfinanciado pelo Governo do Estado porque abrange uma região muito grande, até de Minas.

Independente – Espalha-se pelas câmaras municipais do país os projetos inspirados no Escola sem Partido. Um dos alvos desse projeto é a universidade. Acusam as instituições de formar gente de esquerda que logo forma mais gente dessa ideologia. O que o senhor acha desse projeto?

Marcelo Knobel – Eu sou completamente contrário. Esse projeto é atrasado e vai na contramão do que se discute na sociedade. Temos que ter alguns princípios básicos de liberdade de expressão e de discussão. O que falta é a possibilidade de expressar suas ideias e de ter o respeito do próximo. Você pode ouvir e discordar, mas não necessariamente entrar numa briga e num embate que não leva a nada. Essa polarização extrema não tem resultado positivo. Só faz que a polarização aumente mais ainda. Esse tipo de proposta e de debate não tem futuro. Então temos uma postura bastante firme e contrária a esse tipo de atitude e a outras questões também. Há essa excessiva moralização nas exposições de arte que realmente mostram um atraso intelectual bastante importante.

Independente – O projeto fala da universidade como se existisse um pensamento homogêneo na universidade. Mas a universidade é heterogênea em termos de diversidade.

Marcelo Knobel – Não só o ambiente heterogêneo, como diferentes opiniões devem ser respeitadas. Isso é o mais importante. Elas têm que ser ouvidas, discutidas e o fundamental é ter a capacidade de ser convencido por alguma ideia. Se você tem uma cabeça que não é permeável a novas ideias, discussões e argumentos, para que discutir? Não teria sentido algum. Então realmente temos a oportunidade de ter um pensamento crítico e de poder criticar, avaliar e formar uma opinião. O papel da universidade é dar a base para que isto aconteça. E é na universidade que essa diversidade deve aparecer, aflorar e ser respeitada.

Independente – Um ranking britânico mostrou que a Unicamp ultrapassou a USP por primeira vez na América Latina. Quais fatores influenciaram este resultado?

Marcelo Knobel – Eu sou bastante críticos aos rankings de maneira geral porque flutuam muito e de um ano a outro há mudanças mínimas que alterações. Em nosso caso, especificamente este ano e neste ranking, que é o Times Higher Education, tivemos uma colocação muito boa, principalmente devido a nossa atuação com o setor produtivo, com as empresas, as filhas da universidade. Conto um fato concreto que ilustra o papel da universidade pública, veja só: no caso da Unicamp, por exemplo, nós temos hoje, cadastradas, 584 empresas que denominamos empresas filhas da Unicamp, criadas a partir de alunos, ex-alunos, ex-funcionários e ex-professores da Unicamp. Essas empresas geram em torno de 28 mil empregos diretos e um faturamento de R$ 3 bilhões de reais. Então, quando alguém me pergunta: “qual é o retorno da universidade pública”? Está aí. Se você quer analisar um só caso, verá que é o dobro do que a sociedade investe na gente e trata-se de um trabalho feito há muito pouco tempo. É nesse setor que a Unicamp inovou ao criar a agência de inovação, a Inova, e com isto, nasceu um ciclo bastante interessante e produtivo de organização deste ecossistema de empreendedorismo e inovação. Então tivemos um destaque importante. Mas quero frisar que as três universidades públicas paulistas, Unesp, USP e Unicamp estão entre as dez primeiras da América Latina, o que deixa nosso sistema público com bastante orgulho e mostra sucesso.

Independente – O senhor poderia citar as principais contribuições que a Unicamp tem dado nos campos de ciência e tecnologia especificamente?

Marcelo Knobel – É difícil colocar exemplos em termos reais aqui. Nós temos contribuído ativamente com o setor aeronáutico, com a Ambraer, com a Petrobrás, no pré-sal, mas também atuamos diretamente no desenvolvimento das comunicações óticas no país, com a formação, na época, da Telebrás, e todas as comunicações brasileiras, em centenas ou milhares de outros projetos. Hoje a Unicamp é responsável por cerca de 8% da produção científica nacional. Tem mais de mil patentes ativas. Temos todas essas empresas que eu mencionei, então seria injusto destacar uma ou outra pesquisa apenas. Mas estamos tendo um destaque nacional e internacional e não é à toa que estamos entre as melhores universidades da América Latina.

Independente – Para terminar, o senhor poderia comentar o que espera em seu mandato?

Marcelo Knobel – Estamos num momento financeiramente complicado, tomando decisões, digamos, bastante impopulares, e espero poder contribuir nesse equilíbrio da universidade, criar a base para retomar o crescimento e atuar em diversos setores. Não tive tempo de mencionar, mas só nestes meses de mandato nós criamos a Cátedra de Refugiados, entramos para o pacto da cidadania e diversidade, estamos atuando em diversas ações no agropólo de Campinas, no empreendedorismo e na formação de um sistema de inovação local. Ou seja: temos feito diversas ações no sentido de mostrar à sociedade a importância da universidade pública e manter as bases para que a gente continue agindo em nossas atividades, da melhor maneira possível.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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